Faça o que eu falo...


Precisamos de uma verdadeira elite de cidadãos autônomos que não aceita o discurso de que, para alcançarmos uma utópica e perversa "igualdade social" - ou "justiça social" - é preciso sacrificar as liberdades individuais


  Por Jorge Maranhão 07 de Abril de 2016 às 11:43

  | Jorge Maranhão, mestre em filosofia pela UFRJ, dirige o Instituto de Cultura de Cidadania A Voz do Cidadão


Uma das grandes falácias da comunicação do grupo atualmente no poder é a de que nunca o país cresceu tanto desde a posse do ex-presidente Lula e, se está em déficit de crescimento nos últimos dois anos, isto se deve à crise internacional. E que, ainda assim, nunca tantos foram tirados da linha de miséria. Chegou-se até a se cunhar o termo "nova classe média".

Se é verdade que o país experimentou um boom econômico na primeira década do milênio e que programas sociais ajudam milhões a sobreviver, também é fato que isso se deveu muito pouco ao talento e discernimento das esquerdas ao conduzir o país.

Dependemos historicamente de commodities que, estas sim, experimentaram uma valorização sem par neste período. Principalmente pelo apetite chinês por minério de ferro, proteína animal e soja, o que beneficiou em muito o Brasil.

Tudo isso "turbinado" pelo alto preço do barril do petróleo, que viabilizava ambiciosos investimentos no pré-sal. Por outro lado, os ditos governos "sociais" não fizeram mais que continuar programas e ampliação de linhas de crédito que já vinham crescendo naturalmente desde que o Plano Real estabilizou a economia.

Surfando nesse mar de rosas, ficava fácil acreditar que a economia ia bem e o "social", garantido. E essa foi a perdição, expressa em erros crassos de desonerações e renúncias fiscais sem critérios claros e negociados com os amigos do rei e seus representantes, privilégios nada transparentes, nacionais e estrangeiros, para além da tentação de achar que o que é público é de quem está no poder naquele momento.

Ninguém se preocupava minimamente com a saúde da Petrobras, a galinha que punha os ovos de ouro, e tome de demagogia tarifária com preços administrados das Petrossauro e Eletrossauro, sob o pretexto de controle da inflação.

Não se sabe se a maior estatal latino-americana sairá viva dessa, especialmente depois do triplo assalto a seus cofres: para além dos preços negativos dos derivados, o festival de fraudes da corrupção sistêmica com contratos bilionários e os preços do barril no mercado internacional descendo a patamares insustentáveis, inviabilizando o pré-sal.

Resultado: desde 2014 a queda brasileira tem sido vertiginosa, uma recessão medonha ceifando empresas, empregos, dignidade, vidas. Um case negativo de má gestão pública ainda a ser compreendido totalmente mas, certamente, um dos maiores da história do país.

No campo político, desastre semelhante. Levantamento divulgado nas redes sociais pelo Movimento Endireita Brasil revela como não só a ideologia esquerdista, mas também um genuíno espírito "do contra", dominou o cenário nestes 14 anos.

O PT não só trocou os pés pelas mãos quando no poder, mas bem antes já vinha fazendo de tudo para as coisas não funcionarem com outros governos quando estava na oposição.

Vale a pena refrescar a memória de alguns momentos relevantes listados pelo movimento:
- 1985 - O PT é contra a eleição de Tancredo Neves e expulsa os deputados que votaram nele.
- 1988 - O PT vota contra a nova constituição que mudou o rumo do Brasil.
- 1989 - O PT defende o não pagamento da dívida brasileira, o que transformaria o Brasil num caloteiro mundial.
- 1993 - O presidente Itamar Franco, convoca todos os partidos para um governo de coalizão pelo bem do país. O PT foi contra e não participou.
- 1994 - O PT vota contra o Plano Real e diz que a medida é eleitoreira.
- 1998 - O PT vota contra a privatização da telefonia, medida que hoje nos permite ter acesso à internet e mais de 150 milhões de linhas telefônicas.
- 1999 - O PT vota contra a adoção do câmbio flutuante.
- 1999 - O PT vota contra a adoção das metas de inflação.
- 2000 - O PT luta ferozmente contra a criação da lei da responsabilidade fiscal, que obriga os governantes a gastarem apenas o que arrecadarem, ou seja, o óbvio que não era feito no Brasil.
- 2001 - O PT vota contra a criação dos programas sociais no governo Fernando Henrique Cardoso: bolsa escola, vale alimentação, vale gás e outras. Alegam que bolsas são esmolas eleitoreiras e insuficientes.

O texto divulgado lembra que quase toda estrutura socioeconômica do Brasil, foi construída neste período. Apesar do PT.

Pois como foi possível que, depois de uma trajetória dessas, a esquerda ainda tenha conseguido chegar ao poder e ficado lá até os dias de hoje? Como dissemos no início deste texto, a questão é de comunicação. Mais especificamente, de estratégia de argumentação em relação a uma sociedade politicamente despreparada e infantil.

Mais do que nunca, é preciso que a sociedade tenha uma cultura de cidadania política amadurecida, traduzida no que chamamos de cidadãos ativos, ou Agentes de Cidadania.

Ao contrário do entendimento populista das esquerdas que veem cidadania como intitulação de direitos ilimitados e sempre às custas das burras do Estado, cidadania é, antes, assunção de deveres cívicos e políticos, sobretudo de elites que se julgam formadoras de opinião ou formuladoras de políticas públicas responsáveis.

Elites que, mais do que conscientes, são politicamente atuantes e fiscalizam a execução dos orçamentos públicos, monitoram mandatos eletivos, instituições e governos, lutam contra as tentativas de tutelamento do Estado, e, principalmente, incentivam mais e mais cidadãos a fazerem o mesmo.

Para além dos endinheirados, estes são a verdadeira elite que o Brasil precisa. Os melhores de nós, e não a banda podre de compadres do rei que é sanguessuga do Estado, vive de privilégios quase nunca transparentes e não admite conviver com o risco de conduzir seu próprio negócio, como qualquer outro empreendedor.

Precisamos de uma verdadeira elite de cidadãos autônomos que não aceita o discurso de que, para alcançarmos uma utópica e perversa "igualdade social" - ou "justiça social" - é preciso sacrificar as liberdades individuais. Clique aqui para rever a memorável resposta do grande mestre Milton Friedman diante de um aluno esquerdista, ainda em 1978.

O problema é que a estratégia de argumentação até hoje empregada por liberais e conservadores se funda na realidade e na razão, as quais precisam de um público-alvo letrado capaz desse raciocínio lógico.

Por outro lado, a argumentação socialista, esquerdista, progressista, bolivariana - you name it, como dizem os americanos - é pura retórica.

Constróem-se repetidamente imagens de um futuro redentor, brilhante e puro. Mas como a promessa não é factível, o que se descortina são falácias, corrupção de valores, relativismos morais, e quetais. Tudo muito atraente e poderoso, facilmente inculcável no imaginário social, sobretudo dos mais jovens.

Por que pleno de romantismo desde suas raízes históricas e culturais. Não nos esqueçamos que socialismos e romantismo são vertentes de uma mesma ideia-força desde a mitologia grega ou judaica: o mito do homem como senhor da história, o Adão que provou da fruta da árvore do bem e do mal, o Prometeu que roubou o fogo do saber de Zeus. Nada, portanto mais sedutor do que fazer do Estado este novo Leviatã tutelador com o qual a vanguarda esquerdista resgatará o povo de sua miséria, desigualdade e injustiça.

Esse combate é urgente. É preciso uma estratégia de comunicação de empoderamento do cidadão e não de valorização dos discursos do tutelamento e infantilização do povo. E, assim, neutralizar o discurso sedutor das esquerdas.

Em recente artigo divulgado também nas redes sociais, Marcos Vinicius de Campos, diretor do RAPS/ Rede de Ação Política pela Sustentabilidade, estima que existam 11,5 milhões de funcionários públicos no país, em todas as instâncias dos três poderes. Estes milhões de funcionários públicos precisam ter consciência de que são agentes de cidadania e não apenas massa de manobra da vanguarda esquerdista instalada nos governos.

Assim como podemos estimar em mais uns 10 milhões de formadores de opinião e capazes formuladores de políticas públicas, mas que atuam no setor privado.

Sem a menor sombra de dúvida, com este capital de 20 milhões de cidadãos políticos (não por coincidência foi este o capital eleitoral de Marina Silva nos dois últimos pleitos) podemos mudar a cultura política do país. Mas tem de ser pela mídia, sobretudo a jornalística e de assinatura de canais pagos que, não por acaso, alcança este mesmo universo de público.

Pois este é o caminho: replicar a opinião e as propostas desses agentes de cidadania na grande mídia e nas grandes redes sociais, de forma a mostrar que somos muitos, capazes e que podemos, sim, juntos fundar uma outra cultura política, até por que este é um processo que já começou.

Que a questão não é ser de esquerda ou de direita, pois uma nação de cultura política e de cidadania amadurecida já provou que deve ser governada pelo centro, como manda a prudência, deixando a administração pública da economia, dos programas sociais e da justiça sob a responsabilidade de cada uma das tendências históricas do mundo ocidental.

Depois de experiências de governo tão díspares quanto os militares conservadores na disciplina, os novos sociais-democratas mais desenvolvimentistas e os confusos e utópicos anarco-sindicalistas, acreditamos que o caminho passa por tudo isso, mas com cada um no seu quadrado, com sua maior competência: progressistas nos programas sociais, mas sem a chave do tesouro; liberais na economia, para a garantia do equilíbrio fiscal e do Estado enxuto; e os conservadores na administração da justiça e da segurança.

Esta é que seria a verdadeira ponte para o futuro. O resto é fulanização menor, mexerico da baixa política, que não interessa mais a ninguém.