São Paulo, 26 de Junho de 2017

/ Opinião

É bem pior
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Não há lideranças institucionais, em nenhum dos poderes da República, para fazer face às cobranças e demandas da sociedade brasileira

Três grandes desenvolvimentos em curso no Brasil, cada um com sua dinâmica, podem agravar o já tumultuado cenário político brasileiro.

O primeiro é a Operação Lava-Jato, a qual, tudo indica, vai revelar fatos ainda mais graves dos que até aqui vieram à tona, sem que ninguém saiba ao certo até onde repercutirão os efeitos dessa evisceração da corrupção, podendo ir desde a desorganização do quadro sucessório até a da própria estrutura partidária, a exemplo do que aconteceu na Itália com a Operação Mãos Limpas, diga-se, a esta altura, já ultrapassada pela sua congênere brasileira.

O segundo se coloca em rota de colisão com o primeiro. Trata-se da movimentação do Legislativo no sentido de impedir que as investigações da Lava-Jato atinjam os seus integrantes, em um dos maiores e piores consensos suprapartidários já vistos no País.

Se vingar, muito mais do que se chocar com procuradores e juízes, ele pode trazer às portas do Congresso Nacional em Brasília a maior multidão enfurecida da História do Brasil.

E silencioso, mas prestes se desvelar, o julgamento da chapa Dilma-Temer nas eleições de 2014 pelo TSE, que pode fazer do governo no qual se depositam justificadas expectativas um dos mais curtos da história política brasileira, criando instantaneamente um caos político que agravará, aqui e lá fora, a já combalida situação econômica do País.

Para o bem ou para o mal, cada um desses encadeamentos tem a sua própria lógica e regras, no primeiro caso perseguindo objetivos legais, descaradamente imorais no segundo ou quem sabe simplesmente técnicos no terceiro, e eles vão piorando um cenário nacional nada auspicioso.

O governo federal, a despeito de possuir quadros de qualidade, é refém do que há de pior no Congresso Nacional, de cima a baixo.

E, não obstante ter obtido vitórias importantes no encaminhamento de ajustes e reformas, parece longe de conseguir concretiza-las, dado o fisiologismo da base de apoio que está mais preocupada em salvar a si mesma do que ao País.

Os resultados não se fizeram por esperar. O FMI e o próprio governo azedaram a prospectiva de recuperação econômica do País e reduziram a projeção de crescimento do PIB para 2017, com toda a sorte de pioras que isso traz.

A tentativa do governo fluminense em empurrar para seu funcionalismo público a conta do desastre das finanças estaduais só piorou a situação do Rio de Janeiro.

Ficou no ar a sensação de que a destrambelhada iniciativa só não avançou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro graças à prisão decretada por juiz de primeira instância de um ex-governador investigado pelas irregularidades que compõem o pano de fundo do caos nas contas públicas do Estado e, pior, por causa da invasão daquela casa por manifestantes não contidos pela Polícia Militar.

Mas as coisas sempre podem ficar piores. Uma semana depois, no decorrer de uma sessão deliberativa  da Câmara de Deputados, manifestantes, pretextando as manobras em curso  no Congresso para deter a Lava-Jato e outras investigações, invadiram o plenário da Casa gritando palavras de ordem e ocupando a mesa diretora dos trabalhos, uma cena da qual não há registro na História do Brasil, nem tampouco para qual existam explicações ou justificativas.

Assim, o pós-impeachment está mostrando que a situação do Brasil é bem pior do que se imaginava.

Depois de treze anos de anuência ao populismo político e fiscal, de convivência com a corrupção como instrumento de poder e de conformismo com o atraso e o subdesenvolvimento, o País está insolvente, não do ponto de vista econômico, mas acima de tudo político.

Como estão a demonstrar os acontecimentos recentes, não há lideranças institucionais, em nenhum dos poderes da República, para fazer face às cobranças e demandas da sociedade brasileira.

Michel Temer faz bem o que sabe, trabalho de bastidores, composições políticas, apaziguamentos e alianças improváveis. Mas não pode, não sabe ou não quer fazer o que o País precisa que seu presidente faça nesse momento: demonstrar assertividade, credibilidade e determinação na adoção das medidas moralizadoras que a sociedade espera, as quais, ao contrário do que muitos acreditam, são mais importantes e prioritárias do que as econômicas.

Quanto aos demais poderes, enleados em suas próprias contradições, distorções e corporativismos, seus titulares maiores não possuem condições de romper essa rede nefasta que os neutraliza. Neles, a lógica da hierarquia e da meritocracia parece ter se invertido.

Quanto mais alto o círculo de tomada de decisões, menor a eficácia das medidas. Quanto mais alta a autoridade, mais próximas as suas decisões dos interesses espúrios e imorais que circulam desavergonhadamente nos corredores palacianos País afora.

E se atribui tudo isso a um conflito de poderes. É pior.

Subordinados denunciam o emprego ilegal de suas organizações por políticos.

Polícias não contêm invasores que investem contra instituições.

Juízes de primeira instância, procuradores e policiais fazem o que a população espera,  esforçando-se por convencer os legisladores da necessidade de leis e medidas duras contra a corrupção, enquanto instâncias superiores se calam ou até mesmo os contrariam ou desautorizam.

A aprovação pela população das punições aos culpados pela malversação generalizada de fundos públicos vai dando espaço a um sentimento de vingança social, de uma população humilhada que se compraz na humilhação pública do punido.

Cresce a aprovação da população a medidas extrajudiciais de combate à criminalidade, somando-se tudo isso à exasperação da sociedade com o denominado politicamente correto que mascara os problemas em vez de resolvê-los.  

Não, o grande problema neste momento não é um racha entre os Poderes, mas sim  um racha nos Poderes.

A coisa é bem pior. O que está rachando é a base social de sustentação das instituições no País. A continuar assim, só vai restar o bom senso dos brasileiros de bem.        


 
     

 



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Somos contra o AR porque prejudica consumidores, famílias, empresas, além de ser sete vezes mais caro do que a carta simples.

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