São Paulo, 29 de Março de 2017

/ Opinião

Governo Trump: o que esperar? - 1
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Trump foi escolhido por ser o presidente “anti-establishment”, ou seja, contra o establishment que tem comandado as políticas americanas há décadas

A maioria dos analistas políticos e econômicos encontra-se totalmente perdido em relação ao que virá a ser o governo do 45º presidente americano, que com menos de um mês, já faz anúncios bombásticos.

O bilionário Donald J. Trump será “amigo” de Putin? Iniciará uma onda de protecionismo? Fará um governo xenófobo? Acabará com a OTAN? É um homem totalmente imprevisível?

A confusão fica ainda maior porque as análises se baseiam em falas e discursos de improviso feitos pelo presidente para diferentes plateias - além dos seus tweets -, o que sempre suscita contradições e inconsistências óbvias.

Trump, além disso, é um gozador, um provocador, fato o qual desnorteia ainda mais seus críticos, muitos dos quais cegos por conta de seus próprios preconceitos ideológicos.

E enquanto muitos esperavam uma suavização o seu discurso, com o “ajustamento à realidade”, nas suas primeiras semanas na Casa Branca, Trump está fazendo ao “pé da letra” tudo que prometeu na campanha.

Em evidencia há mais de 30 anos – com seus hotéis, cassinos e programa de TV – Trump sempre deu declarações políticas e se envolveu nos bastidores, além de escrever livros e artigos em jornais.

Para entender o que deverá ser seu governo, há que se ater ao essencial de suas ideias e de seus discursos, suas indicações políticas aos principais postos chave da administração e, claro, suas falas mais emblemáticas.  

Em primeiro lugar, o que sua eleição representa? Trump foi escolhido por ser o presidente “anti-establishment”, ou seja, contra o establishment que tem comandado as políticas americanas há décadas.

Ao contrário do que muitos dizem, Trump não foi eleito porque seus eleitores estão ressentidos com a globalização. Na verdade, os americanos se beneficiaram como nunca por preços baixos e aumento do consumo.

Os eleitores estão verdadeiramente ressentidos com outro tipo de globalização - na verdade, com o “globalismo”-, que é aquela ideologia adotada pelo establishment americano, que propõe o governo mundial, o desaparecimento dos Estados nacionais, o multiculturalismo, o “Estado babá” e o politicamente correto como forma de censura ao “American way of life”.

Foi contra essa ideologia do establishment que Trump se posicionou. “Americanismo, e não o globalismo, será nosso credo”, disse, quando aceitou a nomeação como candidato republicano.

Seu governo, portanto, é uma volta às origens americanas, contrária ao “globalismo”. Para apresentar-se como opositor ao establishment globalista, seu maior trunfo foi ter feito uma campanha financiada quase que inteiramente por ele mesmo e com milhares de pequenas doações (os grassroots) – menos custosa que a concorrente Clinton - e ter usado eficazmente as mídias sociais para se comunicar.

Segundo a revista Forbes, sua campanha não recebeu doação de nenhum CEO das 100 maiores empresas dos EUA, algo inédito na história recente.

Assim, Trump se apresentou como presidente independente e acima do lobby empresarial e dos “interesses especiais”. Uma de suas primeiras medidas foi, inclusive, restringir a prática de lobby, aumentando o período de quarentena de ex-funcionários governamentais.

Em segundo lugar, Trump é um patriota. Seu patriotismo é baseado no apreço pela herança da tradição judaico-cristã e nos valores americanos: livre iniciativa, individualismo, rule of law, exclusivismo da experiência americana civilizacional, certo isolacionismo e na autodeterminação dos povos.

Em várias falas, defendeu ainda, a descentralização do poder, o federalismo e a diminuição da máquina estatal através do corte de impostos e da desregulamentação.

Essas preocupações refletem-se nos seus principais bordões de campanha “Make America great again” e “America First”, que junto com seus posicionamentos anteriores à eleição de 2016, ajuda-nos a inferir suas diretrizes em várias áreas e questões cruciais.

As nomeações dão mostras claras sobre a direção que Trump tomará: um primeiro escalão bastante conservador e peculiar pela presença militares da reserva, bilionários amigos e críticos contumazes das políticas das pastas que ocupam.

Todos, homens de negócios, empresários e militares “linha dura”, substituindo o establishment usual formado por políticos, acadêmicos e globalistas em geral, mostrando que o governo vai dar cabo do “legado de Obama” o mais rápido possível.

Já a indicação de Neil Gorsuch para a Suprema Corte mostra o apreço de Trump pelos valores do país.

O juiz é considerado um seguidor do “originalismo” na interpretação da Constituição, uma abordagem que considera que a Carta Magna americana deve ser interpretada de acordo com as ideias de seus criadores, os "founding fathers".

A escolha de Gorsuch, além de restaurar a maioria conservadora no Tribunal, é ainda o cumprimento de uma promessa eleitoral de Trump, que se comprometeu com a indicação de um juiz “pro-life” para o cargo.

Como um bom patriota, o novo presidente acredita no “sonho americano” – do qual ele próprio é um símbolo – e quer “resgatar” o poder americano do mundo, abalado em prestígio pela “Era Bush” (que aumentou o antiamericanismo com intervenções unilaterais) e pela “Era Obama”, que recuou em todos os fronts geopolíticos, diminuindo a relevância do país nos principais conflitos globais, como o Oriente Médio, abrindo espaço para a China e Rússia.

Segundo Trump, graças a Obama, “ninguém mais respeita os EUA” e isso tem que mudar, havendo a necessidade de “responder as ameaças externas com força e determinação”.

Dentro desse quadro, a preocupação com a soberania americana e autonomia frente ao mundo perpassa todas as suas considerações em diversos temas - sejam eles econômicos, energéticos ou políticos - e irá nortear (e está norteando) toda a sua Administração, para “fazer a América grande de novo”.

Seu governo irá se posicionar totalmente contrário a qualquer tipo de cessão da soberania americana, ou seja, contra a “governança global” (tocada por organismos multilaterais) e tratados extensos como o Tratado de Paris sobre o clima, além de considerar a ONU, OMC e outras instâncias multilaterais como inúteis, que serão desprezadas sempre que for necessário colocar a “América em primeiro lugar”.

O governo americano buscará uma distensão com a Rússia e tentará remodelar o papel da OTAN e de outras alianças militares exigindo mais comprometimento financeiro de aliados – como europeus e japoneses -, acostumados a serem bancados pelo poder militar americano.

No campo econômico, seu governo será marcado por desregulamentações agressivas, redução de impostos, investimentos em infraestrutura e na indústria bélica, incentivo à indústria de energia (carvão e petróleo, na busca por independência energética), protecionismo pontual e incentivo a reindustrialização de certos setores da economia americana.

Por fim, sua política de comércio exterior pretende “apertar” os aliados com negociações mais duras, exigindo mais contrapartidas, além de rejeitar grandes tratados de comércio em prol de acordos bilaterais.

Nos próximos três artigos, farei um exercício de “previsão” sobre os pormenores do governo Trump, começando com as relações internacionais, passando pela economia e terminando na política de comercio exterior.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 



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