São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O discurso de Dilma
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Ao tomar posse para o segundo mandato, presidente transmitiu a imagem irrealista de que os poucos problemas estão sendo resolvidos

"Ahora que teniamos todas las respuestas, se cambiaram las preguntas"
(pichação em um muro em Quito, Equador)

Um estrangeiro desinformado sobre o Brasil que ouvisse ou lesse o discurso de posse de Dilma Roussef imaginaria que o pais está vivendo um período de prosperidade, estabilidade, e crescimento, e que a maior parte da população lhe concedeu um segundo mandato para continuar com sua política, fazendo apenas pequenos ajustes.

Um brasileiro bem informado, por sua vez, se perguntaria se as afirmações da Presidente sobre "sempre ter orientado minhas (suas) ações pela convicção sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade (?) do controle da inflação e do imperativo da disciplina fiscal" significa que, nesses casos, suas ações vão continuar como até agora , pois " em todos os anos do meu (dela)  primeiro mandato, a inflação permaneceu abaixo do teto da meta e assim vai continuar" .

Imagina, também, como será feito o ajuste necessário nas contas públicas com "a valorização do salário mínimo que continuaremos assegurando", "a manutenção de todos os direitos trabalhistas e previdenciários"  e "com o menor sacrifício ´possível".

No tocante à educação, o novo lema do governo, "Brasil, Pátria Educadora", parece indicar que a "prioridade das prioridades"  se baseará em injetar mais recursos na área educacional, sem um diagnóstico claro dos verdadeiros problemas, e uma a definição de uma política voltada para melhorar a eficiência do uso das verbas e a qualidade do ensino.

O que mais preocuparia, no entanto, o brasileiro bem informado, é a veemente defesa da presidente contra os "inimigos externos" pois a Petrobras é "alvo de um cerco especulativo de interesses contrariados com o regime de partilha e a política de conteúdo nacional", o que indica que essa política deva continuar.

Se essa posição já era questionável quando o preço do petróleo estava na casa dos cem dólares o barril, pela falta de capacidade financeira da Petrobrás de realizar os investimentos necessários para explorar toda a potencialidade do pré-sal, agora que a situação da   empresa se agravou, não apenas em virtude da política de controle de preços, mas, também, da maior dificuldade de acesso ao mercado financeiro em consequência do escândalo do Petrolão, e que o valor desse produto caiu pela metade, parece muito mais difícil continuar na mesma linha de atuação.

Parece que a Presidente não consira que, "se cambiaram las preguntas", isto é, a situação interna e externa, e insiste nas mesmas respostas. Além disso, considerar que houve apenas desvios de conduta ou "malfeitos" por parte de alguns funcionários da Petrobrás, o que será sanado com novos controles, é ignorar que o que aconteceu, e provavelmente continua acontecendo em outras empresas e fundos governamentais, é o esquema organizado para a conquista (ou será agora apenas uma questão de manter ) o poder, para o que o aparelhamento da máquina pública é condição essencial. Se continuar essa aparelhamento, não adiantarão os controles, por mais sofisticados que sejam, e nem novas leis para punir desvios

Na política externa será mantida a "prioridade à América do Sul, América Latina (a do Sul não é parte?) e do Caribe, sem discriminação de ordem ideológica", embora faça concessão sobre a importância das relações com os Estados Unidos, Europa e Japão, negligenciadas no primeiro mandato.

Na área interna o objetivo expresso é o de " ampliar e fortalecer a democracia, democratizando verdadeiramente o poder"  o que significa "lutar pela reforma política, ouvir com atenção a sociedade e os movimentos sociais (não são parte da sociedade, ou uma categoria a parte) e buscar a opinião do povo para reforçar a legitimidade das ações do executivo". Parece claro o objetivo de implantar a "democracia direta" na linha dos Decreto 8243 que criou os Conselhos participativos, derrubado na Câmara e a ser submetido ao Senado.

Em conclusão, acredito que o estrangeiro desinformado continuaria muito sem entender como está a situação do país e o que se pretende fazer, enquanto o brasileiro bem informado ignoraria as auto-louvações, mas teria razões para se preocupar com algumas das definições do que o governo pretende fazer nesse segundo mandato, embora mantenha ainda a esperança que a racionalidade que parece predominar na equipe econômica possa prevalecer.      



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