Opinião

Hillary Clinton em xeque


Não há indicação de que ela tenha enviado ou recebido qualquer coisa rotulada de "confidencial". Neste caso, porém, vale a "Regra dos Clinton", cujo pressuposto prevê sempre um comportamento maligno


  Por Paul Krugman 28 de Agosto de 2015 às 10:53

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


O "escândalo" do e-mail de Hillary Clinton prossegue — embora não haja, por enquanto, sinal de que ela tenha infringido alguma regra quando foi secretária de Estado, assim como não há indicação alguma de que tenha enviado ou recebido qualquer coisa rotulada de "confidencial" —, mas é possível que tenha recebido e até mesmo passado adiante coisas que posteriormente se tornaram confidenciais, ou que "deveriam" ter sido assim rotuladas.

Pelos padrões humanos normais, isso é um nada enorme. Neste caso, porém, vale a Regra dos Clinton, cujo pressuposto prevê sempre um comportamento maligno: onde há fumaça, deve haver fogo, embora todo o mundo saiba que os suspeitos de sempre aí estão com suas potentes máquinas de fumaça.

Contudo, Jeffrey Toobin, da New Yorker, acrescentou recentemente um outro aspecto a esse quadro: as coisas não deveriam ser consideradas confidencias depois de ocorrido o fato, conforme é praxe, já que para o governo tudo é confidencial. (Leia aqui o artigo).

Sei bem o que isso significa porque, no passado, experimentei em primeira mão um pouco disso. Fui economista internacional sênior do Conselho de Assessores Econômicos entre 1982 e 1983. (Sim, o presidente era Ronald Reagan, mas minha função era de tecnocrata.

O economista para assuntos nacionais era um sujeito chamado Lawrence Summers. O que foi feito dele?). Naquela minha função, eu recebia uma porção de relatórios que vinham assim rotulados: "SECRET NOFORN NOCONTRACT PROPIN ORCON" (isto é, vedado a cidadãos estrangeiros, fornecedores, informações confidenciais, origem controlada).

Não me lembro de nenhum documento sequer assim classificado que contivesse informações remotamente confidenciais — ou que contivesse alguma coisa que não se pudesse ler no New York Times  ou no Washington Post.

Não demorou muito para que eu não desse tanta importância à coisa. Tínhamos um funcionário da segurança que ia aos nossos escritórios à noite. Se ele encontrasse documentos confidenciais à vista, guardava-os em um cofre e fazia um registro de desleixo. Felizmente, o presidente do conselho ganhou de mim em pontuação negativa. 

É claro que eu não trabalhava em uma área em que a preocupação com a segurança era fundamental, mas a ideia é essa.

Carter, Reagan e Maquiavel

Rex Nutting, editor da MarketWatch, escreveu um belo artigo recentemente sobre a realidade da presidência de Jimmy Carter, desfigurada além da conta pelo mito de São Reagan.

Nutting destaca que no governo Carter o crescimento médio do emprego foi mais veloz e o desemprego menor do que no governo Reagan. Infelizmente, para Carter, o timing foi ruim. Houve um forte crescimento durante boa parte do seu mandato, mas o final foi de recessão.

Ou, para ser mais específico: o Federal Reserve tolheu o crescimento econômico de 1979 a 1982 para baixar a inflação. Carter governou durante a primeira parte do repique recessivo,  e acabou sendo erroneamente culpado por isso. Reagan governou durante a segunda parte desse período, e acabou sendo erroneamente aclamado pela recuperação subsequente.

O que se observa nisso tudo é o predomínio notadamente político de indicadores recentes de mudança até mesmo em comparações de médio prazo.

A renda média real das famílias, que subiu significativamente no decorrer de 1979, ainda estava longe de ter voltado ao seu ponto máximo no final do primeiro mandato de Reagan. Contudo, Carter foi expulso do cargo que ocupava em meio a escárnios, enquanto Reagan venceu por uma maioria esmagadora que o considerava o salvador triunfante da economia. 

Maquiavel, porém, sabia de tudo isso: "Por isso é de notar-se que, ao ocupar um Estado, deve o conquistador lançar mão de todas aquelas ofensas que se lhe tornem necessárias, executando-as todas a um tempo só para não precisar renová-las a cada dia", disse ele em "O príncipe".

Certifique-se de que as coisas ruins aconteçam no início do seu mandato. Assim, quando a situação tiver melhorado, o crédito será seu, mesmo que você tenha deixado o país em uma situação pior do que o encontrou. 

TRADUÇÃO: A.G.Mendes

FOTO: Ian Thomas Jensen Lonnquist/The New York Times