São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Opinião

O debate politizado sobre a austeridade
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A hostilidade dos conservadores contra Keynes não é um modismo intelectual do momento. É algo persistente e que atravessa gerações

Em recente post de blog, Tony Yates pergunta: "Por que não conseguimos nos dar bem?" Ao lamentar mais uma defesa ruim — obviamente política — da austeridade, ele diz que "é decepcionante que o debate tenha se tornado uma coisa entre direita e esquerda. Não entendo por que tem de ser assim." (Leia o post aqui).

Contudo, o debate sobre a economia dos ciclos econômicos sempre foi uma coisa muito discutida, sobretudo pela esquerda e pela direita.

A direita, especificamente, sempre criticou muito a ideia de que a política fiscal expansionista possa ser de alguma ajuda ou que a austeridade possa ser prejudicial. Na maior parte do tempo, os conservadores também se opõem à política monetária expansionista. Portanto, a politização do debate macroeconômico não é mera casualidade — ele tem raízes profundas.

Alguns de nós temos discutido a respeito dessas raízes em artigos e posts de blog durante anos. Observamos que depois da Segunda Guerra Mundial, houve um esforço conjunto e deplorável da parte dos conservadores e de interesses associados a empresas no intuito de evitar o ensino da economia keynesiana nas universidades, um esforço que conseguiu matar o primeiro compêndio realmente keynesiano.

O livro de William F. Buckley Jr., "Deus e o homem em Yale" [God and man in Yale], publicado em 1951, era uma crítica ao ateísmo (ou a não adoção da doutrinação religiosa, o que, para ele, era a mesma coisa) e ao coletivismo — e com isso ele tinha em vista principalmente o ensino da macroeconomia keynesiana.

William F. Buckley Jr., fundador da revista National Review, em 1965/Sam Falk/The New York Times

Mas, por que tanto antagonismo? As melhores histórias parecem estar vinculadas a motivações políticas dissimuladas. A economia keynesiana, se verdadeira, propõe que os governos não se preocupem exageradamente com a segurança dos negócios. Por conseguinte, não é necessário responder às recessões cortando programas sociais.

Assim sendo, a economia keynesiana não deve ser verdadeira e, portanto, é preciso resistir a ela. Ou, conforme eu disse em 2003, "uma maneira de entender o impulso por trás da austeridade consiste em aplicar uma espécie de juramento de Hipócrates ao contrário: 'Em primeiro lugar, não faça nada para atenuar o mal.' Isto porque as pessoas devem sofrer para que as reformas neoliberais prosperem".

Se você acha que estou sendo leviano demais, que estou me deixando levar por um clima de conspiração, ou as duas coisas, tudo bem, mas qual é sua explicação? A hostilidade dos conservadores contra Keynes não é um modismo intelectual do momento. É algo persistente e que atravessa gerações, portanto é obviamente um sentimento profundamente arraigado.

NINGUÉM DÁ A MÍNIMA PARA O DÉFICIT

Aqui no Reino Unido, onde todo o mundo continua a acreditar que os déficits do orçamento constituem o principal problema da economia, apesar das evidências esmagadoras do contrário, faz um bem enorme olhar para os EUA de vez em quando e contemplar o colapso absoluto da agenda que critica o déficit.

Para isso, basta, por exemplo, observar o desaparecimento do ex-senador Alan Simpson do centro das atenções. Ou então analisar as pesquisas que pedem às pessoas que apontem problemas que consideram importantes. A CNN/ORC International, por exemplo, faz há vários anos um questionamento sistemático a esse respeito. Segue o percentual dos eleitores que considera o déficit do orçamento "o problema mais importante que o país enfrenta atualmente":

— Janeiro de 2013: 23%;
— Maio/junho de 2014: 15%;
— Setembro de 2014: 8%

Na mais recente pesquisa da CNN/New York Times, cujas perguntas eram abertas [quando o entrevistado responde livremente sem se limitar a um breve sim ou não], o déficit nem sequer apareceu na lista das respostas mais frequentes.

E sabe de uma coisa? O público está certo. Quem está, e esteve sempre errado, são as Pessoas Muito Sérias.

 



Se não deixarmos nossa miopia política de lado e afastarmos nossos preconceitos de classe, não vamos prosperar numa aliança estratégica e soberana sobre o baixo clero da política

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Pode-se dizer que as novas gerações da atualidade política brasileira são a essência de tudo de mal, ruim e ilegal, que a chamada classe política faz ao Brasil.

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Mesmo as melhores intenções podem levar às piores catástrofes

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