Opinião

O Partido Republicano foi longe demais para fazer meia volta agora


A esta altura, Trump está à frente dos demais há tanto tempo que é muito difícil imaginar que aqueles que o apoiam pudessem, de repente, deixar de acreditar nele. Seria embaraçoso demais


  Por Paul Krugman 18 de Dezembro de 2015 às 15:00

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Imagino que ainda tenha gente esperando que, mais dia menos dia, a bolha de Donald Trump finalmente estoure! Mas, não é o que se vê.

Parece cada vez mais plausível a possibilidade de que ele conquiste a nomeação de candidato a presidente pelo Partido Republicano. 

Por quê?

Uma resposta ? talvez a mais importante ? é o que Greg Sargent vem enfatizando ultimamente no The Washington Post: a maioria dos eleitores republicanos apoia de fato as políticas de Trump.

Afinal de contas, ele está simplesmente dizendo de forma objetiva o que os candidatos tradicionais do partido sempre deixaram implícito durante anos em suas insinuações. Por que os eleitores haveriam de imaginar que não é assim que se deve proceder?

Contudo, eu acrescentaria uma observação singela: a esta altura, Trump está à frente dos demais há tanto tempo que é muito difícil imaginar que aqueles que o apoiam pudessem, de repente, deixar de acreditar nele. Seria embaraçoso demais.

É preciso ter em mente que esse constrangimento, e o desejo de evitá-lo, constituem fontes extremamente importantes de motivação.

Basta analisar o que aconteceu aos supostos entendidos que predisseram, há seis ou sete anos, que as taxas de juros disparariam e que a inflação sairia de controle. Praticamente nenhum deles admitiu que havia errado ou que deveria ter se empenhado mais em sua lição de casa. 

Em vez disso, muitos ? especialmente os acadêmicos ? ficaram ainda mais obcecados com a ideia de que, de algum modo, estavam certos; outros vêm tentando destruir a reputação daqueles dentre nós que estávamos certos. Ninguém gosta de passar por tolo, e muita gente faz de tudo para se convencer de que não é.

Pense agora em alguém que tenha apoiado Trump desde o verão. Para que a bolha de Trump estoure, esse indivíduo e outros iguais a ele teriam de levar as mãos atônitos à cabeça e dizer: "Gente, esse sujeito não é sério! Onde é que eu estava com a cabeça?"

Muito poucas pessoas fazem isso. Alguém que tenha passado meses apoiando Trump, apesar das denúncias do establishment republicano ? cerca de ¾ do partido ? fará de tudo para não ter de admitir que bancou o bobo.

A essa altura, esse tipo de pessoa insistirá que qualquer dado negativo a respeito de Trump é fruto da hostilidade da mídia tradicional. De fato, a durabilidade de Trump até o presente momento deverá torná-lo extremamente apto a sobreviver aos próximos meses.

Tudo isso é sinal de que mesmo que sua candidatura venha a perder força no final, o apoio dado a ele deverá migrar não para um candidato do establishment partidário, mas para uma figura de fora.

Quem conhece bem o senador Ted Cruz o odeia. Nesse cenário, isso provavelmente deve aumentar a atração por ele. 

A eleição geral, é claro, será muito diferente. No entanto, está cada vez mais difícil ver de que modo o establishment republicano conseguirá retomar o controle da situação.        

Paul Krugman - 18/12/2015