Opinião

As perguntas da educação


O primeiro passo para melhorar a educação no Brasil é fazer perguntas básicas. Educar para que? Que educação? Por que não temos uma educação de qualidade no País?


  Por Sérgio Paulo Muniz Costa 09 de Julho de 2017 às 08:57

  | Historiador


A educação é investimento: social, econômico e político. Sem dúvida, o mais importante que uma sociedade deve fazer.

Em primeiro lugar, lembremo-nos que ao promovermos a educação dos filhos, de nós mesmos ou de uma comunidade, estamos aplicando recursos para alcançar melhor qualidade de vida, traduzida em autonomia, convivência e realização pessoal.

Em seguida, devemos ter em conta que a soma de todo esse investimento e seus dividendos resulta em capital humano, a verdadeira riqueza de uma nação, expressa em conhecimento, produtividade e inovação.

E, finalmente, havemos de reconhecer que é pela educação que as pessoas criam laços de identidade e de solidariedade que lhes permitem viver em uma sociedade politicamente organizada, o Estado nacional soberano, no âmbito do qual elas exercem seus direitos e deveres.

A educação é importante ao ponto de sugerir que, sozinha, é capaz de resolver os problemas crônicos do País. Um erro de boa fé, compartilhado pela maioria de nós. Antes de proclamá-la como tábua de salvação, há que se considerar as finalidades, as condicionantes e as dificuldades da educação no Brasil. Questões além dela mesma.

Afinal de contas, ditaduras e autoritarismos exibem índices educacionais notáveis. Regimes teocráticos continuam a manter populações inteiras presas ao atraso, à miséria e ao preconceito. E as cleptoplutocracias são hábeis em vender simulacros educacionais que mantêm na ignorância o povo que dominam pela corrupção.

Portanto, o primeiro passo para melhorar a educação no Brasil é fazer perguntas básicas. Educar para que? Que educação? Por que não temos uma educação de qualidade no País? Responde-las enseja um amplo debate, para o qual se deseja contribuir com as seguintes considerações:

1a) O Brasil precisa de uma educação que promova o seu desenvolvimento integral, entendido como social, econômico e político. Estamos estagnados há décadas e cada vez mais dissociados do mundo desenvolvido. Nossa atividade econômica é mais e mais dependente de bens e produtos com pouca intensidade de conhecimento e tecnologia.

A desindustrialização se amplia de diversas formas. E assim se consolida uma relação duplamente perversa  entre capital e trabalho no País, com falta de mão de obra capacitada, por um lado, e emprego de baixa qualificação e renda, por outro, perenizando a pobreza, a desigualdade, a favelização e a violência.  

2a) O Brasil precisa de um sistema de educação universal, meritocrático e eficaz. Que alcance indistintamente toda a população em idade escolar nos níveis  fundamental e médio; que premie a dedicação e a capacidade de estudantes e professores; e que proporcione conhecimentos e habilidades em ciências, leitura e matemática em níveis[1] próximos aos dos países da OCDE[2], organização com a qual o Brasil negocia um Acordo Marco de Cooperação.

3a) É preciso enfrentar as enormes dificuldades para o Brasil implantar um sistema educacional que atenda às finalidades e condicionantes acima propostas. De uma forma esquemática, essas dificuldades podem ser resumidas na forma abaixo:

?Falta de valorização do conhecimento em nossa sociedade, historicamente vinculada ao bacharelismo e com pouca tradição científica.

?Ideologização do ensino, a partir da distorção do direito de sindicalização de trabalhadores pelos partidos de esquerda com o intuito de interferir nas políticas e nas práticas educacionais.

?Dissociação entre escola e mercado, tanto na oferta e demanda de mão-de-obra, quanto na produção de conhecimento científico-tecnológico para novos bens e serviços competitivos.

?Prevalência do assistencialismo em detrimento da educação, transformando muitas escolas em meras distribuidoras de benefícios, sem  compromisso com o ensino-aprendizado.

A questão da educação no Brasil passa pelas perguntas antes colocadas.  Cabe-nos, como brasileiros, responde-las. Sem boas respostas, continuaremos onde estamos.

Sem educação e sem perspectivas.

 

[1] Considerados os resultados compilados no documento “O Brasil no PISA 2015”, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), na sua 6a edição, de 2015.

[2] Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Com sede em Paris, França, reúne 33 países: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Islândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Noruega, Países Baixos, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça, Turquia, Alemanha, Espanha, Canadá, Estados Unidos, Japão, Finlândia, Austrália, Nova Zelândia, México, República Checa, Hungria, Polônia, Coréia do Sul, Eslováquia, Chile, Eslovênia e Israel.