São Paulo, 10 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Dez anos depois: o que acertei e o que errei
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De modo geral, apesar dos meus erros evidentes, acho que me saí bem — principalmente porque nunca permiti que as inquietações da moda me desviassem da macroeconomia básica

Ao fazer uma limpeza em meu escritório em Princeton recentemente, me dei conta de como é efêmera a natureza dos textos sobre políticas de gestão. Uma parte bem grande e deprimente da minha estante estava repleta de livros que cobriam o equivalente a 30 anos da próxima década decisiva.

Que coisa! Enquanto eu ia empilhando esses livros em um monte para doação, me peguei pensando sobre mim mesmo — numa atitude quem sabe até hedonista —, mas não em relação à década por vir, e sim às décadas passadas. 

O fato é que faz quase dez anos que venho escrevendo sobre a crise financeira e a Grande Recessão. (É claro que, no início, não sabia que estava realmente escrevendo sobre essas coisas).

Tudo começou com meu diagnóstico da bolha imobiliária nos EUA, cujo estouro eu sabia que seria terrível, mas não tinha a mínima ideia da extensão do estrago que provocaria. Contudo, percebi que havia uma série de coisas bastante coerentes, o que me levou a pensar no que eu havia acertado e no que havia errado.

O princípio de tudo, conforme já disse, foi a bolha imobiliária. Certamente não fui o primeiro a dar o alarme — o economista Dean Baker, principalmente, fez soar o alarme bem antes de mim e com uma contundência muito maior.

E, contudo, aquele que considero meu primeiro artigo sobre a crise deu sua contribuição ao apontar a enorme diferença no comportamento dos preços entre os Estados onde havia restrições à construção e os demais.

Quem olhasse para as médias nacionais chegaria à conclusão de que era possível que os preços fizessem sentido, mas bastava que se abrisse o subconjunto certo de Estados e cidades para que aquela loucura toda viesse à tona diante dos nossos olhos. Essa diferença se confirmou de forma devastadora nos anos que se seguiram.

Esse foi o começo.

Desde então, o que foi que acertei e o que foi que errei?

O que acertei:

1. A bolha imobiliária: Vale a pena lembrar o quanto se negava a existência da bolha, e quanto dela foi consequência de decisões políticas. Quanta gente então me dizia: "Você só diz que há uma bolha porque odeia o Bush."

2. Inflação, ou melhor, ausência de inflação: Escrevi sobre isso inúmeras vezes, mas, depois do estouro da bolha imobiliária, passei a defender categoricamente a ideia de que as políticas expansionistas do Federal Reserve não constituíam risco inflacionário. Houve muita polêmica por causa disso. A direita estava totalmente convencida de que a inflação era iminente; o centro e a esquerda pelo menos não foram tão categóricos.

3. Taxas de juros: Os investimentos privados não desaparecerão por causa do grande volume de empréstimos contratados pelo governo. Disse isso com muita firmeza desde o início — os democratas estavam sobressaltados, e não foram poucos os que acreditaram em histórias sobre o risco de déficit, embora a economia estivesse em recessão.

4. A austeridade é nociva: Muita gente que devia saber das coisas acreditou na mágica da confiança [segundo a qual a austeridade estimularia a confiança], ou pelo menos cedeu ao conceito de que os índices eram insignificantes demais. Eu havia dito que os índices aumentariam naquelas circunstâncias. As pesquisas comprovaram que foi isso mesmo o que aconteceu, e deram razão ao que eu defendia.

5. Estímulo inadequado: Avisei logo, e não foi uma vez só, que a recuperação dos EUA e a Lei de Reinvestimento de 2009 eram incompatíveis, e que essa inadequação teria consequências duradouras. Infelizmente, eu estava certo.

6. A desvalorização interna é terrível, brutal e longa: Desde o início eu disse que o ajuste dos preços relativos na zona do euro seria algo extremamente difícil, e que ninguém tem o tipo de flexibilidade de salários e de preços que permita uma "desvalorização interna" suave — e que países em condições de promover desvalorizações internas, como a Islândia [que tem moeda própria], o fariam com grande tranquilidade.

7. O programa de saúde de Obama (Obamacare): Um assunto muito diferente, mas em meu livro de 2007, "A consciência de um liberal", eu disse — embora não tenha sido o primeiro a fazê-lo — que um sistema de saúde como o proposto pela Lei de Saúde Acessível (Affordable Care Act) constituído de decretos, regulações e subsídios — ainda que não fosse algo que se pudesse fazer a partir do zero — daria certo nos EUA (sou a favor de uma opção pública, mas essa já é outra história).

O que errei:

1. A escala da tragédia: Identifiquei a bolha imobiliária, sabia que as consequências seriam desastrosas, mas não tinha ideia das dimensões da coisa. Passou batido por mim o surgimento do sistema bancário paralelo. Tampouco me dei conta da dívida das famílias ou dos desequilíbrios da zona do euro.

2. Deflação: Achava que uma deflação ao estilo japonês era um risco iminente comum a todas as economias em recessão. Em vez disso, o que se observa é uma inflação baixa, porém positiva e de notável persistência.

3. A ruptura do euro: De modo geral, creio que minha análise da economia da zona do euro e seus problemas foi muito boa (nem sempre, veja abaixo). Contudo, superestimei imensamente o risco de ruptura porque interpretei mal a economia política — não percebi o tremendo sofrimento que as elites europeias estavam dispostas a impor em nome da preservação da união monetária. Paralelamente a isso, não me dei conta de como seria fácil fazer passar por sucesso uma recuperação econômica modesta, mesmo depois de anos de horrores.

4. Efeitos da liquidez sobre a dívida soberana: Por fim, sinto em dizer que não compreendi a importância do papel da liquidez e da escassez de capital para os preços dos títulos na zona do euro. Foi só quando o economista Paul DeGrauwe tocou no assunto que eu entendi quanta diferença faria se o Banco Central Europeu fizesse seu trabalho de emprestador de última instância. Na verdade, a sobrevivência do euro se deve em grande medida a DeGrauwe — e a esse sujeito, Mario Draghi, que, como presidente do BCE, pôs em prática as ideias de DeGrauwe.

É provável que eu tenha deixado de perceber outras coisas, embora ache interessante quantos dos meus críticos sentem a necessidade de atacar meu histórico, inventando previsões e dizendo coisas que eu nunca disse.

De modo geral, apesar dos meus erros evidentes, acho que me saí bem — principalmente porque nunca permiti que as inquietações da moda me desviassem da macroeconomia básica. Além disso, sempre procurei aplicar as lições da história.

*ILUSTRAÇÃO: CORAX; Serbia/CartoonArts International/The New York Times Syndicate



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