Opinião

Nobel da Paz vai para o presidente da Colômbia. Bom para o Brasil


Juan Manuel Santos impulsionou negociação de paz com a guerrilha das Farc, grupo convertido ao narcotráfico. Fronteira colombiana com o Amazonas será menos vulnerável à cocaína


  Por João Batista Natali 07 de Outubro de 2016 às 16:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


O Prêmio Nobel da Paz foi dado nesta sexta-feira (07/10) ao presidente colombiano Juan Manuel Santos, por seus esforços para pôr fim aos 52 anos de guerrilha das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Pela terceira vez o prêmio é concedido a uma personalidade latino-americana. Em 1980, a Academia de Oslo premiou Adolfo Perez Esquivel, ativista argentino de direitos humanos, e sete anos depois o premiado foi Oscar Arias, então presidente da Costa Rica e mediador das negociações que terminaram com a guerra civil de El Salvador.

O Brasil nunca recebeu nenhum Prêmio Nobel. Mas as delicadas negociações de Santos com a guerrilha satisfazem plenamente os interesses estratégicos brasileiros.

Em razão do fim de uma guerrilha originariamente marxista, que potencialmente ameaçava um trecho de fronteira com o Estado do Amazonas. As Farc não tinham mais esse perfil político, baseado na experiência cubana e que chegou a reunir 18 mil combatentes (são hoje menos de 8 mil).

A lógica de ocupação de territórios rurais levou a organização guerrilheira a cobrar impostos e em seguida a pautar pequenos agricultores, que deixavam suas culturas originais e eram obrigados a cultivar a cocaína.

Ela se afastou de seu projeto original, quando surgiu, em 1964, como braço armado e depois dissidência do Partido Comunista Colombiano.

Ao lado da Bolívia e do Peru, a Colômbia se tornou uma das grandes produtoras mundiais de folha de coca, em busca do Brasil para laboratórios de refinamento e escala geográfica de exportação clandestina para a Europa e Estados Unidos.

Em outras palavras, a desmobilização da guerrilha também significa a desmobilização do narcotráfico, aliviando as pressões regionais sobre o mercado brasileiro de cocaína. O Brasil, segundo a ONU, é também, em volume, o segundo centro mundial de consumo, depois dos Estados Unidos.

Outra consequência do processo de paz na Colômbia está na liberação de territórios em que a agroindústria poderá se instalar. Além do café, a agricultura colombiana concorrerá com a brasileira em outros produtos.

Mas vejamos as negociações. Elas foram baseadas durante quatro anos em Cuba, com o suporte diplomático da Venezuela e do Chile. Prosperaram poque era preciso colocar um ponto final num longo e trágico processo, com o balanço de 220 mil mortos e no mínimo 2,4 milhões de deslocados.

O projeto de pacificação foi anunciado no início de setembro, e as duas partes – guerrilha e Forças Armadas – passaram a observar um cessar-fogo.

O texto só entraria integralmente em vigor depois de um referendo que ocorreu no domingo passado (02/10). Mas, espantosamente, o texto foi rejeitado, por 50,2% a 49,8%.

Juan Manuel Santos de imediato interpretou o gargalo em que a paz havia emperrado. Ele tinha nome e sobrenome: Álvaro Uribe.

É o ex-presidente colombiano do qual Santos foi ministro da Defesa e que é hoje seu rival. De qualquer modo, as objeções de Uribe precisavam ser levadas em conta, e é com base nelas que as negociações já recomeçaram.

Um dos pontos de litígio está na previsão de uma cota de dez deputados que o Congresso reservaria para nomes a serem eleitos pelas Farc, agora reconvertidas em partido de orientação social-democrata.

Há também a anistia a guerrilheiros que cometeram assassinatos e com a qual Uribe não concordava. E, por fim, o fato de também terem sido perdoados os crimes cometidos por forças pára-militares.

A questão é meio confusa, e reflete a história da repressão colombiana à Guerrilha. Numa primeira etapa, os Estados Unidos orientaram a via essencialmente militar, de olho na ameaça que as Farcs representavam para a democracia e, bem depois, ao peso que elas passaram a ter no narcotráfico.

O fato é que o Exército não conseguiu derrotar os guerrilheiros, e surgiram – primeiro clandestinamente, e a seguir a ceu aberto – as forças para-militares, que também falharam e ainda cometerem barbaridades contra a população rural.

O ano de 2008 representou para a guerrilha um ponto de inflexão. Ela perdeu a metade de seus combatentes e passou a depender, cada vez mais, de sequestros, cujos resgates engrossavam suas finanças, e o simples crime organizado em áreas urbanas como meio de arrrecadação.

Juan Manuel Santos chegou ao poder em 2010. Em seu primeiro mandato presidencial ele constatou que o governo não venceria militarmente, e a guerrilha jamais seria vitoriosa contra o governo.

Santos tem hoje 65 anos. Terminou o curso secundário na Escola Naval de Cartagena. Formou-se em economia pela Universidade de Kansas e fez mestrado na Loncon School of Economics.

Uribe, com quem continua a disputar espaço, estudou administração em Harvard e Oxford e fez carreira como prefeito de Medellin. Elegeu-se à Presidência em 2002, por se opor radicalmente a seu antecessor, Andrés Pastrana, que justamente havia malogrado em negociações de paz com as Farc.

Ou seja, a guerrilha tem ditado parte da agenda eleitoral colombiana e, para efeitos políticos, ela tem o poder indireto de impulsionar ou destruir candidaturas.

Com o Nobel da Paz, Santos se tornou agora imbatível. Pela Constituição, não poderá se reeleger em 2018. Mas seu pacifismo – em oposição ao belicismo de Uribe – tem a partir de agora bem mais peso para dar certo.

Curiosidade : Uribe e Santos são liberais. Cada um a seu modo, eles contribuiram para a decolagem industrial da Colômbia, país que ambos integraram ao máximo em zonas de livre comércio - Aliança do Pacífico, com seus vizinhos latino-americanos, e Apec, com os Estados Unidos e Japão.

FOTO: Juan David Tena/SIG/Divulgação