São Paulo, 04 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Escassez de seriedade
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A falta de representatividade dos partidos políticos são uma espécie de gripe que pode virar pneumonia, o que levaria ao colapso uma democracia bastante defeituosa

Gosto de repetir que a democracia brasileira não conseguiu ainda se vacinar contra um sintoma negativo que a atormenta de forma recorrente: a falta de representatividade dos partidos políticos.

É como um resfriado, mais que isso, uma gripe, permanente que vez ou outra ameaça se tornar uma pneumonia.

Baseada num processo eleitoral que se renova a cada dois anos, portanto, com uma prática constante de exercício da escolha popular e renovação pelo menos de parte dos políticos com mandatos e dirigentes públicos, nossa concepção de representação popular peca na base.

Os partidos políticos, instrumentos de concentração de tendências, programas, ideologias da forma de governar, são na prática apenas redutos dominados de grupos políticos, de oligarquias, de interesses particulares e absoluta ausência de vínculos com o pensamento de parte dos eleitores, o que deveria se sua missão fundamental.

Como já mencionei antes, o ex-presidente Jânio Quadros dizia dos antigos Arena e MDB, derivados do período militar e onde se abrigavam políticos das mais diversas as tendências: são todos farinha do mesmo saco.

Fosse vivo, hoje em dia, e o ex-presidente ficaria pasmo com a proliferação de farinhas contidas na mesmice do multipartidarismo pátrio. Sobram siglas, multiplicam-se legendas, e a representatividade popular, continua a mesma? Nenhuma para ninguém.

São falsos os programas que a lei exige para a existência de um partido político. Limitam-se a um aglomerado de palavras com supostamente intenções de ação governamental no Executivo ou Legislativo.

Em nossos partidos políticos, onde o grosso da população passa ao largo, socialistas são prósperos capitalistas, e capitalistas são socialistas, na busca do poder.

Partidos de trabalhadores transformaram líderes que deveriam surgir do chão das fábricas em abastados líderes comprometidos com as estruturas de poder. Deram ao movimento trabalhista, e mesmo ao estudantil, a chancela de linhas auxiliares do governo movidas a polpudas verbas, todos, claro, acolitados em siglas pomposas. Sem falar, para um descanso mental, na absurda corrupção que atingiu os níveis mais altos de poder.

Mais pomposas do que as siglas não representativas das tendências da população brasileira são as propagandas obrigatórias na grande mídia, criada por eles, os partidos e seus membros com mandatos.

Existisse o mundo que eles difundem em programas, cujo requinte de formato inibe a TV comercial, não fosse o conteúdo oco (de ambos) e poderia parecer aos desavisados eleitores que aquela é a realidade nacional.

Falsidade, falácias, mentiras, ilusões, são subprodutos apresentados sem nenhum constrangimento pelos partidos –e praticados em suas ações no governo e fora dele- de modo a atrair os cidadãos e cidadãs para seus quadros de militância.

Procuram, também, massa de manobra interna porque defendem, por exemplo, lista de candidatos, para manter no esquema de dominação permanente dos mecanismos democráticos –a própria representação popular- os privilegiados que fazem parte do grupo de dominação e obtenção de privilégios à custa do tesouro público.

Os partidos políticos nanicos são uma aberração a serviço de manobras eleitorais, de conchavos televisivos e de arrecadação do fundo partidário. Há quem seja profissional dessa anomalia (o partido que só representa seus detentores).

A democracia brasileira, por mais incongruente que possa parecer, padece de um mal crônico: os partidos políticos. São eles os responsáveis pela inexistência de políticas públicas e de lideranças comprometidas com o país e não com seus interesses, na maior parte das vezes, de enriquecimento ilícito de seus integrantes.

Pior do que essa gripe é a pneumonia que pode vir do esgotamento do modelo. Cada vez mais aumenta o número de interessados no butim quando diminui o número de contribuintes, embora a arrecadação cresça Uma hora a conta não fecha.

Procuram-se, urgente, lideranças políticas sérias para o país. As que estão por aí, salvo uma ou outra rara exceção, não atendem aos interesses do Brasil, mas deles mesmos. E roube-se à vontade.

 



Uma das propostas para a reforma política veta reeleições. Com isso, impede que o político, ao se perpetuar no cargo, perca os vínculos com quem representa

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