Opinião

É hora de realismo, não de mágica


Hillary não pode prometer fazer mágica sem ser obviamente falsa. Sanders, por sua vez, acredita provavelmente no que está dizendo. O rude despertar se dará mais à frente


  Por Paul Krugman 19 de Fevereiro de 2016 às 09:44

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Os últimos meses têm sido interessantes do lado progressista do debate político, e eu me refiro ao que há de pior nele.

Um número significativo de progressistas está realmente muito empolgado com o apoio inesperado a Bernie Sanders, candidato democrata à presidência, e está chocado com a descoberta de que muitos experts ? acho que a maioria ? veem com ceticismo esse quadro.

Para mim, o quadro é mais ou menos familiar: eu também fui cético em relação às promessas transcendentes de Barack Obama em 2008.

Naquela época então, assim como agora, um número razoável de entusiastas não perdeu um minuto sequer para dizer que eu era um vilão corrupto, desesperado para arrumar emprego com Hillary Clinton.

Tudo bem, isso também passará. Mas achei que valeria a pena me estender um pouco mais a respeito da posição que têm hoje pessoas como eu.

Em primeiro lugar, para dizer o óbvio, embora às vezes não pareça ser: aquilo que desejamos num plano ideal e o que pode ser realizado não são a mesma coisa.

O que eu e a maioria dos meus amigos experts gostaríamos de ver é o que o economista Robert Heilbroner costumava chamar de uma "Suécia Ligeiramente Imaginária" ? isto é, um país com uma rede social forte que protegesse a todos contra a pobreza evitável, que desse aos trabalhadores um poder de barganha substancial e em que houvesse uma sólida política ambiental.

Um lugar onde a decência básica fosse um princípio fundamental.

Contudo, nada parecido com isso acontecerá nos EUA a curto prazo. Se tivermos algum tipo de mudança radical nos próximos anos, e provavelmente nas próximas décadas, virá da direita, e não da esquerda.

Conforme destacou recentemente Matt O'Brien no Washington Post, até mesmo as mudanças incrementais que Hillary Clinton está propondo não deverão passar pelo Congresso; as mudanças radicais que Bernie Sanders está propondo não aconteceriam mesmo que os democratas retomassem o controle da Câmara.

O'Brien diz que a primária democrata "consiste em discutir o que é mais real: um unicórnio mágico ou um unicórnio comum. Seja como for, o fato é que há um unicórnio na plataforma."

Infelizmente, é provável que isso seja verdade: as plataformas dos candidatos devem ser entendidas mais como aspirações do que como programas que realmente se concretizarão. Nesse caso, porém, por que não optar pelo unicórnio mágico? Há alguns motivos para não fazê-lo.

Um deles é que há graus de realismo: um programa que pudesse ser implementado parcialmente se os democratas recuperassem a Câmara poderia se tornar um guia útil em relativamente pouco tempo, ao passo que um programa que requeira uma revolução, não.

Outra coisa é que a insistência de Sanders na necessidade de unicórnios mágicos talvez tenha levado, inevitavelmente, à invocação de uma mágica econômica e também política.

Avisei não faz muito tempo que Sanders não estava disposto a conversar francamente com seus eleitores acerca das exigências por trás dos seus ideais ? que, de modo especial, ele estava supondo a existência de economias irreais para mascarar a realidade de que muitos americanos de classe média seriam os verdadeiros prejudicados em uma transição para um sistema de saúde de pagador único.

Isso pode ter uma importância muito grande em uma eleição geral. É claro que o candidato escolhido para representar os republicanos, seja ele quem for, apresentará planos obviamente tolos.

Contudo, se seu oponente democrata também apresentar um plano que não faça sentido, você sabe que a mídia mostrará uma situação de simetria, mesmo que não seja. (E não seria: apesar dos problemas da plataforma de Sanders, as fantasias do Partido Republicano pertencem a uma categoria totalmente distinta).

É por isso que é importante criticar Sanders agora, ao invés de esperar para fazê-lo mais tarde ? é por isso também que a resposta automática da campanha atacando os mensageiros* é tão ruim. Talvez funcione em uma primária, mas não funcionará de jeito nenhum mais tarde.

A estratégia de campanha do unicórnio mágico não é algo que me deixe feliz. No entanto, entendo o problema, que é também o problema de Hillary Clinton: entre os jovens, em particular, ninguém vai conseguir muita popularidade bancando o estraga-prazeres.

Dizendo: "Não, não podemos ? na melhor das hipóteses, talvez um pouco", não é muito inspirador para quem quer um astral melhor. Se fôssemos realistas, o slogan, na verdade, deveria ser "Não passarão", aí sim seria realmente inspirador.

Tudo isso coloca um problema interessante para Hillary Clinton ? que, se nomeada, se apresentará como boa defensora das realizações do presidente Barack Obama.

Até lá, será que ela consegue um astral semelhante ao de Bernie Sanders? Provavelmente, não, porque seria insincero adotar essa postura.

Ela é veterana de muitos anos de brigas partidárias, vítima de calúnia pessoal, sabe como é difícil a mudança positiva (e, sim, parte disso tudo se aplica a mim também, embora nem remotamente no mesmo grau).

Ela não pode prometer fazer mágica sem ser obviamente falsa. Sanders, por sua vez, acredita provavelmente no que está dizendo. O rude despertar se dará mais à frente.

Hillary Clinton provavelmente será nomeada ? em parte porque o eleitorado afro-americano, muito mais do que o eleitorado branco, sabe muito bem como é difícil conseguir alguma mudança.

Por enquanto, pelo menos, as pesquisas mostram que Sanders tem feito incursões significativas no voto minoritário. E, como eu disse, Hillary está bem posicionada para as eleições gerais.

O problema é que este é um momento difícil para os progressistas que não acreditam em mágica.

*Há uma cena clássica em "Antônio e Cleópatra", de Shakespeare, em que um mensageiro diz à rainha do Egito que Antonio havia se casado com Otávia. Ela reage batendo no mensageiro e tentando esfaqueá-lo.

TRADUÇÃO: A.G.Mendes

FOTO: Hillary Clinton e Bernie Sanders/Jim Wilson/The New York Times

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