Opinião

Lembrando o Sermão do Bom Ladrão


No caso brasileiro muitos somente vieram a se “arrepender”, ao serem presos e com riscos de serem condenados a longos anos de prisão


  Por Marcel Solimeo 14 de Abril de 2016 às 17:06

  | Economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo


O Padre Antônio Vieira, nascido em Portugal em 1608, e que veio para o Brasil ainda criança, foi um grande orador sacro, cujos sermões se tornaram celebres não apenas pela retórica brilhante, como pelo conteúdo polêmico de muitos deles, sendo talvez o mais conhecido o 

“ O Sermão do Bom Ladrão”. Foi proferido na Igreja da Misericórdia em Lisboa em 1655, na presença do Rei português Dom João IV, de toda sua Corte, e dos mais importantes ministros dos Tribunais. Alguns trechos desse Sermão são muito fortes, tanto pelas denúncias como pelas cobranças, especialmente por terem sido apresentados na presença das mais altas autoridades do Reino.

Lembrando a crucificação de Cristo, cita a conduta de um dos ladrões que pediu a Jesus que se lembrasse dele no Paraiso, mas dedica a maior parte do Sermão para falar “dos ladrões que assaltam o Reino e não são punidos”. 

Baseado em São Tomás de Aquino e Santo Agostinho, destaca que para os ladrões, sem restituição do que foi roubado,”não pode haver salvação” e que a obrigação de restituir “não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas”.

Ressalta se referir não aos ladrões miseráveis que roubam um homem, mas àqueles que “roubam cidades e reinos,  sem temor, nem perigo”, e considera que “ os Reis e princípes são obrigados a devolver o roubado se os ladrões não o fizerem”.

Por que, diz ele, são os que lhes dão “os ofícios e poderes com que roubam” . Segundo, porque os conservam neles.

Justifica que,embora o rei não possa saber a priori se um indicado irá ou não roubar, para que não seja responsável pelos roubos, deve nomear as pessoas apenas por “ merecimento”, o que, no geral, segundo ele, não ocorre.

Afirma que o que entra pela porta do “merecimento”poderá vir a ser ladrão, mas os que não entram por ela já o são” . Destaca que  “ uns entram pelo parentesco, outros pela amizade, outros pela valia,  outros pelo suborno, e todos pela negociação” e conclui que “quando se negocia não há mister outra prova....agora será ladrão oculto, mas depois ladrão descoberto” 

Referindo-se a um relatório apresentado por São Francisco Xavier sobre a situação na Índia, e que segundo ele ocorria nas demais colônias portuguesas, Vieira afirmou que os seus governantes conjugavam de todos os modos, tempos e pessoas o verbo “rapio” ( roubar) , porque “ furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse “.

Em clara crítica direta aos governantes presentes, responsáveis pelas nomeações dos administradores das colonias, o Padre Vieira diz que “verdadeiramente, não sei como não reparam os princípes em matéria de tanta importância”. 

O Sermão é muito longo, mas de uma retórica brilhante e fundamentação lógica, e vale a pena ser lido por extenso. É inevitável, contudo, que ao reler seu texto não se faça um paralelo entre a situação descrita em relação à administração das colônias portuguesas, e o que se passa no Brasil nos últimos anos.

Os escândalos já conhecidos desde o “mensalão”, e os novos que vem sendo descobertos a cada momento, fazem lembrar as denúncias apresentadas por Vieira sobre a amplitude dos descalabros, o que parece ser também o caso brasileiro.  
 
Cabe destacar sua posição sobre a responsabilidade daqueles que nomeiam para cargos públicos pessoas “sem merecimento”, o que ocorreu em larga escala no passado recente e que vem se acentuando agora no “loteamento” dos cargos públicos em curso para evitar o “impeachment”, cujos custos serão sentidos no futuro.

Também parece se aplicar a observação do autor do Sermão sobre o fato de os príncipes não repararem nas coisas erradas que estava ocorrendo em seus domínios, a exemplo do que alegam os governantes brasileiros em relação ao “mensalão” e ao petrolão”. Destaca Vieira, a responsabilidade daqueles que nomeiam pessoas “sem merecimento”, pelos resultados das ações dos nomeados.

Embora o título do Sermão se refira ao Bom Ladrão, que se arrependeu na hora da morte, ele na verdade retrata o comportamento dos que não se arrependeram. 

No caso brasileiro muitos somente vieram a se “arrepender”, ao serem presos e com riscos de serem condenados a longos anos de prisão.

Que o “arrependimento” deles sirva para ajudar nas investigações e para a severa punição dos que contribuíram por ação ou omissão para a lamentável situação a que o país foi conduzido.