São Paulo, 11 de Dezembro de 2016

/ Opinião

Alan Greenspan, o alarmista
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Ele faz terrorismo com a inflação e com a dívida, o que torna ainda mais árduo o trabalho do seu sucessor, que já é difícil

Quando Alan Greenspan deixou o Federal Reserve, em 2006, ele era praticamente um deus para a imprensa financeira e, lamento dizer, também para muitos economistas. Desde então, é claro, a reputação do ex-presidente do Fed se deteriorou bastante. Pouco importa se você culpa, ou não, a política do Fed pela bolha imobiliária (não deveria), Greenspan negou a existência da bolha — embora ela estivesse crescendo —, ao mesmo tempo que fazia o que estava ao seu alcance para impedir todo e qualquer esforço de endurecimento da regulação financeira.

Porém, é seu histórico desde que deixou o cargo que é realmente notável. Ele faz terrorismo com a inflação e com a dívida, o que torna ainda mais árduo o trabalho do seu sucessor, que já é difícil. São célebres suas queixas dos mercados ingratos que insistem em não produzir as crises que ele prevê.Depois de um breve momento de dúvida acerca da sabedoria dos mercados financeiros, Greenspan voltou a denunciar a regulação, proclamando ao mesmo tempo que os mercados sabem das coisas, "embora haja exceções evidentes".

Chegou recentemente à caixa de entrada do meu e-mail um aviso de que no momento em que o Fed fizer sua reunião anual em Jackson Hole, Wyoming, mais para o final deste ano, Greenspan fará uma palestra de oposição organizada por um grupo chamado American Principles Project. Essa organização combina conservadorismo social  — é contra o casamento gay, contra o direito ao aborto e favorável à "liberdade religiosa" — com um receituário econômico que idolatra o ouro.

 BATEUP; Australia/CartoonArts International/The New York Times Syndicate

A segunda parte da agenda do grupo talvez agrade a Greenspan, que já foi íntimo de Ayn Rand. Como disse certa vez o falecido economista Paul Samuelson: "Você pode tirar o sujeito da seita, mas não pode tirar a seita do sujeito." Mas e a parte contrária aos gays? E quanto a ajudar esse pessoal a atacar seus antigos colegas do Fed? É impressionante.    

OS INFLACIONISTAS

Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve, acertou recentemente um golpe bem dado na página do editorial do Wall Street Journal: ""É generoso da parte dos articulistas do WSJ notar, conforme o fizeram, que 'o prognóstico econômico não é fácil'", disse ele em seu blog na página do Brookings Institution. "Eles devem estar falando por experiência própria, uma vez que o jornal vem prevendo um surto inflacionário e o colapso do dólar pelo menos desde 2006, quando o FOMC (Comissão Federal do Mercado Aberto) decidiu não elevar a taxa básica acima de 5-1/4 por cento."

Não demorou praticamente nada para que a carreira de blogueiro de Bernanke começasse a se parecer muito com a de econobloggers como Brad Delong — e outros que talvez nos venham à mente!

É claro que Bernanke tem razão: o Wall Street Journal erra sistematicamente quando fala de inflação, e erra sistematicamente também quando fala de taxas de juros. Há muito tempo que o jornal espalha um tipo específico de história de terror — cuidado com a dívida! Eles vão imprimir mais dinheiro! Zimbábue! — totalmente equivocada, mas jamais revisada.

O mais interessante é que o WSJ  está longe de ser o único a espalhar essa história — também é o que se vê o tempo todo nos programas de tevê sobre finanças e em diversas publicações da área. Depois de todos esses anos, ainda existem consumidores ávidos por prognósticos totalmente furados.

É preciso parar de fingir que essa história pode ser justificada por algum argumento racional. Existe alguma coisa de paranoico na inflação que repercute diretamente no id de certas pessoas — principalmente, tudo leva a crer, em homens ranzinzas de idade avançada (seria bom, entretanto, ter evidências sólidas da faixa etária mais especificamente suscetível a paranoias).

Para essas pessoas, o Wall Street Journal é onde se deve procurar a verdade, pouco importa o quanto isso venha a lhes custar.



Está sendo um ano atípico, em que a sucessão de acontecimentos políticos, econômicos e sociais mantém a sociedade em suspense permanente, com a incerteza provocada pelos fatos e das perspectivas deles decorrentes

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Contrasta com a ausência do Estado sua vocação intervencionista na economia e no cotidiano das pessoas

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Somente a perseverança no ajuste fiscal e uma redução menos tímida dos juros serão capazes de contribuir para uma recuperação da atividade

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