São Paulo, 21 de Janeiro de 2017

/ Opinião

Aliança estratégica
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Se não deixarmos nossa miopia política de lado e afastarmos nossos preconceitos de classe, não vamos prosperar numa aliança estratégica e soberana sobre o baixo clero da política

O Brasil chegou na hora da verdade. O Brasil Real cobra do Brasil Oficial, como diz um amigo jornalista, medidas efetivas para o combate à corrupção da classe política e dos agentes públicos.

Pois, como afirma com toda razão o deputado federal Nelson Marchezan Jr, eleito prefeito de Porto Alegre, a corrupção se disseminou em toda a Administração Pública.

E quem pagou a conta até agora, sob a forma de quebradeira de empresas, desemprego em massa da classe trabalhadora, inadimplência dos consumidores e recessão da economia, foi a sociedade, o Brasil Real de cidadãos pagadores de impostos.

Chegou a hora de o Brasil Oficial, de parte dos políticos e de agentes públicos, dar também a sua contribuição. E perceber, enfim, que questões como supersalários, superpensões, mordomias e privilégios de toda sorte não tem mais lugar no Brasil Real.

Sob pena de mais crise e tensão social, quando todos perdem, como vemos agora na recessão econômica. Contribuição que deve ser exigida, sobretudo das altas cúpulas da República, que, ao invés de perderem tempo e compostura com desvios de função, advogando causas privadas, devem se ater a tocar as reformas amargas e necessárias cortando na própria carne, reduzindo vencimentos e privilégios, estancando demandas corporativistas e cumprindo as exigências, para além da própria legalidade, da moralidade e eficiência como princípios basilares da República.

Convocar uma coletiva de imprensa numa manhã de domingo para que os chefes de dois poderes da República comuniquem que se comprometeram em não compactuar com tentativas de desvirtuamento das leis de combate à corrupção é no mínimo sintoma de perda de senso crítico e do ridículo da situação.

Tanto que o próprio presidente comete o ato falho de participar que “acordaram um ajustamento entre os poderes”. Quando deveria saber, como jurisconsulto que é, que “o termo de ajustamento”, como instituto do Ministério Público, é medida de recondução de infratores à conduta perdida de legalidade e moralidade. E o que adiantou o esdrúxulo comunicado?

Não permitiram que passasse o dispositivo da anistia de crimes eleitorais, mas fizeram conchavo e vista grossa para outros tantos dispositivos que acabaram por desfigurar as medidas de combate efetivo da corrupção.

O fato é que não bastam mais tais pronunciamentos oficiais para uma cidadania impaciente que clama nas ruas pelo urgente resgate da moralidade pública. É urgente a efetiva conduta ilibada e não o negaceio de que o episódio da “mediação de conflitos ministeriais” não se tratava de arbitrar tráfico de influência e advocacia privada nos mais altos escalões da República.

Ocupar o governo de coletivas, e a manhã de descanso de domingo dos cidadãos e cidadãs de bem, para se defenderem de acusações tão vis não é sequer conduta moralmente aceitável neste momento de crise profunda do país. É por isso que a cidadania voltará às ruas no próximo domingo (04/11). Não às milícias de arruaceiros liberadas para depredação de bens públicos e privados por um comando policial omisso e cúmplice “do quanto pior, melhor”, como fizeram nesta semana em Brasília.

Mas a parte maior da cidadania pacífica que não quer ser tratada de idiota pela canalha política. Que está farta de saber como as coisas caminham nos bastidores da política, independente de gravações clandestinas e atos falhos inconfessáveis!

Ato contínuo da iminente delação da Odebrecht , teremos o primeiro e claro recorte da classe política nacional. Poderemos, enfim, separar o joio do trigo para vislumbrar 2018.

Mas teremos de enfrentar uma pauta substantiva num verdadeiro clima de guerrilha, tendo de um lado a canalha política e seus agentes públicos infiltrados na máquina do Estado, suportado pela canalha empresarial que mama na teta dos governantes e suas estatais obsoletas e geradoras de déficits sem fim.

E de outro, a maior parte da cidadania vítima da quebradeira do país, milhões de desempregados, inadimplentes de crédito, pequenos e médios empresários e profissionais liberais levados à míngua.

No meio, como sempre alerto, teremos parte dos operadores do Poder Judiciário que aceitarão sacrificar seus privilégios corporativistas para não perder suas prerrogativas de função, ou ceder os anéis para não perder os dedos.

O divisor de águas ficará cada dia mais claro: servidores públicos com vocação de servir ao público que lhe paga os salários darão com certeza a sua contribuição exigindo o cumprimento legal do limite de vencimentos.

Empresários bem intencionados, que são a grande maioria em todos os setores econômicos, mostrarão que não precisam da traficância de influência junto a políticos e agentes públicos e poderão abrir mão de buscar competitividade em isenções tributárias e elisões fiscais, como parte de sua contribuição para o reerguimento do país.

Profissionais liberais poderão promover a plena cidadania política, com o pacto do controle social, cooperando com a capacitação dos cidadãos comuns para o exercício de fiscalização dos mandatos, da cobrança de desempenho das instituições do Estado e do monitoramento orçamentário das políticas públicas implementadas.

Pois não há como criminalizar os privilégios dos agentes públicos sem uma aliança de parte deles, que não se aproveitam destes mesmos privilégios, com a parte do empresariado responsável que não os corrompe, além da minoria dos mandatários de bem! Por isso, persisto: temos de mostrar suas caras, as caras dos que assumem compromissos morais do Brasil Real, da igualdade da lei que vale para todos, e comprometê-los com a opinião pública!

E o primeiro passo é fazer a chamada para reuni-los num espaço público, mesmo que virtual! Onde tudo começa com uma pequena lista de cidadãos e cidadãs que querem efetivamente se compromissar com a causa pública.

Como se sabe, um pequeno grupo de "12 apóstolos", mesmo que traga um Judas entre eles, pode ser o primeiro passo para a conquista de milhões de cristãos naquele império que se pensava perdido pela dissipação moral.  

O alerta dado pelo deputado Marchezan na comissão especial de medidas contra a corrupção é mais do que oportuno. Chegou a hora do Brasil enfrentar a sua verdade ou todos, sem exceção, serão inapelavelmente atingidos pela crise social que sempre sucede a crise econômica, sucedida por sua vez pela crise política e moral que são os verdadeiros gargalos do país.

Se a mídia de massa nos intoxica com “a rotina de escândalos”, e nos leva a crer que o país não tem jeito, mais do que nunca urge apelar para o verdadeiro jornalismo cívico da mídia impressa para aglutinar os cidadãos responsáveis em torno de uma aliança estratégica para o resgate da República. E eles existem, como temos demonstrado através do programa de Agentes de Cidadania.

Vão para a rua aos milhões de tempos e tempos, mas não sabem de fato usar o poder transformador de sua soberania, pois no dia seguinte a máquina de moer consciências “da rotina de escândalos” volta a frequentar diuturnamente o espaço público do noticiário televisivo e do judiciário omissivo. Estes que são os maiores males do Brasil.

E só serão enfrentados com uma aliança estratégica dos quatro segmentos da vida social pública e privada que podem efetivamente acuar a canalha política e apoiar para que a parte do bem tenha a força para fazer prevalecer a pauta legislativa das reformas de real interesse público: pelo setor privado, as lideranças do empresariado independente e responsável, daqueles que não dependem de benefícios do poder público, e dos profissionais liberais que detêm o conhecimento dos métodos de mudança.

Da parte do setor público, os que representam a verdadeira missão do Estado, para além dos governos: os profissionais de carreira do Judiciário e das instituições de controle e segurança.

Como diz o jornalista Fernão Lara Mesquita em seu último artigo: “Os verdadeiros servidores que já entenderam que só poderão voltar a receber o que merecem em paz se todos receberem apenas o que merecem.”

Fora esta aliança estratégica, suprapartidária e cívico-política, permaneceremos na iminência do caos, dançando na beira do abismo, flertando com a catástrofe. Pois todos somos responsáveis pela parte pior da sociedade que mandamos para Brastilha.

Se não deixarmos nossa miopia política de lado e afastarmos nossos preconceitos de classe, não vamos prosperar numa aliança estratégica e soberana sobre o baixo clero da política.

Que emerjam da zona de conforto da omissão privada as verdadeiras elites de cidadãos e cidadãs mais conscientes e atuantes. Agentes de cidadania públicos e privados que devem mostrar a cara nos espaços públicos. Sejam empresários que devem largar o preconceito da generalização de que servidores públicos são todos nababos barnabés.

Assim como os verdadeiros servidores públicos têm de largar sua visão de que empresários são todos gananciosos e imediatistas. Fora desta aliança não há esperança.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 



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