São Paulo, 26 de Maio de 2017

/ Opinião

Governo Trump: o que esperar? (3)
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Se por um lado promete desregulamentação, impostos mais baixos e tenta estimular o emprego industrial, de outro Trump pretende endurecer a negociação com parceiros considerados manipuladores da taxa de câmbio e rever os acordos comerciais dos EUA

A política econômica de Trump é outra área na qual há muito alarmismo e pouca reflexão sobre os fatos e propostas concretas. Uma reportagem da revista The Economist, por exemplo, classificou Trump como “peronista” por seu suposto “populismo” no campo econômico.(Leia aqui).

Martin Wolf, um conhecido colunista do tradicional Financial Times, pintou um caos econômico mundial com sua eleição.  

O Project Syndicate, a maior associação internacional de colunistas de opinião – que fornece artigos para jornais e revistas do mundo todo – possui uma página específica com mais de uma centena de colunas com críticas ferozes contra tudo o que o novo governo americano cogita em fazer, não só na economia

No Brasil, as análises são ainda mais mirabolantes, onde já compararam Trump à Dilma Roussef, por supostamente pregar uma ampla intervenção estatal na economia e a Hitler – em uma capa lamentável de uma revista semanal - por seu nacionalismo econômico e “militarismo”.

Apesar das previsões fatalistas e da ampla desinformação disseminada, por enquanto, a bolsa de valores americana vem batendo recordes - o mercado de ações ganhou quase US$ 3 trilhões em valor desde a eleição em novembro -, e o otimismo empresarial nos EUA vem crescendo, na expectativa das muitas medidas prometidas em várias áreas.

Mas, objetivamente, como será a gestão da economia sob a Administração de Trump?

A “trumpnomics” será um misto de quatro macropolíticas, três aplicadas internamente e outra no front externo, que podem ser resumidas em: reforma tributária extensa, desregulamentação ampla, expansionismo fiscal (com gastos em defesa e infraestrutura) e protecionismo pontual.

A primeira macropolítica, de reforma tributária, será a volta da abordagem chamada “supply-side economics”, bandeira tradicional entre os republicanos e que foi aplicada extensamente por Reagan (e ficou conhecida como “Reaganomics”) e por Bush II.

Essa abordagem parte da premissa de que o crescimento pode ser impulsionado com a redução de impostos, sobretudo impostos que incidem sobre as empresas, aumentando os incentivos para o investimento e o consumo, o que resulta na criação de empregos.

Pelo lado fiscal, o maior crescimento proveniente de um imposto menor atenuaria a queda das alíquotas, equilibrando o déficit. Essa é a posição de Steven Mnuchin, ex-executivo do Goldman Sachs, nomeado como Secretário do Tesouro.

A proposta de reforma tributária que está em pauta é ampla. Em primeiro lugar, prevê redução da alíquota dos impostos corporativos dos atuais 35% para 15%, o que poderia atrair empresas multinacionais ao tornar os EUA um país mais competitivo.

Essa tarifa também seria cobrada sobre repatriação de recursos no exterior, estimulando as empresas americanas a enviar recursos de suas filiais para a matriz, reinvestindo o dinheiro dentro dos EUA, algo semelhante ao que o governo Bush fez em 2005.

Em segundo lugar, pretende-se uma simplificação do imposto de renda para pessoa física, reduzindo o número de faixas, como forma de aliviar a classe média americana.

Por fim, está na pauta do Congresso o chamado imposto de "ajuste de fronteira" que pretende modificar o sistema tributário americano por completo, implementando a taxação por destino ao invés da taxação por origem. Ou seja, o imposto seria aplicado com base na localização do consumo, e não na localização da produção.

O “ajuste de fronteira” poderá ter duplo papel: facilitar a reforma tributária ampla e pressionar parceiros comerciais, uma vez que esse tipo de proposta funciona como uma taxa sobre as importações - cujo destino são os EUA – e isenção sobre as exportações.

Como os EUA têm enormes déficits comerciais, o ajuste de fronteira criaria centenas de bilhões em receitas tributárias - não de consumidores ou corporações americanas, mas de parceiros comerciais estrangeiros.

A segunda macropolítica deverá ser a desregulamentação intensa dos negócios (outro aspecto da “supply-side economics”) – cujo início já foi preparar o terreno para o afrouxamento a Lei Dodd-Frank, de 2010, que estabeleceu regulamentações mais rigorosas para os bancos -, simplificação burocrática, subsídios pontuais para atrair investimentos industriais e o fim das restrições às indústrias produtoras de energia “suja”, como o carvão e o petróleo.

Uma das enormes dificuldades dos americanos competirem com empresas chinesas, por exemplo, é o excesso de regulação, muitas leis trabalhistas e a energia cara por conta de restrições ambientais.

Com Obama, houve a edição de quase três mil novas regulações que custaram ao país US$ 400 bilhões e obrigaram os americanos a passar mais de 500 milhões de horas lidando com papelada, contadores e advogados apenas para sair do emaranhado burocrático.

Muitos analistas atribuem o baixo crescimento da economia sob Obama (menos de 2% ao ano) a essas excessivas regulações. A promessa de Trump é cortar 75% da regulação para impulsionar o crescimento e ainda acabar com leis ambientais que aumentam o custo da energia.

Trump disse num tweet, em 2012, que o aquecimento global era uma invenção chinesa para prejudicar a economia americana e em um livro - “Crippled America”-, ele escreveu que fontes de energia verde são “uma forma cara de fazer os abraçadores de árvores se sentirem bem com eles mesmos”.

A nomeação de Scott Pruitt para a Agência de Proteção Ambiental (EPA) sinaliza uma reviravolta completa em matéria de regulações ambientais, além de sinalizar o abandono do Tratado de Paris.

O presidente, inclusive, já mandou cortar o dinheiro para a ONU, em especial, em painéis que estudam mudanças climáticas. Para o novo governo, o Acordo de Paris é uma afronta à soberania americana, uma vez que permite burocratas internacionais controlem quanto e que tipo de energia os EUA irão poder usar.

Dentro dessa lógica, Trump vai “ressuscitar” a indústria de carvão e tirar as “amarras” da indústria de petróleo americana.

O primeiro passo já foi dado: assinou uma “executive order” que liberou a construção dos oleodutos Keystone e Dakota Access, que ligam os EUA ao Canadá. Além disso, espera-se que seu governo pressione a OPEP – o cartel de petróleo – a baixar os preços, bem como se envolva na estabilização do Oriente Médio e da América do Sul.

Para Trump, o fundamental é declarar a “independência energética” como meta estratégica econômica e de política externa, conforme falado em vários comícios de campanha.

Dentro desse panorama de desregulamentação, é possível esperar também uma grande flexibilização das leis trabalhistas, tanto pelo perfil do primeiro indicado para o Departamento do Trabalho - Andrew Puzder, ex-CEO da cadeia de fast food CKE Restaurants – quanto para o novo escolhido, Alexander Acosta.

A terceira macropolítica deverá ser um grande expansionismo fiscal com elevação de gastos em infraestrutura (via setor privado e público), com base na premissa “buy American and hire American”. Em seu discurso de posse, Trump disse: “gastamos trilhões e trilhões de dólares além-mar, enquanto a infraestrutura dos EUA caiu em degradação e deterioração”.

E reafirmou em seu pronunciamento para o Congresso: “América dispendeu quase US$ 6 trilhões no Oriente Médio, enquanto a nossa infraestrutura se desintegrava. Com US$ 6 trilhões nós poderíamos reconstruir nosso país, duas vezes”.

Sua solicitação ao Congresso é pela aprovação de um programa que promete gerar US$ 1 trilhão de novos investimentos no setor. A pressão na dívida pública espera-se, deverá ser equilibrada com crescimento das receitas, gastos cortados do caríssimo Obamacare e da diminuição da ajuda militar para aliados.

Por fim, a quarta política – aplicada ao campo externo - será a uma volta parcial às ideias de Alexander Hamilton - em seu famoso "Relatório sobre as manufaturas” –, e de Henry Clay, os principais defensores de programas para industrialização da economia americana, ainda no século XVIII.

Segundo essa concepção, o poder estatal ficará encarregado do front externo, enquanto a iniciativa privada toma as rédeas do crescimento internamente.

Ou seja, haverá liberdade total de mercado internamente, com forte desregulamentação e apoio à livre-iniciativa e às empresas, somado a um leve protecionismo "pra fora", seletivo e estratégico, para atrair investimentos e endurecer a negociação com os principais parceiros comerciais.

Alguns economistas sérios têm ficado extremamente preocupados com a possível onda de protecionismo motivada por atitudes de Trump.

É verdade, haverá certo protecionismo sim, mas pequeno e pontual e o presidente tentará no “gogó” manter certos investimentos nos EUA para preservar áreas degradadas como o “Cinturão da Ferrugem” (Rust Belt) - Illinois, Michigan, Ohio, Indiana, Virgínia Ocidental e Pensilvânia, uma base de eleitores que ele “roubou” dos Democratas durante as eleições - e manter esse eleitorado fiel, já de olho na reeleição.

Em relação ao "protecionismo" em geral, a crítica econômica baseada na divisão de trabalho internacional e na busca de eficiência está correta na teoria. Caso considere-se que o “fator trabalho" será usado de forma ineficiente por conta de tarifas alfandegárias, claramente o país perde.

Ao invés de alocar fatores de produção em empreendimentos mais produtivos, a alocação seria ineficiente, ao dirigir-se para setores menos dinâmicos e menos competitivos. Mas, em geral, além de se basearem em hipóteses excessivamente simplificadoras - como considerar o “fator trabalho” homogêneo -, as análises desconsideram a "histerese" do desemprego nessas regiões.

Um metalúrgico que trabalhou em montadoras durante 25 anos, ao ver sua fábrica se deslocar para o México, não irá voltar ao mercado de trabalho se candidatando a um emprego na Apple ou na NASA. Ele provavelmente irá para o setor de serviços sim, mas de baixa produtividade.

Ou seja, a fábrica vai embora e o metalúrgico vira motorista de Uber, por exemplo. Ou ficará desempregado fazendo "bicos" e “sumirá” das estatísticas. Com isso, a produtividade da economia cairá.

A saída de empregos industriais para o setor de serviços de baixa qualificação explica, talvez, porque o aumento da produtividade da mão de obra desacelerou acentuadamente entre 2005 e 2015. Outro fator seria o excesso de regulamentação e infraestrutura deficiente comprometendo ganhos de produtividade.

Em casos específicos, talvez fosse melhor continuar alocando "fator trabalho" na indústria automotiva inicialmente menos competitiva, por exemplo. Se num primeiro momento a empresa fica no país porque foi "ameaçada", num segundo momento, ela pode ter os custos caindo com a desregulamentação que Trump está prometendo e passa a ter um custo condizente com o México e outros parceiros.

Ou seja, os EUA acabam se beneficiando se, no fim, a empresa forçada a ficar, equilibra seus custos e passa a lucrar com isso.

Obviamente, esse raciocínio não pode ser levado ao extremo e a todos os setores. E Trump não parece advogar que os EUA virem um país autárquico e façam uma ampla substituição de importações.

À primeira vista, essa estratégia visa apenas impor às empresas dos EUA mudanças marginais em suas estratégias de investimentos para atender a classe trabalhadora dos estados industriais decadentes do “Cinturão da Ferrugem”.

Em alguns setores onde os trabalhadores ficaram ociosos, faz sentido ganhar investimento “falando grosso” e cuidar dos custos depois.

A classe média sofreu muito ao longo do governo Obama, com o número de pessoas identificadas com esse segmento caindo 5%, muito por conta de a indústria ter fechado mais de 300 mil postos de trabalho. Além disso, algo como 20 milhões de americanos passaram a utilizar o Food Stamps e hoje já são 48 milhões de americanos dependendo da ajuda oficial.

Foi com esse raciocínio que o Trump se elegeu: recuperar empregos industriais perdidos na margem. Colocando-se a favor do emprego da classe média e contra o lucro das empresas transnacionais em nível global, ele ganhou eleitores que votavam nos Democratas.

Se por um lado promete desregulamentação, impostos mais baixos e tenta estimular o emprego industrial, de outro Trump pretende endurecer a negociação com parceiros considerados manipuladores da taxa de câmbio e rever os acordos comerciais dos EUA, considerados prejudiciais ao trabalhador americano.

O presidente não se coloca contra o livre-comércio, porém, prega um “comércio justo”. Esse será o tema do próximo artigo: “American First”, a política comercial de Trump.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 

 



Não se trata de proteger a sonegação fiscal e sim de ajudar as empresas inadimplentes vítimas da recessão a se reequilibrarem, diante da falta de caixa e de crédito

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Está tudo tão confuso, tão degenerado, tão nojento que dá vontade de seguir a música que o cantor Silvio Brito interpreta tão bem: “para o mundo que eu quero descer...”

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A sociedade não tem um projeto para o dia seguinte. Parece que tudo se limita a Lava-Jato, às prisões e delações

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