Opinião

Em juízo e em jogo


Apesar de as salvaguardas do Estado democrático de direito garantirem que justiça e política não se misturem, a distância entre o que está sendo julgado e o que está em jogo no País é muito menor do que gostaríamos de admitir.


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 16 de Maio de 2017 às 16:00

  | Historiador


As autoridades não foram constrangidas, a opinião pública não se comoveu e a ordem foi mantida. 

Esse é o resumo do 10 de maio passado em Curitiba, bom augúrio de uma normalidade há muito desaparecida no Brasil.

O governo, por mais precário que pareça, governa; o legislativo, por mais suspeito que seja, legisla; e o judiciário, por mais dividido que esteja, julga. 

E assim o País segue em frente, tentando superar a crise. Mas se o Brasil quiser realmente deixar para trás o desastre que o atingiu, será preciso entender, de alguma forma, o que lhe aconteceu, antes de chegarmos às urnas em 2018.

Na economia, o governo Temer está fazendo tudo certo, tudo que se espera  de um governo que dispõe de quadros responsáveis e competentes.

Os indicadores estão aí: os índices de confiança dos empresários e consumidores  melhoram e a inflação recua em todos os setores, abrindo espaço para novos cortes de juros. 

A recessão pode estar no fim, mas a retomada econômica não acontece. E por que? 

As melhores cabeças apontam as razões imediatas: desemprego, endividamento e falta de investimentos. Paira, no entanto, uma sensação de que está faltando algo. 

Quem aposta no Brasil? Quem está disposto a investir no Brasil? Quem acha que as reformas fiscal, trabalhista e previdenciária vão durar além de 2018? Sem respondermos a essas perguntas não teremos resposta à grande questão que assombra o País há décadas: por que ele não cresce de forma sustentada?

Alguns economistas já apontaram a taxa histórica de crescimento da economia necessária (mas não suficiente, diga-se) para o Brasil se desenvolver: em torno de 6%, por alguns anos, até os fatos se imporem por si e não pelos legisladores e tecnocratas da engenharia social. 

Mas a mera referência a esses índices, antes de ensejar qualquer reflexão mais ampla, desperta as vozes do imobilismo segundo as quais o Brasil não dispõe de capital, nem humano e nem financeiro, para sustentar tal nível de crescimento econômico. Aí está a raiz da questão: o País se recusa a mudar as expectativas sobre si próprio. 

Capital é uma questão de expectativa. 

E qual é a expectativa do Brasil nesse momento? Subdesenvolvimento? Impunidade? Corrupção? Subemprego? Benesses dos cartórios partidários?  

Será que o País não aprendeu nada?  

Olhemos com a possível isenção para os últimos anos: qual a grande realização do governo foi concluída, em favor do País e sem desvio de recursos? Cada um pode ter a sua resposta, mas a soma de todas vai, sem dúvida, definir o futuro do Brasil.  

Por isso, apesar de as salvaguardas do Estado democrático de direito separarem justiça e política, a distância entre o que está sendo julgado e o que está em jogo no País é muito menor do que gostaríamos de admitir. 

O que está sendo julgado é a culpa de uns por crimes que foram cometidos em nome de muitos: um problema da Justiça.

Muito mais grave é o que está em jogo: se eles vão voltar a fazer o que fizeram: um problema de todos nós.     

 

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