São Paulo, 28 de Maio de 2017

/ Opinião

"De tudo fica um pouco"
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Aquela ideia ingênua e reacionária que pinta o brasileiro como incapaz de evoluir em seus hábitos não se sustenta. O “complexo de vira lata” não é uma condenação genética

Resíduo é o nome de um poema do nosso poeta maior. Carlos Drummond de Andrade dizia:

Pois de tudo fica um pouco./

Fica um pouco de teu queixo/

no queixo de tua filha.

De teu áspero silêncio/

um pouco ficou, um pouco/

nos muros zangados,/

nas folhas, mudas, que sobem.

A sensação de que tudo passa é tão ilusória quanto a de que nada muda.

De tudo fica um pouco, "Ficou um pouco de ruga na vossa testa, retrato ".

Quando eu olho a vida das pessoas, quando eu converso e convivo com elas e quando elas dizem o que têm sentido nestes últimos anos, eu tenho a convicção de que algo vai ficar.

O resíduo destes duros períodos que atravessamos há de nos ensinar algumas coisas.

Alguém desempregado ao seu redor, uma expectativa de que ela pode ser a próxima, ou seu marido, sua esposa, filhos, parentes, conhecidos, vizinhos.

Um gosto amargo de frustração pelo que já tivemos e não temos mais. A promessa de crescimento social que não foi honrada. A casa que não comprei, o apartamento que fui obrigado a devolver. A viagem que adiei.

A escola que meu filho não escolheu.

As marcas que me conquistaram e eu fui obrigado a trair.

Desencanto, desapontamento, interrupção.

Esse é um quadro que nos mostra não somente uma fase regressiva. Um retorno aos projetos da classe média que acabaram não se realizando tais como foram vendidos e não puderam ser comprados por ela.

O que temos sentido nos múltiplos contatos, formais e informais, que temos com indivíduos desse enorme segmento social é um certo momento pedagógico em suas vidas. Algo que deixará raízes para os tempos melhores que, com certeza, virão.

Algo que já começou a acontecer quando o dinheiro sacado do FGTS ou do 13.o, ou mesmo da restituição do IR é usado para pagar dívidas e reduzir o passivo e não para, simplesmente, expandir o consumo.

O quão profundamente essa dolorosa pedagogia vai corrigir exageros de endividamentos, ainda não sabemos. Mas tenham certeza de que “de tudo fica um pouco”.

Aquela ideia ingênua e reacionária que pinta o brasileiro como incapaz de evoluir em seus hábitos não se sustenta. O “complexo de vira lata” não é uma condenação genética.

Durante muito tempo o consumidor tem se sentido traído pelo desejo. E sempre deu passos maiores do que as pernas.

Mas ouso afirmar que estamos no limiar de uma nova fase de amadurecimento. Não é nada comparável às atitudes de europeus que foram obrigados a revisar em suas vidas na forma de se relacionar com o uso e posse de bens após as guerras. Mas é algo da mesma natureza.

A sabedoria mineira me ensinou que tropicão também leva pra frente.

Tudo isso não significa que o desejo será substituído pela frieza de uma racionalidade matemática na escolha do que fazer, do que comprar, de onde investir os recursos dos orçamentos pessoais e domésticos.

Já houve época em que se disseminava a ideia da emergência de um consumidor racional. Isto acabou nunca acontecendo e nem acontecerá.

Somos uma complexa “equação” de múltiplos elementos, alguns que controlamos e muitos que nos controlam. O que nos move não será jamais uma planilha mental, mas algo que se parece muito mais com as cenas do filme “Divertidamente”.

Mesmo assim, a fase que estamos atravessando está ensinando a grande classe média a conhecer melhor como gerenciar emoções, desejos e possibilidades.

Diante desse cenário, marcas e empresas precisam olhar para si mesmas e refletir sobre o quanto estão preparadas para continuar o relacionamento, em bases renovadas, com os consumidores da fase pós-tropicão.

Eu resumo em três palavras a possibilidade que o relacionamento futuro seja promissor: sustentação, compromissos e transparência.

Em primeiro lugar, vamos enterrar de vez as histórias mal contadas, as promessas que produtos e serviços não capazes de, efetivamente, sustentar. Adeus à sedutora retórica que se esgota nela mesma.

Em segundo lugar, bem-vindas as marcas e empresas que obedecerem ao seu genuíno propósito.

Entendendo por propósito aquilo que é a intersecção de seus autênticos talentos e as necessidades da sociedade que eles são capazes de atender. Bem-vindas as marcas e empresas que abraçarem causas como fruto de verdadeira convicção e de forma alguma como uma atraente ferramenta mercadológica.

Em terceiro lugar, bem-vindas as empresas que comunicarem da porta da rua para fora o que é verdadeiro e internalizado por todos da porta da rua para dentro. Afinal, marcas não são tapumes que ocultam, mas espelhos que revelam.

Não acreditem em mim, acreditem no Drummond, “de tudo fica um pouco”.

Só espero que aquilo que ficar não seja, como diz o poema “o insuportável mau cheiro da memória”, mas sim um inestimável ensinamento que nos projetou para frente.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio



Não se trata de proteger a sonegação fiscal e sim de ajudar as empresas inadimplentes vítimas da recessão a se reequilibrarem, diante da falta de caixa e de crédito

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Está tudo tão confuso, tão degenerado, tão nojento que dá vontade de seguir a música que o cantor Silvio Brito interpreta tão bem: “para o mundo que eu quero descer...”

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A sociedade não tem um projeto para o dia seguinte. Parece que tudo se limita a Lava-Jato, às prisões e delações

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