Opinião

Como se dá o comércio internacional


O funcionamento do comércio internacional é sutil, com custos invisíveis e também visíveis


  Por Paul Krugman 11 de Setembro de 2015 às 09:59

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Em artigo recente da New York Times Magazine, Adam Davidson discorre sobre as práticas comerciais documentadas nos arquivos encontrados em Kanesh, um sítio arqueológico da Turquia moderna, e diz que o volume de comércio entre Kanesh e seus vários parceiros comerciais parece caber em uma "equação de gravidade": o comércio entre suas economias regionais é aproximadamente proporcional ao produto do seu produto interno bruto e está inversamente relacionado à distância. Ótimo. 

Contudo, o que a aplicação aparentemente universal da equação da gravidade nos diz? Em seu artigo (leia aqui) Davidson afirma que ela é uma indicação de que a política não pode fazer muita coisa na hora de dizer como o comércio deve funcionar. Não é o que eu diria, e não é também o que diz quem estudou de perto o assunto.

O que eu penso é o seguinte: imagine duas cidades com o mesmo PIB per capita (vamos admitir esse pressuposto por enquanto). As cidades farão comércio entre si se os residentes da Cidade A encontrarem as coisas de que necessitam sendo vendidas pelos moradores da cidade B, e vice-versa. 

Portanto, qual a possibilidade de que um morador da Cidade A encontre um morador da Cidade B que tenha algo que ele deseje? Se aplicarmos o que um dos meus velhos professores costumava chamar de "princípio da razão insignificante", um palpite inicial razoável seria o de que a probabilidade é proporcional ao número de vendedores em potencial — isto é, a população da Cidade B.

E quantos serão os compradores que desejam fazer uma aquisição? Novamente, aplicando o princípio da razão insignificante, um bom palpite é que esse número é proporcional ao número de compradores em potencial — isto é, a população da Cidade A. Portanto, mantendo-se iguais as demais coisas, é de se esperar que as exportações da Cidade B para a Cidade A sejam proporcionais ao produto de suas respectivas populações. 

Mas, e se o PIB per capita não for o mesmo? Podemos imaginar uma situação em que a população "de fato" aumentou, tanto no que diz respeito aos produtores quanto aos consumidores. Portanto, a atração agora é o produto dos PIBs.

Existe alguma coisa de surpreendente no fato de que essa relação funciona tão bem? Mais ou menos. Antes de 1980, a teoria tradicional do comércio rezava que os países deviam se especializar segundo fossem suas vantagens comparativas — por exemplo, a Inglaterra devia fabricar tecidos; Portugal, vinho.

Esses modelos mostram o quanto o comércio dos países deveria estar voltado para o que havia de semelhante, ou não, entre eles. Os exportadores de tecidos deveriam intensificar seu comércio com os exportadores de vinho e diminuir o comércio entre si. Na verdade, porém, não há sinal algum de um efeito desse tipo: mesmo os países aparentemente semelhantes fazem tanto comércio quanto a equação da gravidade diz que deveriam fazer. 

Há tempos os modelos de comércio calibrados lidam com essa realidade — de forma um tanto inadequada — recorrendo à "suposição de Armington", que parte simplesmente do princípio segundo o qual um mesmo bem de diferentes países é visto pelo consumidor como produto diferenciado — uma banana, por exemplo, não é apenas uma banana, é uma banana do Equador ou de Santa Lúcia, as quais são substitutos imperfeitos.

Uma nova teoria do comércio introduzida por nós e por outros na década de 1980 — ou, conforme alguns preferem, uma "velha nova teoria do comércio" — foi um pouco além disso ao acrescentar a concorrência monopolística e os retornos crescentes para explicar por que até mesmo países similares fazem produtos diferentes.

Há ainda um enigma no que diz respeito ao efeito da distância e das fronteiras, ambos os quais parecem maiores do que os custos concretos podem explicar. O trabalho prossegue. 

Tudo isso, em algum momento, aponta para a insignificância da política comercial? De modo algum. As mudanças na política comercial têm, é claro, efeitos óbvios sobre o volume de comércio dos países. O gráfico mostra o que aconteceu quando o México se abriu para o comércio, no fim dos anos 80, em comparação com o que aconteceu ao Canadá, que sempre esteve muito aberto o tempo todo — e que, a exemplo do México, faz comércio principalmente com os EUA.

Portanto, o que nos diz a gravidade? Que essa simples vantagem comparativa ricardiana está evidentemente incompleta; e que o funcionamento do comércio internacional é mais sutil, com custos invisíveis e também visíveis. Isso não é pouco, mas não é também nada muito preocupante. Os modelos de gravidade são muito úteis como parâmetros para avaliação de outros efeitos.   

LEIA AQUI A PÁGINA DE PAUL KRUGMAN NO THE NEW YORK TIMES [EM INGLÊS]:

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