Opinião

História do Brasil: para entender o país e partejar o futuro


Até porque não há outra saída, como se tem dito repetidamente: para não nos mudarmos do Brasil, só nos resta mudar o Brasil


  Por Jorge Maranhão 19 de Agosto de 2017 às 00:00

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Caio Prado Junior, o grande historiador marxista se opôs de certa forma aos dois grandes intérpretes da história e da cultura brasileiras.

Tanto Gilberto Freire como Sérgio Buarque de Holanda erigiram pelo menos duas grandes obras definitivas para entender o Brasil, de cunho sociológico e antropológico. Mas Caio Prado foi mais longe na visão econômica com a “Formação do Brasil contemporâneo”.

E dizia que para se compreender o país de hoje teríamos que partir necessariamente de seu passado colonial, de modo a perceber qual é o sentido histórico do Brasil que, para ele, seria a produção de capital externo.

A questão que se coloca hoje é se realmente aceitamos ser reduzidos a isto. Se esta é a visão dominante do que somos, como fomos um dia “A visão do paraíso” por parte dos colonizadores europeus, tal qual dissecada pelo nosso maior intérprete Sérgio Buarque de Holanda.

A partir daí, perdemos a visão tradicional e liberal de nossa história e demos início a uma longa profissão de fé de cunho socialista que perdura até os dias atuais, cheia de lugares comuns e palavras-de-ordem esvaziadas de sentido concreto, como “luta de classes”, “igualdade social”, “justiça social”, “direitos humanos”, “direitos sociais”, “democracia racial e de gênero”, “liberdade de identidade, quase libertinagem sem a necessária contrapartida de responsabilidade”.

Perdemos nossa fina cultura de pensarmos por nossas próprias cabeças e passamos a importar e adaptar doutrinas alienígenas e alheias às nossas tradições sem a fundamental mediação da crítica.

Tendo sido a mais estratégica colônia do Império português, e sucedâneo centro do mesmo Império, passamos de repente à condição de uma República periférica e de pau-oco. Tendo sido singular no vasto continente americano, viramos o mais do mesmo entre as repúblicas bananeiras.

Fundamos uma cultura barroca singular e plena de paradoxos, eivada de torções no ver e no pensar, de contorções de dor no sentir, de distorções no escolher e agir. Aleijamos Descartes: penso torto, logo existo torto. Pois o nosso grande poeta apenas predisse: - Vai, Brasil, ser torto na vida. 

Não é à toa que pelo menos meia dúzia de nossos maiores intérpretes se utilizaram do conceito marxista de “formação social”, para interpretar nossa história e nossa cultura nos mais variados setores de sua expressão.

Além de Caio Prado com “Formação do Brasil Contemporâneo”, de 1942, temos “Formação étnica do Brasil colonial (1932), de Oliveira Vianna; “Formação da literatura brasileira” (1959), de Antônio Cândido; “Formação econômica do Brasil” (1959), de Celso Furtado; “Formação histórica do Brasil (1962), de Nelson Werneck Sodré; e “O povo brasileiro: formação e sentido do Brasil” (1995), de Darcy Ribeiro.

Só escapou do viés socialista a obra “Minha formação”, de Joaquim Nabuco, até porque, escrita em 1900, antes da entrada do marxismo no Brasil, se referia propriamente à formação da elite enquanto educação de um cidadão exemplar que o autor de fato veio a se tornar.

Como sempre diz Olavo de Carvalho, a revolução cultural marxista, ainda leninista na década de 20, quando introduzida no Brasil pelos intelectuais, jornalistas e artistas anarco-modernistas, resulta numa devastação na produção da alta cultura brasileira desde meados do século XX. De lá para cá, estamos a chafurdar no chiqueiro da baixa cultura.

Como sempre digo, depois do Cinema Novo, da geração literária de 45, da constelação de poetas do pós-guerra, da arquitetura e artes plásticas modernistas, do design da ESDI, da MPB e da música nacionalista de Villa-Lobos, do industrialismo de afirmação nacional dos anos 60, o que desde então foi produzido de qualidade consistente pela chamada alta cultura brasileira?

Da ditadura envergonhada, escancarada, encurralada e derrotada entre 64 e 85, da Constituição Cidadã de 88 aos anos socialistas dos governos petistas, o que sobrou de nossa promessa de “País do futuro”?

É de fato elite cultural e política a que se omite da responsabilidade de suas escolhas e cede à mentira demagógica de fazer passar por estadista um pelego autodeclarado de apedeuta? Aqueles mesmos que se mancomunam com os demagogos para levar vantagem em tudo e assaltar o Tesouro em prática de associação criminosa?

Até mesmo a cultura de massa, a exemplo das telenovelas globais que nada mais são do que um tedioso repeteco de fórmulas romanceadas de amor impossível ou o revival eterno de argumentos passados com tipos de personagens vazios de personalidade.

Já notaram que os tipos dos atores nada mais fazem do que repetir um único personagem que são eles próprios: o galã anódino, o malandro perverso, o velho burlesco, o empresário arrivista e mau caráter, a mocinha gostosa e fútil, o nordestino experto e ardiloso, a tia madrinha de sotaque baiano arrastado, vixe!?

Já notaram que até mesmo as trilhas sonoras repetem sucessos da Bossanova como sintoma de que a música popular contemporânea não tem nada mais a oferecer senão o lixo do Kitsche populesco? Do baticum do funk na boquinha da garrafa ao pagode malandreco e o sertanejo Tinoco e Tunico.

No entanto, nunca se escreveram e reescreveram, editaram e reeditaram tantos livros de história do Brasil, clássicos e contemporâneos, de historiadores consagrados à jornalistas comprometidos com a interpretação dos fatos de nosso cotidiano.

Pois sabemos que não há como construir uma grande nação sem uma elite social esclarecida e articulada em torno de grandes consensos sobre os rumos a tomar. Parece que, enfim, estamos mais críticos e céticos – e exatamente por isto, mais éticos - quanto à nossa identidade nacional e à  nossa responsabilidade de liderar para libertar nosso povo das doenças políticas do populismo e do patrimonialismo das falsas elites estado-dependentes.  

Para além do clássico “O que se deve ler para compreender o Brasil”, do consagrado historiador Nelson Werneck Sodré, infelizmente esgotado mas encontrável em alguns sebos, temos o atualíssimo “Introdução ao Brasil – um banquete no trópico”, organizado pelo jornalista Lourenço Dantas Mota em dois volumes, com dezenove e dezessete resenhas respectivamente, dos mais significativos intérpretes da cultura nacional e de nossa história, escritas por mais de trinta especialistas em cada um dos autores, edição recente e facilmente encontrável em qualquer biblioteca ou livraria.

A questão que se coloca hoje, portanto, é desentortar a mentalidade dominante do país, desembarrocar a cultura, revisitar a Arcádia para fazer renascer a República em ato, como a praticava nosso maior governante D. Pedro de Alcântara. Além de desinfetar a ação política da tentação demagógica e simplesmente gerir a coisa pública em benefício do interesse público.

Faxinar o Estado, lipoaspirar a obesidade jurídica garantista e recursista e tão simplesmente fazer valer o espírito das leis, fazer cumprir os contratos e manter a palavra empenhada.

Minha aposta, o leitor já deve saber, é que já temos uma elite social que resolveu tomar para si a responsabilidade de dar rumo novo ao país para superarmos o nosso maior gargalo que é de ordem cultural, da cultura moral e política dos que ocupam os cargos públicos.

Chamo estes cidadãos e cidadãs de Agentes de Cidadania por que resolveram, enfim, assumir a responsabilidade de agir por conta própria, contra a omissão de participação política desde que o Poder da União se mudou para o planalto central, multiplicou sua gana corporativista e deu uma banana à grande maioria dos cidadãos eleitores e pagadores de impostos.

O nosso desafio é reuní-los num único movimento de resgate do Estado das organizações criminosas que dele se ocuparam mancomunadas com as corporações dele dependentes, como sindicatos de trabalhadores e patronais, alta burocracia enraizada nos três Poderes viciadas em privilégios, bancos rentistas da dívida pública nunca auditada, corporações empresariais privadas viciadas em subsídios e incentivos fiscais e fornecedoras de estatais dependentes do Tesouro; autarquias sem controle e sem função, partidos políticos abrigados de sinecuras e ongs chapas brancas, fora as hordas de bolsistas de programas sociais, de estudantes, indígenas, quilombolas, deficientes, pescadores, agricultores e até presidiários.

Mas será mesmo que o Estado e seus parasitas engoliram o Brasil? Será que à sombra das organizações dele dependentes não militam anônimos cidadãos de bem que de vez em quando tomam as ruas para se manifestar em torno de nossa mais recente conquista civilizatória, a Lava Jato?

Tenho a mais inequívoca convicção de que somos milhões, a promessa real de uma nova elite de Agentes de Cidadania, reunidos em milhares de associações civis de defesa não importa de que, associações de amigos não importa para que, associações comerciais não importa de onde por este Brasil afora.

O que importa é que estão dispostos a pagar para ver para acabar, enfim, com o blefe de que o Estado pode tudo. O que importa é que estão a exigir a representação transparente e na grande  mídia do quinhão de cada uma das corporações cotistas do Estado.

Precisamos apenas acreditar que existimos se nos for aberta uma mínima janela que seja, no noticiário desmobilizador de escândalos sucessivos da grande mídia, para que nos reconheçamos nas iniciativas políticas esparsas e corriqueiras da cidadania e do resultado concreto de nossas ações simbolizadas na resistência da Lava Jato.

Até porque não há outra saída, como se tem dito repetidamente: para não nos mudarmos do Brasil, só nos resta mudar o Brasil.

*As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio