Opinião

Combatendo a seita da inflação


A economia acadêmica, que ainda tem pretensões de ser um campo aberto de inquirição intelectual, parece estar profundamente infectada pela politização


  Por Paul Krugman 05 de Março de 2015 às 00:00

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Quando eu era jovem, empenhado em construir uma carreira em economia, vivia — ou achava que vivia— em um mundo em que as ideias e aqueles que as defendiam travavam um combate intelectual relativamente arejado. É claro que havia gente que se aferrava a seus preconceitos e, é claro, o estilo às vezes falava mais alto do que o conteúdo.

Mas eu acreditava que, de modo geral, as melhores ideias tendiam a prevalecer: se o seu modelo de fluxo comercial ou de flutuação da taxa de câmbio monitorasse melhor os dados do que o de outra pessoa, ou resolvesse quebra-cabeças que outros modelos não eram capazes de resolver, podia-se esperar que ele fosse adotado por muitos, se não pela maioria, dos pesquisadores nesse campo.

Isso ainda é verdade em muita coisa em economia. Contudo, nas áreas que mais importam, dada a situação do mundo, não é verdade de jeito nenhum.

As pessoas que disseram, em 2009, que o keynesianismo era bobagem e que a expansão monetária levaria inevitavelmente ao descontrole inflacionário, continuam a dizer exatamente a mesma coisa depois de seis anos de calmaria inflacionária e de evidências incontestáveis de que a austeridade afeta as economias precisamente da forma que os keynesianos disseram que afetaria.

E não estamos falando apenas de gente excêntrica sem credenciais. Estamos falando dos fundadores da Shadow Open Market Committee [instituição independente e crítica das políticas monetárias do Fed] e de ganhadores do Nobel.

É óbvio que esta não é uma história que diz respeito exclusivamente à economia. Há muita coisa envolvida aqui: da ciência climática à evolução da história pessoal de Bill O'Reilly [comentarista ultraconservador da FoxNews].

No entanto, há uma coisa nessa história que chama a atenção: a economia acadêmica, que ainda tem pretensões de ser um campo aberto de inquirição intelectual, parece estar profundamente infectada pela politização.

Diante disso, o que devemos fazer — isto é, eu e os economistas que pensam como eu?

Vejo três opções:

1. Continuar a escrever e a falar como se ainda houvesse um diálogo intelectual genuíno, na esperança de que os bons modos e a persistência tornem realidade o que é só pretensão. O problema dessa estratégia é que ela pode acabar legitimando trabalhos que não merecem respeito — e há ainda a tendência de permitir que o seu trabalho seja distorcido enquanto você tentar achar pontos em comum onde não há nenhum.

2. Apontar os equívocos, mas de forma branda e educada. Isso tem a virtude de ser um procedimento honesto, além de ser útil para quem for ler. Mas ninguém lerá.

3. Apontar os equívocos de um modo que desperte a atenção do leitor — ridicularizando onde for o caso, com irritação, e citando nomes. As pessoas vão ler, alguns se tornarão seus seguidores devotos e não faltarão também inimigos. Tudo isso, porém, não será capaz de uma coisa: mudar as mentalidades tacanhas.

Haveria uma razão para eu escolher a opção no. 3 que não fosse simplesmente pelo desejo de dizer a verdade e de me divertir ao mesmo tempo? Sim, porque não se trata de convencer Rick Santelli, da CNBC, ou o economista Allan Meltzer, de que estão errados, já que isso nunca vai acontecer.

Trata-se, antes, de impedir que outros embarquem na falsa equivalência entre os dois lados lados. Os adeptos da seita da inflação são irredutíveis, mas os repórteres e editores, que costumam publicar histórias sobre diferentes pontos de vista acerca da forma do planeta, às vezes podem ser dissuadidos se você mostrar a eles que estão dando crédito a charlatães. Isso, por sua vez, poderá fazer com que os termos da discussão se movam lentamente.

Acho que a história da seita da inflação é um ótimo exemplo. Sim, ainda haverá reportagens que tratarão os dois lados como se fossem equivalentes — mas de modo algum de maneira tão sistemática como no passado.

Quando Paul Singer [muito atento à hiperinflação dos preços dos imóveis na badalada região de Hamptons] se queixa da "krugmanização" da mídia — que teve o atrevimento de dizer que a inflação que ele e seus amigos insistiam em predizer nunca aconteceu — isso é sinal de que estamos chegando a algum lugar.

Ilustração: Chavez/CartoonArts International/The New York Times Syndicate /Tradução: A.G. Mendes