São Paulo, 21 de Janeiro de 2017

/ Opinião

As batatas de Putin
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Tratando-se de Rússia e Venezuela, o Brasil precisa despertar para a realidade de que a primeira voltou a ser uma ameaça à paz mundial e que a segunda é uma bomba armada na nossa fronteira norte

O alerta feito pelo Embaixador Rubens Barbosa no artigo “Base militar russa na Venezuela” (O Estado de São Paulo, 25 de outubro de 2016) merece cuidadosa atenção do governo e da sociedade.

Por si só, o título da matéria denota a gravidade do assunto e o seu texto, embasado em sólido conhecimento e experiência de quem representou o País nos mais importantes centros do poder mundial, aborda as providências que a diplomacia brasileira deve tomar para conter a ameaça.

Porém, paralelamente às medidas que vierem a tomar com profissionalismo e discrição, cumpre às autoridades preencherem a enorme lacuna de informação da população brasileira em relação às mudanças que estão ocorrendo no cenário mundial e regional, as quais afetam o interesse e a soberania nacionais e que haverão  de ser preservados segundo os marcos da democracia representativa vigente no País, ou seja, pela participação da sociedade através de seus representantes e instituições.

Parece, no entanto, que o Brasil, imerso numa crise sem precedentes, pensa o mundo como ele era antes dela, ou pior, ainda o enxerga pela visão vesga da diplomacia companheira do PT. Ledo e perigoso engano, pois como qualquer um sabe, o mundo gira e a fila anda.

Problema algum vai esperar resolvermos a nossa crise, para nos bater à porta com outra maior ainda.

Tratando-se de Rússia e Venezuela, o Brasil precisa despertar para a realidade de que a primeira voltou a ser uma ameaça à paz mundial e que a segunda é uma bomba armada na nossa fronteira norte. Juntando as duas, temos, talvez, o cenário de conflito externo mais plausível nas últimas décadas.

Por certo, os tempos são outros. A Rússia sob a autocracia de Putin não dispõe do poder da finada URSS. Nas principais capitais europeias ninguém mais tem os pesadelos com divisões soviéticas marchando sobre elas.

E há uma fila de países do Leste europeu esperando para se integrarem à União Europeia e se colocarem debaixo do guarda-chuva da OTAN.

Mudaram os tempos, mas cabe perguntar: até onde?  Putin é um homem perigoso, formado na melhor tradição da KGB. Pode não haver pesadelos soviéticos em Berlim, Paris ou Londres, mas os há, bem russos, em Tallinn, Riga e Vilna, capitais dos pequenos países bálticos com minorias russas, como há medo em Kiev, capital de um país impiedosamente dilacerado, a Ucrânia.

E os poloneses, por via das dúvidas, preparam-se para se defender sozinhos (mais uma vez), criando uma doutrina de guerra que mistura forças convencionais e irregulares. Existe então uma ameaça?

Quem está na linha de frente não tem dúvidas. A OTAN já realiza jogos de guerra no cenário de uma reincorporação russa dos Países Bálticos pelas armas e, desde abril de 2014, as forças norte-americanas na Europa fazem exercícios militares na Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria.

A ameaça é a Rússia de Putin, que desenvolveu uma doutrina de guerra híbrida que mistura tropas convencionais c especiais, combinando força militar, intimidação, desinformação e operações psicológicas, com grande sucesso (até agora) na Ucrânia.
E a ameaça russa é à Europa: direta à Oriental e indireta à Ocidental que, por inúmeras razões, está comprometida com a primeira.

Ampliando o cenário estratégico, o envolvimento da Rússia na guerra civil da Síria denota a vontade do Kremlin de aproveitar crises regionais para desafiar o Ocidente além da tradicional linha de atrito geopolítico da Europa.

Os bombardeios de aviação, em particular do comboio humanitário da ONU ao sudoeste de Alepo em setembro passado; a participação de forças terrestres nos combates aos rebeldes contrários a Assad; a reativação com novas capacidades operacionais da base naval em Tartus, no litoral norte da Síria; e agora o deslocamento para o Mediterrâneo de um grupo naval da Frota do Norte integrado pelo porta-aviões Kuznetzov, um cruzador pesado e navios de escolta, deixam bem clara a determinação russa em aplicar poder militar no Oriente Médio.

Faz sentido a estratégia de Putin. Sem condições de confrontar ou ameaçar diretamente os Estados Unidos e a Europa Ocidental, ele emprega força militar nas chamadas áreas periféricas, criando ou explorando crises que sirvam para minar o poder, o prestígio ou os interesses ocidentais, quem sabe, à espera de uma oportunidade, de um erro dos seus adversários ou melhor, de uma associação com o dragão chinês que vem ensaiando algo semelhante no Extremo-Oriente. Por enquanto, os problemas são periféricos, ainda que à custa de muitas vidas.

Isso é precisamente o que deve ser lembrado em Brasília. Estamos em uma periferia que cabe muito bem na nova geopolítica do Kremlin. A Venezuela, caso não resolva o impasse político em que vive e que se agrava a cada momento, escorrega perigosamente para uma guerra civil.

A vizinha Colômbia, incapaz de vencer a narcoguerrilha, com milhares de insurgentes armados controlando amplas áreas de seu território e prontos para se venderem a que interesse for, vem sendo alvo de seguidas hostilidades, por enquanto retóricas, de Caracas.

A suspensão dos vôos da companhia aérea colombiana Avianca sobre território da Venezuela depois de uma interceptação agressiva de um de seus aviões por uma aeronave militar daquele país pode indicar que algo está mudando.

Some-se a esse quadro a incógnita cubana. Quase mumificado, o regime comunista na ilha dos Castro, tendo perdido a muleta do embargo norte-americano e o patrocínio do Brasil de Lula e Dilma, investiu numa grande jogada de marketing político, patrocinando o duvidoso acordo de paz entre o governo colombiano e as Farc. E parece que falhou.       

Exercendo algum controle, ou no mínimo uma forte influência, sobre as forças armadas venezuelanas, sem dinheiro e cercado por crescente e não mais escamoteável  descontentamento popular, o que impede Cuba de fazer de novo o jogo de Moscou no estilo da boa e velha Guerra Fria? Um pouco de juízo, sem dúvida. O problema é que ninguém sabe quanto juízo têm os Castro diante do jogo que Putin joga muito bem com ditadores falidos e desesperados ao redor do mundo.

Diria Quincas Borba: ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas. O Brasil, que por estas plagas não pretende ser nem uma coisa e nem outra, tem é que mandar Putin plantar batatas.

E bem longe daqui!

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