São Paulo, 25 de Maio de 2017

/ Opinião

Não é inevitável que a Grécia acabe como um "Estado falido"
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O país tem hoje um enorme superávit primário ajustado ciclicamente — portanto, se houver uma recuperação econômica, ainda que modesta, não teria de pôr as impressoras para funcionar para pagar suas contas.

Larry Summers, ex-secretário do Tesouro, escreveu uma coluna assustadora no Financial Times chamando a atenção para o fato de que a Grécia pode estar perto de se tornar um "Estado falido" (leia aqui).

Trata-se de um bom corretivo para a extraordinária serenidade que tenho notado em inúmeras autoridades europeias.

Contudo, acho que vale a pena ressaltar que isso não precisa acontecer, mesmo que não haja acordo nenhum. O que Summers parece ter em mente é um cenário em que os bancos gregos entram em colapso e levam a economia para o buraco com eles.

Mas e se a Grécia abandonar o euro e passar a  emitir moeda própria para que não haja interrupção no fluxo de caixa?

É claro que haveria uma desvalorização acentuada, o que resultaria em um aumento da inflação. Mas será que o desfecho seria necessariamente de hiperinflação?

É bom lembrar que a Grécia tem hoje um enorme superávit primário ajustado ciclicamente — portanto, se houver uma recuperação econômica ainda que modesta, o país não teria de pôr as impressoras para funcionar para pagar suas contas.

E a desvalorização —não havendo alteração nas demais coisas — promoveria a recuperação. Sei que há muita gente por aí falando em colapso imediato porque a Grécia não tem como comprar matérias-primas, as exportações simplesmente não reagem etc.

Talvez elas tenham razão. No entanto, não me ocorre nenhum exemplo histórico que se encaixe nessa história — o fato é que todos os casos de hiperinflação que conheço referem-se a governos frágeis demais para arrecadar impostos e, por incrível que pareça, esse não é o caso da Grécia, apesar de tudo o que já nos disseram.

Portanto, mesmo que a situação da Grécia saia fora de controle nos próximos dias, é possível que haja uma via de escape que evite a ruína.

Nesse momento, o problema da Europa daria uma volta em torno do seu próprio eixo, conforme diz Wolfgang Munchau, colunista do FT, e passaria a ser o seguinte: como lidar com a evidente reversibilidade do euro?

Os eleitores sempre querem uma moeda forte

Mesmo que a perspectiva de uma saída da Grécia da zona do euro passe de inconcebível a plausível, as pesquisas mostram de forma consistente que os eleitores gregos querem preservar o euro. O que isso nos diz?

Pouca coisa —tenho certeza de que os eleitores sempre querem que sua moeda seja forte. As vantagens parecem óbvias, e há também um elemento de orgulho nacional.

Ao mesmo tempo, as dificuldades criadas por uma moeda sobrevalorizada não estão muito claras, exceto para aqueles diretamente envolvidos com exportação.

É uma perspectiva que impressiona, mas será que há dados que a sustentem? 

Pesquisar no banco de dados da iPoll o que pensam os americanos não revela muita coisa, mas há um resultado interessante de 1985, quando o dólar estava muito forte (tão forte que ficou célebre a reunião do Grupo dos 5 no Plaza Hotel, em Nova York, para a elaboração de um plano de desvalorização da moeda).

Quando o Los Angeles Times perguntava às pessoas "Você acha que um dólar forte é bom ou ruim para o país?", 64% responderam que era "bom". 

Portanto, se os eleitores gregos se opõem à ideia de uma nova dracma, que certamente seria fraca em relação ao euro, isso se dá porque eles estão simplesmente repercutindo as preferências dos eleitores em todos os tempos e em toda parte.

Naturalmente, essa preferência consistente talvez seja importante, assim como a eterna popularidade da conhecida metáfora aplicada à política fiscal — o eleitor é sempre a favor de um orçamento equilibrado — e é uma das razões pelas quais a economia keynesiana é tão difícil de pôr em prática. Mas não creio que seja grande novidade a preferência dos gregos pela manutenção do euro.

Ilustração: SCHRANK; England/CartoonArts International/The New York Times Syndicate

Tradução: A.G.Mendes 
           



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