Opinião

Momentos decisivos para o país


O que dirá o Supremo Jeitinho sobre a ação da oposição contra o presidente da República que distorceu as já paradoxais emendas parlamentares em compra de voto pela não admissibilidade de sua denúncia por corrupção passiva?


  Por Jorge Maranhão 28 de Julho de 2017 às 13:50

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


A propósito do julgamento político e jurídico do presidente, e a continuidade das reformas em tramitação no Congresso, estamos todos no ar, suspensos na expectativa, como torcedores levantando a bunda da arquibancada diante da flagrante falta dentro da área no último minuto do segundo tempo.

O juiz apita, para o jogo e a nação brasileira. A regra é clara, como diria o comentarista Arnaldo Cézar Coelho quando percebe que se torna  urgente ser taxativo para interromper o trololó infindo de nossa tradição sofística e barroca.

Vamos seguir o que está escrito no livrinho?

O que dirá o Supremo Jeitinho sobre a ação da oposição contra o presidente da República que distorceu as já paradoxais emendas parlamentares em compra de voto pela não admissibilidade de sua denúncia por corrupção passiva?

Provavelmente dirá que não vai meter a colher em briga de marido e mulher. Não vai entrar em bola dividida, preferindo se esquecer convenientemente de que é seu turno de ocupar o Poder Moderador que a República, em crise eterna, sempre delega para as Forças Armadas desde que nasceu.

Sem Poder Moderador e sem Chefe de Estado isento da roupa suja da chefia do governo, eis que estamos mais uma vez em suspense diante do Sobrenatural de Almeida do saudoso Nelson Rodrigues.

Nestes momentos decisivos, me lembro do excelente livro de Antonio Paim cujo título é exatamente este: "Momentos decisivos da História do Brasil", lançado em 1998, mas reeditado, revisado e ampliado agora há dois anos.

Na sua conclusão, o grande historiador liberal, é cético com relação às nossas possibilidades de escapar, enfim, da nossa tradição patrimonialista que marca a nossa história política e que chegou ao clímax nas administrações petistas.

Mas imagino que seu ceticismo esteja datado quando proclama os resultados da pesquisa A cabeça do brasileiro, de Alberto Carlos Almeida, de 2006, ainda no início do Mensalão.

Não sei se os resultados da pesquisa seriam os mesmos hoje em dia, dez anos depois, com a dantesca tragédia do Petrolão e a atuação irretocável do juiz Moro e dos jovens procuradores do MPF.

Para além das megamanifestações de 2013 e 2015 que resultaram no impeachment da Dirma e a decisiva entrada da grande mídia na cobertura dos movimentos sociais organizados e, sobretudo, das condenações efetivadas, quando pela primeira vez na história do país vimos grandes empresários e políticos cumprirem pena no xilindró.

Enfim, estamos experimentando as vantagens do presumível princípio republicano de que “a lei deve ser igual para todos”.

Para além de uma atualização da pesquisa, fico curioso para saber como nosso grande historiador concluiria hoje o seu livro decisivo para a interpretação de nossa cultura política.

Pois sempre defendi a tese de que, na falta de educação cívica e política nas escolas, na distorção dos valores morais de nossa prática política e no viés ideológico esquerdista da maioria de nossos intelectuais e artistas, só teríamos mesmo a mídia como instrumento de mudança de nossa tradição patrimonialista e da compulsória necessidade de reconciliação da política com a moralidade pública.

Tenho a mais absoluta convicção de que estamos no presente superando os três grandes momentos decisivos de nossa história, como bem esclarece o mestre Antonio Paim: a nossa opção pela pobreza, advinda da colonização jesuítica e sua doutrina contra reformista e inquisitorial em relação aos ricos; a inconclusiva consolidação do sistema representativo pela prioridade de unificação nacional levada a cabo no Primeiro Reinado e consequente centralização das instituições do Império e da República; e, por fim, a consolidação do cientificismo positivista e da resistência patrimonialista das forças oligárquicas da República aos dias atuais.

Ouso afirmar que a cidadania organizada começa a desafiar com consistente sucesso as doenças culturais que nos amarram ao passado, como o patrimonialismo, o patriarcalismo, o familismo, o relativismo moral, a corrupção dos valores, o fisiologismo, o autoritarismo, o burocratismo e a desigualdade perante a lei.

Porque começamos a entender, enfim, que todas estas anomalias estão enfeixadas numa grande tradição barroquista de nossa formação cultural.

Porque o barroquismo, nascido como o espírito mesmo da Contra Reforma católica, mais do que o uso inexcedível das figuras retóricas de linguagem para impressionar a plebe nos sermões e na espetacular exibição das artes plásticas das igrejas, significava vetar a tese da sola scriptura luterana que liberava os fiéis para a leitura da Bíblia sem a intermediação sacerdotal.

As torções do ver e pensar a realidade como a que gostaríamos que fosse e não como realmente é. As consequentes contorções da dor do padecimento das gentes ao constatar os infernos dos paraísos prometidos.

E as distorções no trato com o próximo, na ambiguidade do agir e na precariedade da conduta social.

No frigir dos ovos: a grande distorção da corrupção dos valores da tradição humanista, a começar da própria cidadania, tomada mais como intitulação de direitos sociais ilimitados do que como deveres cívicos de participação da vida pública.  

Todavia, a superação cultural de uma tradição barroquista arraigada há cinco séculos, que determinou diretamente nossa chaga maior do patrimonialismo e ousou até mesmo persistir em nosso modernismo nacionalista, não se dará sem o agrupamento de nossas melhores elites resolvidas, enfim, a tomar para si os destinos das instituições do Estado, como verdadeiros agentes de cidadania responsáveis pelo resgate de nossos valores morais, de nossas crenças em um projeto de nação próspera e pelo legado de esperança que podemos deixar a nossos pósteros.

Se você é cético, aponte alguma outra saída. Mas, por favor, com  a seriedade clássica e não com o cinismo fatal da mais barroca das hipérboles de que cultura não se muda.

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