São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Combatendo a seita da inflação
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A economia acadêmica, que ainda tem pretensões de ser um campo aberto de inquirição intelectual, parece estar profundamente infectada pela politização

Quando eu era jovem, empenhado em construir uma carreira em economia, vivia — ou achava que vivia— em um mundo em que as ideias e aqueles que as defendiam travavam um combate intelectual relativamente arejado. É claro que havia gente que se aferrava a seus preconceitos e, é claro, o estilo às vezes falava mais alto do que o conteúdo.

Mas eu acreditava que, de modo geral, as melhores ideias tendiam a prevalecer: se o seu modelo de fluxo comercial ou de flutuação da taxa de câmbio monitorasse melhor os dados do que o de outra pessoa, ou resolvesse quebra-cabeças que outros modelos não eram capazes de resolver, podia-se esperar que ele fosse adotado por muitos, se não pela maioria, dos pesquisadores nesse campo.

Isso ainda é verdade em muita coisa em economia. Contudo, nas áreas que mais importam, dada a situação do mundo, não é verdade de jeito nenhum.

As pessoas que disseram, em 2009, que o keynesianismo era bobagem e que a expansão monetária levaria inevitavelmente ao descontrole inflacionário, continuam a dizer exatamente a mesma coisa depois de seis anos de calmaria inflacionária e de evidências incontestáveis de que a austeridade afeta as economias precisamente da forma que os keynesianos disseram que afetaria.

E não estamos falando apenas de gente excêntrica sem credenciais. Estamos falando dos fundadores da Shadow Open Market Committee [instituição independente e crítica das políticas monetárias do Fed] e de ganhadores do Nobel.

É óbvio que esta não é uma história que diz respeito exclusivamente à economia. Há muita coisa envolvida aqui: da ciência climática à evolução da história pessoal de Bill O'Reilly [comentarista ultraconservador da FoxNews].

No entanto, há uma coisa nessa história que chama a atenção: a economia acadêmica, que ainda tem pretensões de ser um campo aberto de inquirição intelectual, parece estar profundamente infectada pela politização.

Diante disso, o que devemos fazer — isto é, eu e os economistas que pensam como eu?

Vejo três opções:

1. Continuar a escrever e a falar como se ainda houvesse um diálogo intelectual genuíno, na esperança de que os bons modos e a persistência tornem realidade o que é só pretensão. O problema dessa estratégia é que ela pode acabar legitimando trabalhos que não merecem respeito — e há ainda a tendência de permitir que o seu trabalho seja distorcido enquanto você tentar achar pontos em comum onde não há nenhum.

2. Apontar os equívocos, mas de forma branda e educada. Isso tem a virtude de ser um procedimento honesto, além de ser útil para quem for ler. Mas ninguém lerá.

3. Apontar os equívocos de um modo que desperte a atenção do leitor — ridicularizando onde for o caso, com irritação, e citando nomes. As pessoas vão ler, alguns se tornarão seus seguidores devotos e não faltarão também inimigos. Tudo isso, porém, não será capaz de uma coisa: mudar as mentalidades tacanhas.

Haveria uma razão para eu escolher a opção no. 3 que não fosse simplesmente pelo desejo de dizer a verdade e de me divertir ao mesmo tempo? Sim, porque não se trata de convencer Rick Santelli, da CNBC, ou o economista Allan Meltzer, de que estão errados, já que isso nunca vai acontecer.

Trata-se, antes, de impedir que outros embarquem na falsa equivalência entre os dois lados lados. Os adeptos da seita da inflação são irredutíveis, mas os repórteres e editores, que costumam publicar histórias sobre diferentes pontos de vista acerca da forma do planeta, às vezes podem ser dissuadidos se você mostrar a eles que estão dando crédito a charlatães. Isso, por sua vez, poderá fazer com que os termos da discussão se movam lentamente.

Acho que a história da seita da inflação é um ótimo exemplo. Sim, ainda haverá reportagens que tratarão os dois lados como se fossem equivalentes — mas de modo algum de maneira tão sistemática como no passado.

Quando Paul Singer [muito atento à hiperinflação dos preços dos imóveis na badalada região de Hamptons] se queixa da "krugmanização" da mídia — que teve o atrevimento de dizer que a inflação que ele e seus amigos insistiam em predizer nunca aconteceu — isso é sinal de que estamos chegando a algum lugar.

Ilustração: Chavez/CartoonArts International/The New York Times Syndicate /Tradução: A.G. Mendes

 



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