Opinião

Dos cachorros aos porcos


Montado na sua habitual arrogância que beira o fanatismo, José Dirceu, ele próprio - em carta à qual foi dada amplíssima publicidade - mostra o perigo que representa à sociedade brasileira


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 04 de Maio de 2017 às 12:22

  | Historiador


Não demorou muito para conhecermos a extensão do erro do STF em ordenar a substituição das prisões preventivas de José Dirceu por medidas cautelares definidas pela Justiça.

Não foi pelo protesto do procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava-Jato, que demonstrou a incoerência dos ministros do STF que votaram a favor de José Dirceu ontem, mas em passado não distante foram contrários à saída de réus por corrupção e tráfico de drogas.

Nem pela correspondente decisão do juiz Sérgio Moro despachada nesta quarta-feira, 3 de maio, na qual ele se manifesta sobre o receio de José Dirceu vir “a furtar-se da aplicação da lei penal”, sobre a insuficiência de tais medidas para prevenir “totalmente eventual fuga” e sobre a preservação das “investigações sobre crimes em andamento”.

E tampouco pela anunciada interrupção da negociação de delação premiada por Antônio Palocci, que enxergou na concessão de liberdade a José Dirceu a possibilidade de vir também a ser solto pela via de recurso já apresentado ao STF. Afinal , no fazendão em que se transformou o Brasil, onde passa boi, passa boiada.

Não! Não é pela incoerência, pelo risco ou pelo precedente que se constata o erro em conceder liberdade a José Dirceu, por duas vezes condenado em primeira instância e preso preventivamente. 

Montado na sua habitual arrogância que beira o fanatismo, José Dirceu, ele próprio - em carta à qual foi dada amplíssima publicidade - mostra o perigo que representa à sociedade brasileira. 

Na carta a “amigos”, não se vê nenhum sinal de humildade ou arrependimento.  Só certezas.

Ao proclamar que “não tinha e não tem nada a delatar”, mostrou sua convicção nos atos pelos quais foi acusado, condenado e preso. 

E mais grave, deixou evidente a sua determinação em prosseguir no projeto criminoso de poder do qual é, até o momento, o grande mentor, pretendendo legitimá-lo pela desqualificação ofensiva de autoridades e instituições. 

Os termos jactanciosos nessa alentada carta, escrita dias antes de sua libertação, deixaram a desagradável suspeita que, de alguma forma, José Dirceu tinha também a certeza de que seria solto. 

Comparou então os delatores, seus antigos companheiros de viagem, aos “cachorros da ditadura”, o anátema que nos anos setenta valia sentença de morte decretada por algum tribunal revolucionário e executada por qualquer terrorista tresloucado o bastante.

Esse delírio só tem paralelo com a ficção de George Orwell (Animal Farm, 1945) em que José Dirceu e seus asseclas pretenderam transformar o Brasil. Para fazer a revolução dos bichos contra o proprietário da fazenda e controlar todos os seus animais, os porcos Bola de Neve e Napoleão usaram os cachorros que sabiam abanar os rabos para o antigo dono.

Por aí se pode ter uma pálida ideia do quanto o Brasil piorou de ontem para hoje. Segundo as metáforas orwellianas, os cachorros estão onde devem, na prisão ou no ostracismo. 

Os porcos é que estão voltando.

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