São Paulo, 21 de Janeiro de 2017

/ Opinião

O varejo em 2017
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Somente a perseverança no ajuste fiscal e uma redução menos tímida dos juros serão capazes de contribuir para uma recuperação da atividade

Aquele que não prevê as coisas longínquas expõe-se a desgraças próximas
(Confúcio)

O consumo das famílias brasileiras, que na última década foi o principal motor do crescimento da atividade econômica pelo lado da demanda, depende fundamentalmente de dois fatores: renda e crédito.

Com relação ao primeiro, se trata tanto do rendimento total auferido no mercado de trabalho, que, do ponto de vista macroeconômico se define pela chamada massa de rendimentos (rendimento médio X número de ocupados), quanto das transferências de renda realizadas pelo Governo, aí incluindo-se os benefícios previdenciários e aqueles relacionados à proteção social (Bolsa-Família, etc).

Com relação ao crédito, devem ser consideradas as linhas concedidas à pessoa física mais direcionadas ao consumo, incluindo-se também as condições de financiamento, tais como taxa de juros e prazos, que conjuntamente com as concessões inicias determinam o valor da prestação que será assumida pelas unidades familiares.

Desse modo, as expectativas das famílias com relação à evolução futura dos salários, do emprego, da inflação e do crédito afetam, por sua vez, sua propensão a realizar novas despesas.

Desse modo, pode-se propor que essas expectativas possam servir para antecipar o comportamento das vendas do varejo, ou seja, seriam um indicador antecedente dessa importante variável macroeconômica.

Desde abril de 2005, a empresa IPSOS Public Affairs calcula para a Associação Comercial de São Paulo um Índice Nacional de Confiança (INC), que, a partir de entrevistas domiciliares, considera os seguintes itens: i) situação econômica atual da região e perspectivas futuras; ii) situação financeira pessoal atual e perspectivas futuras; iii) segurança nas grandes compras (ex. carro); iv) segurança nas compras médias (ex. fogão); v) capacidade em investir no futuro; e vi) presente segurança no emprego e perspectivas de segurança.

Estudos realizados pelo Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (IEGV/ACSP) mostram relação positiva e significativa entre o INC e o índice do volume de vendas do varejo restrito nacional (que exclui veículos e material de construção), divulgado mensalmente pelo IBGE na Pesquisa Mensal do Comércio (PMC).

Esses estudos, inclusive, mostram que variações da confiança do consumidor poderiam afetar sua disposição a comprar em até 7 meses à frente.

De acordo com isso, construiu-se um modelo estatístico de projeção da tendência das vendas do varejo, medida pela variação anual (nos últimos 12 meses) do índice da PMC, utilizando como variável básica a confiança do consumidor, que é capaz de sintetizar a situação e, principalmente, as expectativas futuras das famílias em quanto a renda, emprego e crédito.

Abordagem similar também é utilizada nos Estados Unidos e na Europa, obtendo-se, tal como no caso brasileiro, excelentes resultados.

Considerando os últimos dados do INC, o modelo indica que o volume comercializado pelo varejo nacional apresentaria redução da intensidade de sua queda anual (em 12 meses) até o fim do ano, tendência que se repetiria ao longo dos primeiros quatro meses de 2017, porém de forma muito lenta (veja o gráfico abaixo).

Em outras palavras, embora a projeção anterior sugira que o varejo brasileiro tenha alcançado o “fundo do poço” durante 2016, mostraria praticamente uma situação de estagnação durante o período janeiro-maio do próximo ano.

Essa “prostração” do comércio refletiria a crescente taxa de desemprego, a queda na renda familiar, a escassez de crédito e a piora das condições de financiamento, afetando de forma importante a confiança do consumidor, e, portanto, sua disposição futura a comprar.

Apesar da dificuldade de realizar projeções, frente ao cenário de crise econômica e, principalmente de instabilidade política, os resultados sugerem que 2017 ainda poderá ser um ano difícil para o varejo e para toda a economia.

Somente a perseverança no ajuste fiscal e uma redução menos tímida dos juros serão capazes de contribuir para uma recuperação da atividade, que, ao que tudo indica seria muito mais lenta do que se esperava.



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