Opinião

Angela Merkel, no deserto de estadistas


A chanceler alemã foi escolhida pela revista Time como a personalidade do ano em 2015


  Por João Batista Natali 10 de Dezembro de 2015 às 14:30

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Os simples governantes raciocinam de olho nos interesses imediatos do eleitorado ou do partido ao qual pertencem.  Estadistas já são bem mais raros e completos. Têm um olhar mais afiado na direção do futuro e não tratam apenas do que incomoda dentro de suas fronteiras.

A Alemanha do pós-Guerra produziu ao menos três grandes estadistas: o conservador Konrad Adenauer (1876-1967), chanceler do equilíbrio e da sensatez durante a Guerra Fria, o socialista Willy Brandt (1913-1992), prefeito de Berlim e a seguir chanceler federal, Nobel da Paz e arquiteto da distenção entre os dois blocos– o comunista e o capitalista - em que seu país se dividia.

E o terceiro nome é o de Angela Dorothea Merkel, 61 anos, chanceler desde 2005 e escolhida na quarta-feira (09/12) pela revista Time como a personalidade do ano de 2015.

Esses personagens da vida pública não são apenas o produto das circunstâncias históricas em que cresceram como governantes. São também políticos dispostos a sacrificar a popularidade em nome daquilo que acreditam, na espera de que sejam reconhecidos.

Merkel perdeu 20% de sua popularidade ao abrir as fronteiras da Alemanha para os refugiados sírios. Enfrentou e ainda enfrenta a islamofobia dos segmentos europeus mais conservadores.

Mas sabe que um país de 80 milhões de habitantes, com taxas de natalidade dramaticamente baixas, precisa de algum modo repor sua população. Sob o risco de perder espaço, dentro de meio século, para os emergentes asiáticos superpopulosos que gravitam em torno da China..

Os sírios que se refugiam hoje na Alemanha Federal – serão 700 mil apenas neste ano – se integrarão portanto à população local, segundo uma receita de mistura étnica que modifica o perfil cultural e impõe o aprendizado de um novo tipo de tolerância.

De certo modo, Berlim procura realizar um projeto “plural” de sociedade que a França tentou e não conseguiu ao final dos anos 1990.

A chanceler tem também entre seus ativos a questão da Grécia. Foi o bastante dura para não abrir um precedente que desequilibraria as economias da União Europeia.

Atenas precisou se enquadrar à ortodoxia do equilíbrio fiscal. Mas, ao mesmo tempo, impediu que o governo de esquerda abandonasse a Zona do Euro e passasse a operar como território de refúgio e resistência à construção de um projeto de integração acelerado com o Tratado de Maastricht (1992), que levou a Europa, de um patamar simplesmente comercial, ao de bloco plenamente integrado.

Já seriam razões suficientes para que a chanceler alemã se sobressaísse ao lado do peso econômico do país que governa. A revista Time tem razões de sobra para sua escolha.

Mas outra questão estaria na constatação dos amplos desertos de verdadeiros estadistas em outras regiões do mundo ao qual Merkel pertence.

Na América Latina, por exemplo, há no último meio século o exemplo raro de José Figueres (1906-1990), por cinco vezes presidente da Costa Rica, que suprimiu as Forças Armadas para que os militares não substituíssem a sociedade no protagonismo político. E que atuou na pacificação das guerras civis da Nicaragua e El Salvador.

“Don Pepe Figueres”, como era conhecido, construiu um país com desigualdades sociais tão pequenas quanto o Uruguai, e tinha uma característica em falta no mercado de ideias do Continente. É o horror ao confronto e a predisposição permanente ao diálogo.

É, a meu ver, o que faltou à Venezuela de Chávez ou à Argentina de Peron a Nestor Kirchner. E que, em sentido oposto, ainda recentemente se esboçou - mas apenas se esboçou - no Uruguai de José Mujica.

O Brasil é um país pobre em estadistas. Getúlio Vargas patrocinou a aceleração da industrialização, mas traz na biografia a mancha da ditadura do Estado Novo.

Fernando Henrique Cardoso foi maior que seu partido ou que seu governo. Mas sua liderança regional perdeu fôlego, justamente pelo modelo político precário que não teve energias para reformar.

É provável que Juscelino Kubitschek (1902-1976) tenha sido o grande estadista brasileiro da contemporaneidade.

A construção de Brasília e a indústria automobilística são detalhes (não desprezíveis) diante de uma concepção da política que o levou a dialogar com lideranças e partidos em litígio, sabendo que, assim, dialogaria também com a sociedade.

E com isso evitou o confronto num país potenciamente dividido pela Guerra Fria importada e por aquela produzida aqui dentro.

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