São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O Estado Islâmico está perdendo, mas ninguém está ganhando
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O grupo radical sunita não tem mais suas fontes iniciais de financiamento e enfrentou resistência eficaz de xiitas e curdos

Com esse título, Aron Lund publicou intrigante análise no site do Carnegie Endowment for Peace do que se passa na guerra ao terror na Síria e no Iraque. Vale a pena examinar seus argumentos.

Para ele, parece óbvio que o Estado Islâmico está perdendo a guerra. São muitas as razões que explicam a derrota. Primeiro, por tentar extinguir o Estado iraquiano; segundo, por declarar guerra ao mundo islâmico ao anunciar que estava recriando um califado nos territórios conquistados; finalmente, pelas cenas de atrocidades que cometeu com o intuito de aterrorizar seus inimigos – os americanos e seus aliados, mas também os xiitas e os combatentes de países vizinhos à área de conflito.

O resultado prático dessas ações é a perda crescente de território ocupado desde que sua influência militar atingiu o pico, no último trimestre de 2014.

Da mesma forma, a tentativa do Estado Islâmico de subjugar os curdos foi quase que imediatamente repelida. Os combates permanecem vivos em algumas áreas, especialmente entre as forças regulares do governo sírio e rebeldes sunitas locais.

Relevante também observar que o apoio militar do Irã às milícias curdas e xiitas tem permitido significativas vitórias das forças que combatem o Estado Islâmico em toda a área em conflito.

Os Estados Unidos e seus aliados, em curiosa porém compreensível aliança com os iranianos, têm contribuído para os resultados observados até agora.

A aparência de invencibilidade do Estado Islâmico vem sendo destruída, à medida que as forças regulares da Síria e do Iraque e as milícias curdas e xiitas infligem derrota após derrota ao Estado Islâmico.

Com isso, a capacidade de atração de voluntários para sua causa reduziu-se, dificultando ainda mais sua capacidade de resposta militar.

Outra consequência importante da aliança de todas as forças que combatem o Estado Islâmico é a crescente dificuldade financeira com que se defronta o último. À medida que o califado vai perdendo território, reduz-se sua capacidade de tributar e extorquir os cidadãos dos territórios ocupados, sua principal fonte de recursos.

Os bombardeios aéreos contra instalações do califado produzem efeito semelhante. Finalmente, o petróleo obtido pelo califado hoje vale menos da metade do que valia em junho do ano passado.

Tudo isso obviamente vai enfraquecendo a capacidade do Estado Islâmico, não somente de expandir-se, mas de manter o que já obteve até aqui. Fica cada vez mais difícil remunerar os seus combatentes com os butins obtidos nos territórios ocupados, o que serve como outro fator a desestimular a captação de soldados para a sua causa.

O resultado final da perda de territórios, receita financeira e combatentes é a crescente incapacidade de impor o mínimo de instituições que caracteriza um Estado propriamente dito.

Como na Líbia, o autoproclamado “Estado” islâmico vai dando lugar a facções espalhadas pelos territórios da Síria e do Iraque, mais parecendo gangues que construtores de um novo Estado na região.

Essa incapacidade decorre também da crescente falta de apoio das populações locais, que de aliados passam a tornarem-se suspeitas, requerendo constante patrulhamento.

Tribos e outras populações isoladas precisam ser severamente punidas para servir de exemplo às demais, enfraquecendo o apoio espontâneo que tiveram no início da rebelião.

Em vista dessa tendência, a questão central é entender porque a guerra não tem um fim. Há várias razões que explicam essa ocorrência.

Primeiro, embora derrotados em muitas frentes, continuam controlando outras. Ainda que sejam fragorosamente derrotados na Síria e no Iraque, nada impede os jihadistas de buscar oportunidades de butins em outras plagas.

Essas podem estar próximas, como no Líbano e em partes ainda ocupadas no Iraque, ou distantes, como no Egito e na Líbia e na distante África Ocidental. 

Como bem observou Lund, o Estado Islâmico é consequência e não causa dos conflitos na Síria e no Iraque.

Os movimentos sectários nesses países atraíram os jihadistas para seus territórios; nada impede que esses se desloquem para outras localidades, onde existam oportunidades de luta de combatentes fanáticos que desprezam a vida – de terceiros e as suas próprias.

Da mesma forma, todos os que contribuem com recursos financeiros para que a luta continue não serão desestimulados por derrotas na Síria e no Iraque. A sua causa vai muito além desses territórios.

Portanto, as perspectivas de paz duradoura na região permanecem remotas. A eventual vitória contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque não somente não pacificarão essas regiões, como aumentarão as chances de novos conflitos em outras partes do Oriente Médio e da África.
 



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