Opinião

Guerra ao terror: entenda o que é o chamado Estado Islâmico


Atentados de sexta-feira, 13, teriam sido planejados por terrorista de um subúrbio de Bruxelas, na Bélgica


  Por João Batista Natali 16 de Novembro de 2015 às 15:08

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Apanhada de surpresa com a tragédia de sexta à noite, a polícia francesa demonstrou competência e, nesta segunda-feira (16/11), já havia identificado os sete terroristas que foram mortos em Paris, feito 168 investigações, detido 23 suspeitos e mantido 104 pessoas em custódia domiciliar.

E, sobretudo, a polícia identificou o possível cérebro da sequência de atentados da sexta. Trata-se de um belga filho de pais marroquinos, Abdelhamid Abaaoud, 28 anos, chefe de uma célula do Estado Islâmico de Molenbeek-Saint-Jean, um subúrbio de Bruxelas.

Ele está foragido, provavelmente na Síria, e é o suspeito de ter também comandado o atentado a bomba, em agosto último, a bordo do trem francês de alta velocidade Thalys, no trajeto entre Bruxelas e Amsterdã.

Digamos que Abaaoud possa ser proximamente preso ou tenha perecido sob as bombas lançadas no domingo por caças franceses que visaram depósitos e bases da organização terrorista em território sírio.

Isso em nada enfraquecerá o Estado Islâmico como uma das instituições mais nefastas e de formação recente no mundo muçulmano.

O EI, também conhecido pela sigla em inglês ISIS, eclipsou a hoje enfraquecida Al Qaeda, responsável pelo 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos e pelos atentados nos trens suburbanos de Madri, em 2004, e nos transportes públicos de Londres, no ano seguinte.

Existem entre os dois grupos diferenças fundamentais. A Al Qaeda nasceu no Afeganistão, nos anos 1970, quando grupos islâmicos formaram a núcleo da resistência à presença militar soviética.

A então URSS precisou bater em retirada, abrindo espaço para que esses grupos se estruturassem e formassem o Taleban, que serviu de abrigo para a nascente organização chefiada por Osama Bin Laden.

O Estado Islâmico entrou em cena bem depois. Embora também ligados aos grupos mais fundamentalistas islâmicos da Arábia Saudita, chamados alauitas (eles são os mais fanáticos dos muçulmanos do ramo sunita), o EI nasceu oficialmente apenas no final de 2013. Ele se propõe a unificar o território do atual Iraque e da atual Síria, para a instituição de um “califado” que aguardaria a chegada de um novo profeta para o fim do mundo que estaria se aproximando.

A Al Qaeda não tem essa visão apocalíptica e não se propõe a conquistar uma base territorial. Ela se contenta em “punir” os não-muçulmanos e a qualificar os atentados como atos de purificação religiosa.

RECRUTAMENTO NO ORIENTE MÉDIO

Os integrantes do EI foram recrutados de muitas maneiras simultâneas. Nasceram primeiramente no Iraque, onde a minoria sunita perdeu espaço para a maioria xiita (um dos ramos do islamismo, patrocinado pelo Irã) depois da invasão norte-americana de 2003.

Na Síria, os terroristas/combatentes surgiram entre ex-prisioneiros políticos libertados pela ditadura de Bashar Al Assad com o início da Guerra Civil, em 2011, e com quadros intermediários das Forças Armadas sírias que se opunham à ditadura e procuraram formar uma força rebelde autônoma.

Para complementar, o financiamento partia de verdadeiras fortunas doadas por famílias sauditas e do emirado do Qatar, onde os alauitas têm força.

Com os combates se expandindo na Síria e Iraque, o Estado Islâmico conquistou cidades, confiscou dinheiro em agências bancárias e se apoderou de reservas de petróleo, contrabandeado a um preço menor que o fixado pela Opep (o cartel dos produtores) na direção de portos do Mediterrâneo.

Não existem estimativas convergentes sobre o número de terroristas e combatentes regulares que o EI reúne no Oriente Médio. Seriam algo em torno de 7 mil, dos quais pouco mais de 2 mil foram recrutados na Europa Ocidental – Inglaterra, França, Bélgica – e que fizeram treinamento na Síria, chegando àquele país pelas fronteiras da Turquia.

A Síria é o território fundamental para que se defina se o EI prosseguirá em sua expansão e se ameaçará todo o Oriente Médio.

A Rússia se opõe ao grupo islâmico, mas apoia a ditadura de Al Assad. Os Estados Unidos e a França têm a mesma posição, mas querem derrubar o ditador.

O Irã mobiliza o Hizbollah (milícia que controla parte do Líbano) para ao mesmo tempo defender a ditadura e atacar os guerrilheiros do EI, que são vistos como um instrumento da ameaça de conquista sunita de toda a região do Golfo.

Uma das soluções políticas para enfraquecer o Estado Islâmico estaria, então, em redesenhar o conflito interno da Síria, de modo a fazer o EI, e não a ditadura Al Assad, como primeiro alvo militar.

É o que diz, entre tantos outros, o especialista em Oriente Médio e blogueiro Gustavo Chacra, um dos bons conhecedores da região.

"FAZER EVOLUIR A CONSTITUIÇÃO"

Em outro plano, atentados seriam evitados se a França, e os demais países europeus, adotassem a receita norte-americana.

Depois do 11 de Setembro nenhum outro atentado ocorreu naquele pais, excetuado o de Boston, em 2013, que matou apenas três pessoas e que teve como autores, autônomos, extremistas desgarrados da Tchechênia (região do Cáucaso, pertencente a Rússia).

Isso, no entanto, exigiria o sacrifício de liberdades individuais, que o então presidente americano George W. Bush praticou de bom grado, mas que o presidente francês, François Hollande, teria bem mais dificuldade de levar adiante.

A curto prazo, conforme disse nesta segunda-feira o próprio Hollande, em discurso no Parlamento, será preciso “fazer evoluir nossa Constituição” para que a França se adapte às ameaças terroristas. Em outras palavras, diminuir as liberdades em nome da eficiência à repressão, questão mais que controvertida.

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A questão pesa em termos partidários. Um dos terroristas (homem-bomba que se explodiu nas imediações do Stade de France) entrou no país como refugiado e atingiu a Europa a partir da Grécia.

É algo que a extrema direita francesa já começou a explorar politicamente, acusando o governo de escancarar as fronteiras aos que fogem à Guerra Civil síria e, com isso, ter frangado uma bola chutada dentro de sua área pelo terrorismo.

FOTO: Camila Garcia/Agência Brasil