São Paulo, 22 de Janeiro de 2017

/ Opinião

Empreendedores brasileiros, mexam-se!
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A questão cultural é o maior gargalo para a afirmação de uma cidadania empresarial capaz de mudar nossa inescrupulosa cultura política de corrupção e impunidade

Conversando outro dia com um líder empresarial, Eduardo Eugenio Gouvea Vieira, eu indagava das razões de grande parte do empresariado nacional parecer suportar, e até mesmo admitir, tamanha afronta por parte de nossos políticos profissionais, que tudo fazem em benefício próprio e muito pouco em prol do país. 

A lei do teto orçamentário, por exemplo: trata de uma obrigação elementar da classe política em não gastar para além do arrecadado. Mera obrigação, jamais uma virtude, como na gestão privada que, se não fizer isto, quebra. 

Não tem o condão em si mesma de reanimar a economia e promover o crescimento, que seria,  esta sim, uma agenda virtuosa. Assim como a reforma da previdência por si mesma pode criar condições, mas não despertar o investimento. 

Para enfrentar o descalabro do crescimento negativo e do desemprego em massa, é o caso de se acelerar as reformas trabalhista e tributária, além das medidas paliativas que não envolvem projetos de lei no Congresso Nacional, como as anunciadas nesta semana. Além da reforma política que pode mudar o paradigma civilizatório do país. 

A questão, insisto, é com que Congresso podemos contar, se um terço dele só pensa em escapar ileso do encalço da lei penal? 

Mas Eduardo Eugenio é um daqueles líderes empresariais que sabem muito bem que nada ocorrerá de novo na cena política nacional se a sociedade não continuar a pressionar as instituições públicas para livrar o país desta miserável prática de assalto sistemático aos cofres públicos.

Quando perguntei sobre o papel de liderança que o segmento empresarial tem na organização dos demais segmentos sociais, ele me presenteou com o exemplar do livro do líder francês Pierre Gattaz, presidente do MEDEF – Mouvement des Entreprises de France: Franceses, mexam-se!

Pois bem, trata-se de uma leitura obrigatória para as lideranças empresariais nacionais comprometidas de fato com a mudança da nossa cultura política, verdadeira responsável pelo atoleiro em que se encontra o país. 

Para além das inócuas iniciativas de campanhas contra a carga tributária, simplesmente percebidas como de interesse corporativo do setor, e sem o dom de aglutinar os demais segmentos sociais, o livro-manifesto começa e termina discutindo valores mal percebidos pela elite política francesa.

Diagnóstico que eu mesmo tenho feito sobre a crise brasileira e discorrido na série de artigos sobre a corrupção dos valores e o relativismo moral das elites brasileiras.

Vejam os quatro flagelos identificados por Gattaz acerca da França, se não parecem com o Brasil: a persistência de uma hostilidade gratuita contra a empresa privada, de cunho retrógrado e esquerdista; a omissão política das elites fechadas em seus interesses corporativos; ausência de pragmatismo econômico pela exacerbação da função social do Estado; e a proeminência das razões ideológicas da gestão pública sobre as condições de sobrevida concreta das empresas. 

Resultado: crescimento pífio, perda de competitividade, insegurança jurídica, desemprego crônico e crescente instabilidade social.

Com uma taxa de desemprego praticamente igual à brasileira, mais de 11%, Gattaz denuncia o medo do empresariado francês em criar postos de trabalho em face da legislação truculenta do setor que quase impossibilita a demissão, mesmo que negociada. 

Sim, o empresariado tem de se mexer no Brasil, como está se mexendo na França. Gattaz denuncia os dois mais recentes golpes contra os empreendedores franceses por parte de governos esquerdistas e que resume na equação 35/75, sendo o primeiro termo a redução da carga horária semanal de trabalho e o segundo o percentual de taxação sobre as grandes fortunas, que tem afugentado da França centenas de milhares de empresários e investidores.

Um tiro no pé, que não chegou ainda no Brasil, mas que tem toda a chance de chegar, se não dermos um basta na sanha dos políticos de criar dificuldade para vender facilidades ao empresariado. 

Mas se mexer em direção a que estratégia? Tenho defendido aqui e em outros fóruns que a questão cultural, embora pareça mais mediata, é o maior gargalo para a afirmação de uma cidadania empresarial capaz de mudar nossa inescrupulosa cultura política de corrupção e impunidade.

Pois a maior corrupção é a corrupção de valores morais que devem nortear a ação política. Se, ao invés de atividade maior de afirmação do interesse público, a política passa a ser apenas um meio de enriquecimento ilícito de políticos e empresários, temos como resultante a desmoralização das duas atividades imprescindíveis para a geração de riqueza e  prosperidade social. 

O mais grave, contudo, é a perda de confiança por parte de toda a sociedade. Confiança que é o valor edificante da própria sociedade. Não devemos esquecer que a fé pública é o maior bem para agregação de valor entre as trocas de mercado.

Confiança que Gattaz afirma como valor máximo das transações sociais, serve também para explicar a crise de confiança entre agentes públicos e privados de nosso país.

O falso argumento de que cultura não se muda, que nossa miséria política é parte fatal de nossa natureza, não se sustenta se listamos os avanços de superação de vícios de conduta de nosso povo nas últimas décadas, com o fenômeno das sucessivas manifestações de ruas, o maior engajamento nas campanhas contra a corrupção, e até mesmo conquistas corriqueiras no âmbito das relações com o espaço público, o trânsito e as regras de convivência social.

Tenho apenas defendido que este processo de mudança é mais eficaz lançando-se mão da mídia, para além da panaceia da educação que não se resolve em menos de duas gerações, como em vários casos de superação cultural de outros povos em estágios civilizatórios semelhantes ao nosso atual e em épocas pretéritas.

O bloqueio mental das elites dirigentes do setor público francês contra as empresas é exatamente o mesmo que ocorre no Brasil com o viés esquerdista que viceja, não apenas na classe política populista, mas também na burocracia estatal, na academia e em larga parte dos produtores de conteúdo da mídia de massa.

Não é por coincidência que todos não se sintam obrigados a apresentar resultados para sobreviver, como é condição essencial dos empreendedores. 

Costumo dizer que o Brasil tem a urgente necessidade de escolher entre os paradigmas de prosperidade da cultura anglo-saxã ou latina, entre o paradigma hobbesiano do homem como lobo do homem ou o rousseauniano do bom selvagem! Dependendo desta escolha estaremos definindo nosso destino civilizatório pró ou anti-mercado.

Se temos herdado os mesmos vícios da tradição bacharelesca e barroquista dos latinos, y compris a francesa, temos tido também a oportunidade de flertar mais recentemente com o pragmatismo da cultura americana. O dever de casa proposto por Gattaz ao empresariado francês é o mesmo que podemos propor ao brasileiro.

Se lá organizaram um movimento que reúne meio milhão de empreendedores com o objetivo de criar um milhão de empregos, aqui temos de multiplicar este número por dez, o que, na minha concepção, terá de contemplar outros segmentos sociais para além dos empreendedores distanciados da corrupção política, como os profissionais liberais autônomos e alguma parte mais esclarecida dos próprios agentes públicos. 

E propor um pacto social para além da grande armadilha das defesas corporativistas de todos que querem viver às custas do Estado.

Como disse o pensador francês Frédéric Bastiat: "L'État c'est la grande fiction à travers laquelle tout le monde s'efforce de vivre aux dépens de tout le monde." 

Pois se cada uma das corporações não oferecer espontaneamente a sua cota de sacrifício, todas morrerão com a crise insustentável de todo o país.

Crise que se torna a grande oportunidade de reunirmos os Agentes de Cidadania entre os empreendedores que vão mudar a cultura política brasileira independente dos políticos, senão no espaço institucional de suas representações de classe, ao menos no espaço virtual das redes sociais e da mídia convencional que tem uma grande responsabilidade nesta reforma cultural que o país precisa.

Pois não há confiança sem exercício cívico-político, sem valores resgatados de um imaginário social nefasto de não acreditarmos em nós mesmos apesar de todas as evidências em contrário, sobretudo no mundo empresarial. Façamos nosso Congresso virtual e paremos de nos mirar por Brasília.

Se o Congresso real não nos representa, apresentemo-nos uns aos outros num Shadow Congress nós mesmos e iremos nos surpreender que, para além do grito das ruas, temos infinitas propostas de políticas públicas a partir de nossas próprias experiências de sucesso privado. 

Ao invés da cotidiana rotina de escândalos anunciada pela mídia de massa, da gincana de todos tentando tirar vantagens de todos, o programa seria o de todos passarem a acreditar em todos como cidadãos de bem que realmente somos, com exceção da maioria dos políticos profissionais. 

Não temos nada a perder com a revelação do que cada corporação pode identificar, quantificar e publicizar de parte de seus privilégios corporativos para recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento. 

Sobretudo a corporação dos políticos que deveriam estar dando o exemplo para terem moral de pedir o mesmo dos cidadãos comuns.

Se não, comecemos pelos cidadãos, como por exemplo os membros das corporações da magistratura e do Ministério Público, passando pelos administradores públicos de carreira, pelas representações sindicais patronais e de trabalhadores. 

Pelas autarquias e empresas públicas (muitas delas desnecessárias), passando pela academia e universidades públicas, os conselhos de profissionais liberais os mais diversos, todos que usufruam de quaisquer tipos de vantagens, benefícios ou incentivos fiscais.

O fórum de Agentes de Cidadania, como assembleia de representados pagadores de impostos, é que poderia julgar com legitimidade tais contribuições e a decisão consensual de sua renúncia em contrapartida da renúncia dos políticos ordenadores de despesas e representantes de nossa soberania.

Tudo em prol da sobrevivência do país e da construção de um novo projeto de nação. Venho propondo às lideranças empresariais este programa já há alguns anos, e que se inicia com um curso de cultura de cidadania política e corporativa para nivelar conceitos e valores, com um laboratório prático na sequência, onde os Agentes de Cidadania se comprometem em vídeo-depoimentos com propostas de políticas públicas inovadoras que, estas sim, podem mudar nosso imaginário de fracasso para a crença num novo projeto de país.

Na ausência de representantes dignos, façamos nós mesmos, cidadãos pagadores de impostos, nossos deveres cívicos, uma vez que não pode haver gestão bem-sucedida de empresas num país fracassado em sua gestão pública. 

O sentido de um curso de cidadania política empresarial é dotar os gestores privados de competência de avaliação da política como determinante na avaliação de ambientes de negócios para se viabilizar a própria gestão privada da empresa. 

Mesmo que baseada nos valores-chave enumerados ao final de seu livro, como ética, exemplaridade, bom senso, interesse público, verdade, coragem e perseverança, Gattaz corrobora que a gestão privada só tem sucesso se vem acompanhada da crença de que pode influenciar e reformar a gestão pública que afeta a todos, sem exceção. Não temos nada a perder, a não ser a descrença.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 



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