Opinião

O Brasil fica


Os poderes da República não estão em conflito entre si, estão contra o povo


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 13 de Outubro de 2017 às 11:09

  | Historiador


A quarta-feira, 11 de outubro, foi mais um dia de infâmia para o Brasil. Desprezando seus posicionamentos anteriores e a sociedade, ministros do STF compuseram uma maioria definida pelo voto de Minerva da sua presidente para decidir que caberá à Câmara ou ao Senado a última palavra sobre a aplicação das medidas cautelares previstas no Código de Processo Penal que o tribunal tomar contra parlamentares.

O legalismo de fancaria alegou que os poderes da República são independentes e que os representantes políticos eleitos têm imunidade.  Tudo em nome da democracia, do funcionamento harmônico dos poderes e da preservação do mandato dos representantes do povo.

Os votos dos ministros poderiam subsidiar excelentes estudos de caso de Direito Constitucional, desenvolvidos no ambiente acadêmico. Na vida real, o julgamento do STF poderá parar mesmo é nos livros de História, como o acontecimento que enterrou o combate à corrupção no Brasil.

Mas, apesar do relativismo jurisprudencial e do malabarismo retórico dos ministros do impensável, dois fatos ficaram bem claros.

Primeiro, os poderes da República não estão em conflito entre si, estão contra o povo.

Segundo, os parlamentares brasileiros, longe de estarem sendo ameaçados  como representantes do povo, têm agora licença para cometer crimes contra o povo.

Uns e outros não ouvem o povo.

Pior é o silêncio. De todos. De Lula a Aécio, passando por Cunha, o recado é o mesmo, irradiado na mudez da imprensa: a decisão do STF deve ser aceita bovinamente.

E assim, entre a surdez e a mudez, segue o Brasil, aparentemente condenado a suportar uma classe política que o extorque, desrespeita e oprime. Ou há termos melhores para impostos sem limites, para legisladores que legislam para si próprios e para uma justiça indiscriminadamente injusta?

O poder contra o povo, apesar do povo e acima do povo não tolera ser acusado. Ilegal, ilegítima e insensível, essa classe política prefere acusar o povo, o País e a sua História pelos desmandos que ela pratica.

Faz então proliferar uma mixórdia de determinismos, de manipulações ideológicas e de compósitos de mentiras para convencer o povo brasileiro de que ele e o seu País são um fracasso histórico, condenado, mais do que ao atraso, a viver sob o seu domínio.

Não há prudência em vaticinar qual será o fim desta crise que enredou o Brasil. Mas é possível obter algumas pistas da prática da História, vista ontologicamente como um instrumento de realização do futuro construído por ações humanas que são interpretadas por uma leitura histórica, que são influenciadas por interpretações do passado e que portam uma intencionalidade que se remete ao devir.

Definitivamente, o Brasil não é o fracasso que o marxismo, o positivismo e a safadeza de uns poucos procuram nos convencer que somos todos nós.

O Brasil é um país grande, rico, complexo e relevante pela mera decorrência dos fatos históricos de sua formação e evolução que essa classe política egoísta, despreparada e paroquial que nos governa insiste em manipular ao seu bel prazer.

Diante da inevitabilidade da História, só resta concluir que o fracasso não é do Brasil, mas daqueles que conjunturalmente o governam.

E parafraseando o troar dos canhões do Forte de Copacabana em 1922, lembrar que as situações passam e que o Brasil fica.

 

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

IMAGEM: Agência Brasil