Opinião

Donald Trump pisou no tomate


Com o veto ao desembarque de pessoas de sete países muçulmanos, presidente americano enfrenta forte oposição dentro da própria máquina do governo, como o Departamento de Estado


  Por João Batista Natali 02 de Fevereiro de 2017 às 08:00

  | Editor contribuinte natali@uol.com.br


Não há nada de errado no fato de um presidente recém-empossado cumprir ao pé da letra as promessas que fez durante a campanha.

Mas Donald Trump criou mais problemas que resolveu, ao assinar, na sexta-feira (27/01), o decreto que proíbe, por 90 dias, o desembarque de cidadãos de sete países muçulmanos.

Os países em questão – Irã, Iraque, Síria, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen – possuem como denominador comum não terem fornecido nenhum dos terroristas que participaram, em 2001, dos atentados de 11 de Setembro, com a morte de 2.996 civis em território americano. Nem de atentados bem menores que se seguiram.

Mesmo assim, Trump diz que agiu em nome da “segurança interna”, argumento apoiado por 49% dos americanos, e a oposição de 41%, segundo pesquisa Ipsos/Reuters divulgada terça-feira (31/01).

Mas a política do medo não é uma ferramenta saudável para governar. Sobretudo quando os opositores de Trump, dentro e fora do governo, caíram de imediato na trincheira da resistência.

Foi o caso de advogados e tradutores, que já no sábado acorreram para uma dezena de aeroportos, oferecendo-se voluntariamente para tentar desembarcar os passageiros atingidos pelo decreto da Casa Branca.

Ao mesmo tempo, juízes declaravam-se de plantão para tomar decisões favoráveis às petições que lhes chegavam em mãos.

E, apesar da crueldade do inverno ao norte dos Estados Unidos, multidões de tamanho incalculável saíam às ruas numa centena de cidades, entre sábado (28/01) e a terça-feira seguinte, em movimento de protestos articulados nas mídias sociais e que estão longe de terminar.

O decreto de Trump também atingiu servidores públicos de carreira, que colocaram seus empregos em risco ao aderirem ao protesto.

O principal movimento nasceu e cresceu no Departamento de Estado, sede da diplomacia americana.

Segundo o New York Times, nesta quarta (01/02) mais de mil diplomatas haviam assinado nos cinco continentes uma espécie de manifesto com um argumento que faz muito sentido.

Dizem que o decreto não aumenta a segurança interna dos Estados Unidos. Seus efeitos vão justamente em sentido contrário, porque alimentam o sentimento antiamericano em regiões onde os terroristas são recrutados.

A reação mais espetacular à Casa Branca veio de Sally Yates, que exercia interinamente um cargo de primeiro escalão que mistura, em termos brasileiros, o Ministério da Justiça e a Procuradoria Geral da República.

Ela determinou que os advogados da administração federal não obedecessem o decreto de Trump, porque o texto é ilegal e desumano.

Yates, que foi nomeada por Barack Obama e apenas aguardava que o Senado aprovasse o nome de Trump para sua sucessão, foi obviamente demitida. Mas a mídia, sobretudo a CNN, manteve o assunto em manchete durante toda a manhã de terça-feira.

Uma iniciativa bem mais discreta partiu do Pentágono. Oficiais superiores das Forças Armadas negociam com a Casa Branca uma lista de exceções para cidadãos iraquianos.

São pessoas na mira do Estado Islâmico ou de extremistas xiitas, por terem atuado ao lado das forças americanas, quando em 2003 os Estados Unidos invadiram o Iraque.

OS FREIOS E CONTRAPESOS

De certo modo, a oposição da mídia era esperada porque ela torcia em peso contra a candidatura Trump durante a campanha presidencial do ano passado.

Mas os núcleos de resistência dentro da administração federal americana já caracterizam um fenômeno político de outra ordem. É o funcionamento do sistema de freios e contrapesos (checksand balances), criado pelas instituições locais para impedir que um dos poderes se sobreponha aos outros ou à própria sociedade.

Em termos externos, Trump deixou os Estados Unidos numa posição de inédita solidão. Praticamente ninguém o apoiou, exceto declarações formais de dirigentes da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, que não são, como se sabe, países democráticos.

Declarações críticas foram feitas pelos governos da França e da Alemanha, pela União Europeia, pelo secretário-geral das Nações Unidas -sem citar nominalmente Donald Trump –pelo Alto Comissariado da ONU para refugiados e até pelo Vaticano, que se expressou nesta quarta (01/02) por meio do secretáro de Estado adjunto, arcebispo Angelo Becciu.

Com um plano de difusão da própria imagem que consiste em criar a cada dia um fato novo, Trump não conseguiu eclipsar as repercussões contra o seu decreto nem com o anúncio, na noite de terça (31/01), do ministro que ocupará a nona cadeira vacante da Suprema Corte, Neil M. Gorsuch.

É um magistrado conservador, escolhido para impedir que, na esfera federal, iniciativas estimulem ou financiem a prática do aborto, que ficaria circunscrita à jurisdição dos Estados.

ECLIPSE DO DECRETO PARA EMPRESÁRIOS

Trump também relegou ao esquecimento decreto que assinou, segunda-feira (30/01), para a desregulamentação de pequenos e médios negócios.

O mercado – o índice Dow Jones subiu quase 10% desde a posse dele, em 20 de janeiro – não se entusiasmou particularmente com a medida.

Desregulamentar, sobretudo retirando das empresas o peso das licenças ambientais, não é nos Estados Unidos uma tarefa exclusiva da União. Estados e municípios, com sensibilidade maior que a Casa Branca em questões ecológicas, tendem a se manter bem mais conservadores.

FOTO: GAGE SKIDMORE/FLICKER CREATIVE COMMONS