Opinião

O que os mercados de títulos sinalizam


As taxas em declínio nos dizem que os mercados esperam economias bastante fracas e, possivelmente, deflação nos próximos anos, ou até mesmo uma crise total


  Por Paul Krugman 12 de Fevereiro de 2016 às 09:01

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Enquanto os americanos continuam obcecados com a política doméstica ?não que haja algo de errado nisso, uma vez que muita coisa depende do próximo líder da nação mais poderosa do mundo, isto é, se ele será um racista xenófobo, um teocrata sinistro, um executivo inábil ou tudo isso junto?, uma coisa assustadora está acontecendo nos mercados financeiros, onde os preços dos títulos da dívida, de modo especial, indicam iminência de pânico.

Sei que a sabedoria das multidões é muitas vezes superestimada ? o economista Paul Samuelson disse brincando certa vez, e o chiste ficou famoso, que o mercado acionário havia predito nove das cinco últimas recessões.

Contudo, os mercados de títulos da dívida são um pouco menos caprichosos do que as ações, e também mais intimamente associados a uma perspectiva econômica mais ampla.

(Uma economia frágil tem efeitos heterogêneos sobre as ações ? lucros reduzidos, mas também taxas de juros baixas ?, ao passo que seu efeito sobre os títulos são ambíguos).

E o que as taxas em declínio nos dizem é que os mercados esperam economias bastante fracas e, possivelmente, deflação nos próximos anos, ou até mesmo uma crise total.

Entre outras coisas, esse mundo seria um péssimo lugar para eleger um membro de um partido político que passou os últimos sete anos criticando impiedosamente o ajuste fiscal e o estímulo monetário e não aprendeu nada com a falha absoluta de suas predições não realizadas.

Impostura estrutural revisitada

Bryan Caplan, professor de economia da Universidade George Mason, disse recentemente que ganhou uma aposta do colega, também professor de economia, Tyler Cowen. A aposta foi a seguinte: a taxa de desemprego nos EUA cairá 5%? Talvez seja bom lembrar o contexto em que a aposta foi feita.

Quando estourou a Grande Recessão em 2008 ? um choque de demanda, se é que houve mesmo tal choque ? num piscar de olhos brotou entre as elites um estranho consenso segundo o qual boa parte do crescimento do desemprego era "estrutural", e que não poderia ser revertido simplesmente através da retomada da demanda.

Os trabalhadores simplesmente não tinham a formação certa para isso, dizia o argumento. 

Muitos de nós argumentamos exaustivamente que essa era uma ideia tola.

Se a formação era o problema, onde estavam as ocupações com salários em ritmo rápido de crescimento? Observei que as pessoas costumavam dizer a mesma coisa durante a Grande Depressão, porém viram seu argumento desacreditado quando finalmente tivemos um grande estímulo fiscal chamado Segunda Guerra Mundial.

De algum modo, porém, a doutrina se tornou cada vez mais forte nos círculos das elites porque parecia séria e ponderada, ao contrário da proposição aparentemente frívola de que tudo de que precisávamos era gastar mais.

Na verdade, a ideia de que o problema do desemprego nos EUA era sobretudo estrutural foi apresentada como um fato simples, e não como uma hipótese rejeitada pela maior parte dos economistas profissionais.

Que coisa, não?

TRADUÇÃO: A.G. Mendes

FOTO: Traders trabalhando na Bolsa de Nova York/Kevin Hagen/The New York Times

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Krugman 12/02