Opinião

O que explica a ascensão de Donald Trump


O que vemos do lado republicano é que praticamente ninguém, com exceção de um punhado de experts e think tanks contratados, dá a mínima para a ideologia oficial do partido


  Por Paul Krugman 29 de Janeiro de 2016 às 08:27

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Os partidos Republicano e Democrata, conforme revelaram as primárias de ambos, não são totalmente simétricos.

Do lado democrata, a discussão gira em torno da teoria da mudança: o eleitor se preocupa, sim, com prioridades progressistas, e se acha dividido entre dois candidatos com ideologias muito semelhantes, mas com diferentes visões do politicamente possível.

O que vemos do lado republicano, em contrapartida, é que praticamente ninguém, com exceção de um punhado de experts e think tanks contratados, dá a mínima para a ideologia oficial do partido.

Lembra-se de quando o comentarista conservador Bill Kristol previu, no ano passado, que o apoio ao candidato republicano Donald Trump ruiria porque ele declarou que protegeria a Seguridade Social e o Medicare?

Surpresa: não há praticamente ninguém no mundo real que defenda um governo enxuto. Os doadores ricos querem redução de impostos, o que poderá levá-los, indiretamente, a apoiar cortes em programas de segurança social para liberação de fundos.

Contudo, gente que, de modo geral, se importa de fato com o gasto excessivo do governo (e que se opõe ao gasto exagerado com Aquelas Pessoas), será que essas pessoas existem? Não há um público assim.

E quanto aos valores morais e a responsabilidade pessoal? Esta semana, Jerry Falwell Jr. endossou a nomeação de Trump, que já se casou várias vezes, é namorador e não dá mostras visíveis de ser temente a Deus.

Como isso é possível? Greg Sargent, no Washington Post, diz que os evangélicos são impulsionados pelo medo do colapso da sociedade que aí está. Certamente isso está de acordo com o que temos visto.

Contudo, eu levaria o argumento um pouco mais longe. O que está realmente acontecendo é o temor (justificado) da erosão do patriarcado branco. Em outras palavras, tem a ver com autoridade, e não virtude.

Portanto, o estilo de vida de Trump e os "valores nova-iorquinos" não importam, contanto que se veja nele alguém que seja capaz de manter os Outros no seu devido lugar.

O que se via habitualmente era um movimento conservador que servia basicamente à plutocracia, ao mesmo tempo que mobilizava os eleitores aflitos com questões de raça e gênero, mantendo o tempo todo uma fachada filosófica libertária séria.

Mas agora que tudo isso veio abaixo, os motivos reais do partido vieram à tona.

Como eleger Donald Trump

1. Os democratas nomeiam Bernie Sanders. Não creio que Sanders não possa ser eleito; no entanto, quando analisamos as intenções de voto, temos de nos lembrar de que os números de Hillary Clinton refletem o percurso de uma pessoa que há mais de duas décadas é vítima de assassínio constante de caráter. Com relação a Sanders, os republicanos nem começaram a persegui-lo.

2. O ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, decide salvar o país entrando na disputa na condição de suposta alternativa aos extremos de cada partido.

Não é de hoje que os experts de centro insistem com ele para que se candidate, apesar de Obama estar empenhado na concretização de todas as suas principais políticas.

3. Alguns democratas migram para o lado de Bloomberg porque acatam de fato o que dizem esses experts de centro.

Dificilmente um republicano o fará ? lembre-se de que atualmente 2/3 deles apóia Trump, Ted Cruz ou Carson e, seja como for, nunca deram ouvidos a Bloomberg e aos valores de Nova York.

4. Trump é eleito com uma votação estrondosa.

FOTO: Trump em campanha no Iowa/Eric Thayer para o The New York Times

TRADUÇÃO: A.G.MENDES

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Krugman 29/01