São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Contêiner e globalização
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Diante da impossibilidade de "desglobalizar" o comércio internacional, o contêiner é um dos responsáveis pelos 37 trilhões de dólares comercializados anualmente

Temos ouvido e lido tanto sobre globalização, e ainda há pessoas que se assustam com isso, e, pior, querendo acabar com ela, como se isso fosse possível. E debitando-lhe todos os males do mundo. Não é incomum satanizá-la e pedir amiúde o seu fim, ou seja, a “desglobalização”.

Gostaríamos de saber o que está ocorrendo com a inteligência das pessoas. Em nossa opinião, o mundo está aí para evoluir, e o ser humano tem a obrigação de acumular conhecimentos e avançar. E pensamentos assim nos levam a crer em involução.

Não entendemos como pode ser tão difícil a todos analisarem os fatos e verem que a globalização não é coisa nova, sempre existiu e esteve caminhando pari-passu com a humanidade.

A essas pessoas temos a dizer que esqueçam o assunto e a tratem naturalmente, como “andar”, pois é algo que nasceu com o homem e faz parte da sua existência.

A globalização não é nova e nem é moda, e tem esse mesmo perfil de andar, ou seja, todos nós já convivemos com ela desde o momento do nosso nascimento, já que ela é inerente ao ser humano.

Para quem nunca tinha pensado nisso, ou não tinha a consciência de sua existência, devemos dizer que o homem sempre fez globalização através do envio de mercadorias de um país a outro, remessa de divisas para um país estrangeiro, abertura ou compra de empresas em outro país, viagens internacionais, tráfico internacional de mão-de-obra escrava, invasões de países, visitas, mudanças, etc. etc.

O que são esses movimentos se não um processo de globalização, ou seja, integração mundial em todos os setores?

Para complementar, pensemos que Marco Polo, o conhecido mercador e explorador veneziano, já fazia globalização no fim do século XIII e início do XIV, ao levar o macarrão da China para a Itália, e muitas especiarias mais, ligando o mundo conhecido. O mesmo quando os romanos invadiram a Judéia há mais de 2.000 anos.

O mesmo ocorre quando um apreciador de whisky não precisa beber o nacional, mas pode adquirir um escocês, e assim por diante.

O que ocorreu foi que esse processo de um mundo “sem fronteiras” acabou sendo, nas décadas de 70 e 80 do século XX, externado claramente através da nomeação do processo, de muitos livros, e de muita consultoria vendida.

Portanto, ela continuou a mesma, tendo sido apenas tornada visível e de percepção por todos.

Mas porque isso ocorreu mais intensamente nas últimas décadas, levando à sua consciência, ou seja, a uma visibilidade total?

A responsabilidade direta - seguindo pela trilha de uma possível descrença do leitor, mas crendo que apenas à primeira vista é que as coisas que a tornaram passíveis de grande expansão e rápida visibilidade - pode ser dividida em três pernas.

Os desenvolvimentos da tecnologia da informação e o da comunicação e, mais importante, por um equipamento de transporte chamado contêiner, equipamento usual em nossas vias públicas. Que então permitiu o desenvolvimento das duas citadas, já que o mundo é econômico, e esta área é quem comanda o planeta, infelizmente.

Abordaremos apenas o contêiner, por absoluta inutilidade de se falar das outras duas, por obviedades conhecidas por todos e por se constituírem em consequência desta.

Este foi criado em 1956, pelo caminhoneiro e visionário Malcom McLean, falecido em 2001, que o colocou sobre um navio tanque, reformado e adaptado para tal, sendo lançado, em 1957, o primeiro navio full contêiner da história.

Em 1968 houve a fantástica padronização do equipamento, o que proporcionou a mesma coisa com navios, portos, equipamentos de movimentação, etc. Com isso, possibilitando multiplicar a capacidade de carga dos navios e a movimentação dessas cargas.

Hoje, pouco mais de meio século depois, o mundo movimenta cerca de 600 milhões de TEU – Twenty feet or equivalent unit (contêiner de/ou equivalente a 20 pés – 6,09 m).

Alguns poderão discordar. Porém, os exemplos estão ai para serem analisados. Nós próprios exportávamos um produto congelado há quatro décadas que, para embarque de 5.000 toneladas, em forma de carga solta, em caixas de papelão, necessitava de um navio inteiro, convencional, e um tempo de 7-8 dias para embarque. E isso com tudo correndo bem, sem chuvas, o que nem sempre era possível.

Esse produto, contêinerizado em 200 unidades de 40 pés (400 TEU), pode agora, com as marcas de produtividade atingidas pelos nossos principais terminais portuários, ser embarcado em apenas 1-2-3 horas contra as anteriores mínimas 180-200 horas, ou seja, dezenas de vezes mais rápido.

Se pensarmos nos atuais números mundiais de contêiners movimentados, bem como no volume de comércio exterior global, de cerca de 37 trilhões de dólares em 2013, poderemos, sem muito esforço, imaginar o quão o mundo estaria menos globalizado sem o contêiner e com as cargas transportadas apenas de forma solta.

Para entendimento da importância do contêiner, basta ver a evolução do comércio global. Em 1950, a corrente de comércio foi de 117 bilhões de dólares norte-americanos. Em 1960 foram 235 bilhões, atingindo 614 bilhões em 1970 e 3,9 trilhões em 1980 após a padronização do contêiner.

Em 1990, o comércio atingiu 6,9 trilhões, em 2000 chegou a 13 trilhões e 2013 com fantásticos 37 trilhões de dólares, 50% do PIB – produto interno bruto mundial.

Não seria possível hoje, com os velhos navios convencionais, realizar provavelmente mais do que uns 10-15% do comércio de hoje, o que significaria estarmos vivenciando o início dos anos 1980, apenas com calendário de 2015.

 



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