Opinião

Crise política e recuperação da economia


A recuperação da atividade econômica dependerá crucialmente da recuperação da confiança do setor privado. Isso exigirá o abandono total da fracassada política econômica implementada desde 2011


  Por Ulisses Ruiz de Gamboa 04 de Março de 2016 às 20:27

  | Economista da ACSP e professor da FIA/USP e FIPE/USP; Doutor em Economia pela FEA/USP; Pós-Doutorando pela UCLA; ex-Consultor do Banco Mundial


O Otimismo na dificuldade reduz o mal à metade
                                                                     (Plauto)

Os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015, divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE), confirmaram que o país atravessa severa recessão, ao registrar queda da atividade econômica de quase 4%.

Essa recessão, que, segundo o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (CODACE) do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV), começou a partir do segundo trimestre de 2014, na visão majoritária dos analistas de mercado, se prolongaria durante 2016.

Além do comportamento adverso da renda, do emprego, do crédito e dos custos de produção, que provocaram apreciável declínio dos gastos e da oferta do setor privado, a crise é, antes de tudo, uma crise de confiança de consumidores e empresários.

Para alguns, inclusive, essa perda de confiança resulta de certo “mau humor” dos agentes econômicos, principalmente no caso dos empresários, cujos investimentos produtivos seriam determinados em grande parte pelos chamados “espíritos animais”.

Essa interpretação ciclotímica das flutuações da atividade econômica, sugerindo certa irracionalidade dos produtores privados, como se houvesse uma “chave” mágica para libertar esse “animal”, ou bem que suas mudanças de comportamento se devam a que “o animal está na muda”, distam bastante do comportamento real do empresariado.

O termo “animal spirits”, cuja tradução livre (e digna de legenda de cinema) para o português é “espíritos animais” foi alcunhada por primeira vez pelo célebre economista inglês John Maynard Keynes, durante a Grande Depressão.

A palavra “animal”, na verdade, vem de “anima”, que é alma em latim. Ou seja, esses “espíritos animais”, são na verdade “estados de ânimo” dos investidores, que é justamente o que os índices de confiança dos empresários tentam captar.

De 2014 para cá, as inconsistências da política econômica do governo Dilma Rousseff, o aumento do intervencionismo estatal e os diversos impasses políticos criados, ao aumentar o risco dos empreendimentos e reduzir a previsibilidade dos cenários futuros, geraram quedas recorde na confiança dos empresários, que, conjuntamente com os efeitos da Operação Lava Jato e os cortes de investimentos públicos explicam grande parte o “desmoronamento” histórico dos investimentos produtivos e em infraestrutura.

Do mesmo modo, a brutal queda na confiança dos consumidores, observada durante o mesmo período, não é fruto de um problema de “psicologia social”, mas, sim, da difícil situação enfrentada pelos lares brasileiros, que viram sua renda ser corroída pela inflação, passaram a dispor de menor quantidade de crédito, além de pagar cada vez mais caro pelos financiamentos, sentindo, ao mesmo tempo, menor segurança no emprego.

Isso reduziu a disposição a comprar, levando a uma contração do consumo das famílias em 2015, principal motor do crescimento do PIB durante os últimos onze anos.

Não pode ser descartada também, no caso das famílias, a influência negativa que a crise política exerce sobre o estado de ânimo dos consumidores, pois, nos últimos meses, pela primeira vez observou-se importante declínio na confiança das classes A e B, que, apesar de disporem de maior renda e mais acesso ao crédito, são também as mais informadas sobre a evolução dos conflitos políticos.

A recuperação da atividade econômica dependerá crucialmente da recuperação da confiança do setor privado, o que, por sua vez, exigirá, por um lado, o abandono total da fracassada política econômica implementada desde 2011, e, por outro, a capacidade de aglutinar um mínimo de apoio partidário para a aprovação de medidas econômicas que promovam o ajuste fiscal.