Onde está a Venezuela?


Os primeiros atingidos pela degeneração da situação da Venezuela, seus vizinhos, a começar o Brasil, devem ser também os primeiros a se mobilizar contra a ditadura de Maduro


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 07 de Agosto de 2017 às 09:25

  | Doutor em ciências militares e historiador


Uma sequência de fatos ocorridos neste final de semana despertou a América do Sul para a gravidade do que está ocorrendo na Venezuela. Tudo se precipitou com a reunião, neste sábado 5 de agosto, da Assembleia Constituinte (eleita fraudulentamente no domingo passado) para depor a Procuradora-Geral Luisa Ortega Diaz, a qual, nos limites de sua autoridade institucional, havia manifestado a intenção de investigar o pleito.

O que a procuradora talvez não soubesse e que muita gente aqui no Brasil  não sabe (ou teima em não saber) é que regimes autoritários não tem limites.

À deposição da Procuradora-Geral seguiu-se a suspensão de seus direitos e  a tentativa de sua prisão. Como não poderia deixar de acontecer em um mundo civilizado que não aceita ditaduras, seguiram-se as reações. O Mercosul suspendeu a Venezuela indefinidamente; a OEA aplaudiu a decisão do Mercosul; e o Departamento de Estado não fez por menos: colocou Nicolas Maduro juntinho com Kim Jong Un, Bashar al-Assad e Robert Mugabe, todos proibidos de entrar nos Estados Unidos e com seus bens no país congelados.

E trazendo novas tensões ao quadro político do país já manchado de sangue e comprometido por mais prisões arbitrárias de líderes oposicionistas, o episódio ainda obscuro neste domingo do levante no Forte Paramacay, em Valência, sede da 41a Brigada Blindada do Exército, renovou a expectativa em torno da grande pergunta que ronda a tragédia venezuelana: o que farão os militares?

Neste momento, provavelmente, nada. A Venezuela já é uma ditadura, e isso ocorreu por que as suas forças armadas o permitiram, em boa parte, devido à corrupção que nelas lavra há tempos, submetendo os seus altos escalões à vontade chavista e ao controle cubano. Já não estão em condições de cumprir seu papel como forças institucionais a serviço da nação, a exemplo do Exército Brasileiro.

Agravando-se o conflito armado entre as partes irreconciliáveis da política venezuelana, pode-se esperar que frações subalternas do exército daquele país se rebelem e armem a população para resistir às forças do governo e, principalmente, às suas milícias, que parecem estar fora de controle. É como alguns analistas veem o envolvimento das forças armadas venezuelanas na guerra civil que vai se desenhando.  

Por enquanto, há muita desinformação a respeito do que realmente se passa na Venezuela, mas nesse jogo é possível estimar quais cartas estão com quem.

Como aconteceu em escala menor no affaire de Honduras em 2009, os Estados Unidos têm as melhores cartas, reservadas porém, para jogos maiores, com a Rússia, Coréia do Norte e Irã.

Enxergando a Venezuela no seu quintal estratégico, os Estados Unidos começam a dar sinais que gostariam de uma “mudança de regime”, algo que nos últimos anos causou mais problemas do que soluções. E nada impede que os seus competidores na arena global enxerguem no “quintal venezuelano” uma excelente oportunidade para causar problemas aos norte-americanos.   

Além disso, o espaço para uma acomodação interna dos antagonistas venezuelanos está se encurtando rapidamente, até para supostos traidores do regime, dispostos a entregar Maduro para se salvar. A deterioração da situação vai impor escolhas drásticas, sem retorno, configurando o cenário da fuga para frente.

É onde se encontra a Venezuela. À beira de um desastre de coordenadas bem conhecidas.

A primeira delas é geopolítica. A Venezuela está na América do Sul, é um problema sul-americano e deve se transformar na principal preocupação dos líderes sul-americanos, cujas reprovações e condenações ao regime bolivariano têm se mostrado absolutamente inócuas. Esse tempo passou. A partir de agora, as ações em relação à Venezuela devem ser de contenção do regime ditatorial lá implantado.

Os primeiros atingidos pela degeneração da situação da Venezuela, seus vizinhos, a começar o Brasil, devem ser também os primeiros a se mobilizar contra a ditadura de Maduro. Os atores maiores estão mais preocupados com seus jogos globais do que em evitar o desastre venezuelano, o qual, eventualmente, pode até ser-lhes útil.

Infelizmente, parece que o Brasil não aprendeu nada com o  desastre da Colômbia, que se estendeu às suas favelas.
A segunda coordenada é ideológica. A Venezuela é aqui, no Brasil desejado ardentemente pelo PT, PC do B e PSOL e PDT, cujas fantasias se rasgaram no desvario do apoio à ditadura de inspiração chavista.

As lideranças da esquerda brasileira estiveram há pouco no encontro do Foro de São Paulo, em Manágua, na Nicarágua, para tratar desse suporte, deixando claro que farão de tudo para mobilizar vontades e recursos em favor da ditadura de Maduro.

Mas as verdadeiras lideranças da sociedade civil brasileira não podem se furtar ao desafio representado pela ação da esquerda revolucionária em prol da consolidação do totalitarismo comunista nesse importante vizinho do Brasil, o que, no caso, significa, nada menos, do que a retomada do projeto há pouco abortado aqui, com o impeachment de Dilma Rousseff.  A Venezuela é a tábua de salvação do pior da esquerda sul-americana.

É por aí que se descobre onde está a Venezuela: como uma bomba armada, para explodir exatamente no colo no Brasil.

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PS: enquanto isso, o Ministro da Defesa fala de um “resultado razoável” do emprego da Brigada Paraquedista e dos Fuzileiros Navais, respectivamente a reserva estratégica e o núcleo da força expedicionária do Brasil, contra roubo de cargas e tráfico de drogas na Zona Norte do Rio de Janeiro.  
Quem está mesmo sem coordenadas é o Brasil.   

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