Opinião

Nós e eles


O que se observa é uma nova divisão da sociedade. Só que desta vez os “nós” são os contribuintes e “eles” os que querem aumentar impostos para sancionar um gasto público superior ao que a sociedade pode sustentar


  Por Marcel Solimeo 18 de Setembro de 2015 às 18:56

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


Instalou-se nos últimos anos no Brasil um clima de confronto entre partes da população, o qual se acentuou no período pré-eleitoral, especialmente pela agressividade da campanha da então candidata Dilma Roussef, que adotou a tática de procurar “desconstruir” os adversários, como ocorreu em relação principalmente a Marina Silva, mas, também, no tocante à Aécio Neves, por meio de seu futuro ministro da Fazenda, o economista Armínio Fraga, ao qual se atribuía a intenção de fazer uma política econômica recessiva, com um forte ajuste fiscal baseado em corte de programas sociais, elevação de juros e aumento de impostos.

Após a posse de Dilma Roussef, e o anúncio de sua política econômica, que, na essência, estava na linha do que a candidata acusava como sendo “recessiva”, houve muitas manifestações de rua contrárias ao governo, e as críticas do PT aos manifestantes, acirrando o clima de confronto, que vem se agravando rapidamente.

Nesses embates, que separava o país entre “nós e eles” sendo que o “nós” no caso eram os partidários do governo e “eles” os seus críticos, apelidados pejorativamente de “coxinhas” e acusados de elitistas, golpistas e outras coisas do gênero. 

Se considerarmos de outro lado a radicalização dos autodenominados “movimentos sociais”, com o aumento das invasões, tanto de propriedades urbanas como rurais, além das promovidas pelos índios, pode-se considerar que o Brasil assiste a um esgarçamento do tecido social, que dificulta a busca de soluções para seus graves problemas, que dependem da união de todos em torno de objetivos comuns.

O governo, por sua vez, em nada contribui para desarmar os espíritos, pois a Presidente, além de não fazer um “mea culpa” sincero, reconhecendo seus erros, prefere atacar as oposições. O que mais preocupa, porém, é a falta de uma proposta consistente para a correção de rumos da economia. Isto gera insegurança nos agentes econômicos e na sociedade.

As medidas desastradas encaminhadas ao Congresso, como a do orçamento com déficit, o anúncio da recriação da CPMF, depois negada, e posteriormente novamente anunciada, além de outras propostas de aumento de impostos, avanço sobre a receita do sistema S, que é uma contribuição de empresas que não pertencem ao governo; além de propostas com relação ao funcionalismo público federal, mostram que o ajuste é unilateral. 

A proposta de recriação da CPMF, com nova roupagem, foi apresentada de forma a tentar obter o apoio de governadores e prefeitos, que poderiam adicionar ao 0,20% do governo federal, mais 0,18% para estados e municípios, retornando aos 0,38% do passado e que deveria vigorar “provisoriamente” por quatro anos.

Parece que já houve apoio de muitos governadores e prefeitos, que se encontram com grandes dificuldades financeiras devido à recessão. A ideia que vem sendo vendida pelo governo, de que se trata de uma alíquota baixa e que a população nem vai sentir o seu pagamento, é inteiramente falsa, porque essa contribuição é cumulativa e pode chegar a 5% e 6% em setores de cadeia longa de produção e será incorporada aos preços dos produtos e dos juros pagos pelos consumidores.

Outro ponto que não vem sendo considerado pelo governo, e pelos governadores e prefeitos que apoiam a ideia, é que se eles estão enfrentando dificuldades financeiras. O mesmo se passa com as pessoas e as empresas, e a retirada de recursos do setor privado vai agravar a recessão e, em consequência, afetar a arrecadação. 

Além disso, qualquer aumento de arrecadação apenas vai sancionar um nível maior de gastos, de forma que quando passarem os quatro anos haverá novamente a necessidades de recursos adicionais para os governos, pois os desequilíbrios das finanças públicas são estruturais. 

Os cidadãos vêm procurando ajustar-se aos cenários de dificuldades, cortando gastos, muitas vezes até essenciais, enquanto os governos, até o momento, não mostraram a mesma disposição.

Observa-se agora uma nova divisão da sociedade entre “nós e eles”. Só que desta vez os “nós” são os contribuintes e “eles” os que querem aumentar impostos para sancionar um gasto público superior ao que a sociedade pode sustentar. 

Por isso é preciso que “nós” nos unamos para impedir que se aprove o aumento de impostos. Se muitos parlamentares dependem de cargos ou verbas dos governos para se elegerem ou se manterem no Parlamento, eles dependem de ”nós” para se elegerem. Vamos lembrá-los que estaremos vigilantes e nas próximas eleições iremos recompensar os que defenderem os contribuintes, que são também, eleitores.