Juro que melhora


Os efeitos econômicos da queda dos juros


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 27 de Julho de 2017 às 20:11

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copomn) realizou nesta quarta-feira (26/07) sua 208ª reunião, decidindo, por unanimidade, reduzir a taxa de juros básica (SELIC) a 9,25% anual, o menor nível desde agosto de 2013. Como essa medida afeta a economia brasileira?

A Selic é justamente chamada de taxa básica, pois termina influenciando todas as demais taxas de juros da economia.
Quando o Banco Central a reduz, o menor ganho faz com que os investidores procurem outras aplicações melhores.

O aumento da quantidade de dinheiro nessas aplicações reduz seu preço, que, justamente, é a taxa de juros.

Assim, os rendimentos dessas outras alternativas também diminuem, provocando queda generalizada dos juros no mercado financeiro, incluindo aqueles que os bancos devem pagar a outros para obter os recursos que, posteriormente, serão emprestados a seus clientes.

A maior oferta de crédito resultante tende a diminuir o custo do crédito para as famílias, o que aumenta seu consumo.
No caso das empresas, esse menor custo do crédito eleva o retorno de seus investimentos, tanto produtivos como em infraestrutura, gerando expansão dos mesmos.

Com o tempo, o menor “custo” do dinheiro provoca alongamento dos prazos de financiamentos oferecidos pelas instituições financeiras. A combinação de juros menores e maiores prazos derruba o valor da prestação, animando ainda mais o consumo e o investimento produtivo.

Tudo isso provoca expansão da produção e maior geração de empregos. No caso particular dos investimentos produtivos e em infraestrutura, não somente há aumento da atividade no curto prazo, como também da capacidade de crescimento futuro da economia.  

Crédito mais barato também ajuda a diminuir o “rombo” das contas públicas, pois reduz as despesas financeiras do Governo, o que, por sua vez, arrefece sua necessidade de maior endividamento, produzindo nova retração dos juros de mercado.

Sendo assim, a menor taxa Selic, sem dúvida, tende a acelerar a recuperação da economia brasileira, objetivo mais do que desejável, porém, não de forma imediata. Se estima que a demora poderia ser de 6 a 9 meses.

A explicação é que o impacto da queda dos juros sobre o valor das prestações dos financiamentos tende a ser diluído pelos prazos de financiamento. Quanto maiores esses últimos, menor o efeito das menores taxas sobre o valor final dessas prestações.

Além disso, no caso das empresas, mesmo que o custo de capital tenha caído, estas devem se programar para realizar novos empreendimentos ou expandir os negócios existentes, o que leva algum tempo, e também depende das expectativas de lucro futuro dos empresários.

Outra causa de demora da Selic em afetar a atividade econômica é o fato de que, nesse momento, a inflação está caindo mais rápido do que ela, o que tende a elevar as taxas de juros reais.

Por todas essas razões, seria recomendável que a autoridade monetária não somente continue reduzindo a taxa básica nas próximas reuniões do Copom, mas, que, também o faça de forma mais intensa, para que a economia brasileira realmente comece a apresentar uma recuperação efetiva, após a maior crise de sua história.