Opinião

Atrelado ao euro


O recente crescimento da Espanha é reflexo, na verdade, de um certo alívio nas medidas de austeridade combinado com os efeitos morosos de uma desvalorização interna dolorosa


  Por Paul Krugman 05 de Janeiro de 2016 às 08:00

  | Economista americano, 62 anos, vencedor do Prêmio Nobel em 2008, é professor e autor de 21 livros (c)2015 The New York Times


Manchete recente da Bloomberg: “A Finlândia jamais deveria ter adotado o euro, diz o ministro de Relações Exteriores.” É verdade.

Até recentemente, a Espanha era o país onde a crise do euro estava mais bem representada ?uma nação que basicamente não fez nada de errado em relação às políticas que adotou, mas que foi dilacerada pelos formidáveis influxos de capital que posteriormente chegaram a um fim abrupto, deixando o país necessitado de uma desvalorização interna extremamente dispendiosa.

Recentemente, a economia da Espanha teve uma leve recuperação porque o país parou de impor medidas de austeridade mais severas e também porque a deflação relativa finalmente começou a produzir alguns resultados. Contudo, o preço pago por esse processo foi extremamente doloroso.

A Finlândia, porém, tem o tipo de problema com que os eurocéticos sempre se preocuparam: as exportações do país sofreram recentemente um impacto peculiar decorrente do colapso da Nokia e da demanda tímida dos produtos florestais.

A última vez que a Finlândia se deparou com esse tipo de abalo, por ocasião da derrocada da União Soviética, os finlandeses conseguiram levar a cabo uma recuperação vigorosa desvalorizando sua moeda. Desta vez, não havia tal opção.

Portanto, Timo Soini, ministro das Relações Exteriores, tem toda a razão: a Finlândia não deveria ter aderido à zona do euro. Infelizmente, deixá-la é muito mais difícil do que jamais ter tomado parte dela.

Desdém na Espanha

Ultimamente, os defensores da austeridade passaram a citar a Espanha como exemplo de história de sucesso. Na verdade, conforme eu mesmo e outros já argumentaram, o recente crescimento da Espanha é reflexo de um certo alívio nas medidas de austeridade combinado com os efeitos morosos de uma desvalorização interna dolorosa. (Os economistas David Rosnick e Mark Weisbrot, do Centro de Pesquisas Políticas e Econômicas, propuseram uma análise mais aprofundada da situação em um paper da autoria de ambos.(Leia aqui)

Além disso, se analisarmos os níveis, e não os quocientes de mudança, veremos que a situação ainda é terrível. E ? surpresa! ? os eleitores espanhóis não parecem entusiasmados com a situação: no dia 20 de dezembro, eles abandonaram os dois principais partidos do país, deixando a Espanha sem uma maioria no governo.

Não tenho a mínima ideia de qual será o desfecho disso. Aparentemente, toda estrutura possível para a formação de um novo governo é impossível, exceto na comparação com todos os demais.

O euro impõe de fato uma camisa de força não importa o que digam os eleitores. Contudo, aqueles observadores que se preparam para brindar a justificação da austeridade talvez devessem pôr o espumante de volta na geladeira.

TRADUÇÃO: A.G. MENDES

FOTO: Passageiros aguardam para embarcar em um ônibus no centro de Helsinki, Finlânda/ Ilvy Njiokiktjien para o The New York Times.