São Paulo, 28 de Setembro de 2016

/ Brasil

"Ainda carrego várias favelas na alma"
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A republicação deste artigo é uma homenagem do Diário do Comércio ao repórter Marco Roza, que morreu no dia 25 de abril, em consequência de um edema pulmonar

Ao longo de seus 60 anos de vida, o carioca criado em Minas e radicado em São Paulo Marco Antônio Rosa -ou Marco Roza, como assinava seus trabalhos- deixou uma marca indelével de competência e disciplina profissional.

Era também um doce, acolhedor e generoso ser humano, sempre entusiasmado e brincalhão nos encontros com os amigos.

Era, acima de tudo, um repórter excepcional e destemido, que viveu em uma favela para retratar a vida da comunidade, fingiu-se de mendigo em cadeira de roda no Viaduto Santa Efigênia e comprou arma dentro de uma delegacia de polícia. Tudo para transformar experiências em relatos inesquecíveis.

MARCO ROZA: UM REPÓRTER EXCEPCIONAL

A esses episódios, lembrados pela Folha de S.Paulo em necrológio publicado na edição deste domingo (08/05), muitos outros poderiam ser acrescentados. Antes de trabalhar como jornalista na Folha, Marco foi diagramador da extinta edição impressa deste Diário do Comércio.

Pulsava em Marco a veia da reportagem pré-internet, feita por aqueles que gastam solas de sapato para farejar uma boa história.

Quando realizamos, em meados do ano passado, o multimídia Os Negócios da Quebrada, lembrei-me imediatamente de convidá-lo a escrever sobre a experiência que viveu e que inspiraria, mais adiante, sua outra vertente profissional, de empreendedor bem-sucedido, fundador e presidente da agência Consumidor Popular.

Negro nascido em família de origem humilde, ninguém melhor do que Marco Roza para extrair da experiência uma vivíssima reportagem, lembrada por ele no texto a seguir.[Nelson Blecher/Superintendente Editorial do Diário do Comércio]

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Em 1991, como repórter da então “Folha da Tarde”, hoje o jornal “Agora”, do Grupo Folha, morei uma semana na favela de Vila Prudente, em São Paulo.

Não tínhamos Data Favela, Data Popular ou algum interesse econômico no consumo das populações faveladas, que repetiam no cotidiano o que os Titãs cantam em “Miséria”: “Miséria é miséria em qualquer canto”. E era mesmo.

Na favela de Vila Prudente, o esgoto corria no que deveria ser a calçada das vielas de terra batida, poeira ou lama (dependendo da estação do ano).

As redes de água e de distribuição elétrica eram criação coletiva. Os canos de plástico preto e os fios entrelaçados cruzavam as vielas.

As redes de distribuição de água e luz eram uma amostra dos relacionamentos que ocorriam na favela com as trocas que se manifestavam nas idas e vindas de “empréstimos solidários” de porções de ovos, sal, arroz e feijão. Vinculações confirmadas nos botecos pelos papos à-toa esticados por doses generosas de pinga.

Favela na Barra Funda, em São Paulo, retratada em 1972....

Os únicos empreendedores visíveis eram os donos dos botecos e das banquinhas no meio das vielas (um balcão improvisado com tábua de construção) onde vendiam caldo de mocotó, acompanhado de farinha de mandioca, pimenta e cachaça.

Outros empreendedores lidavam com maconha e outras drogas ilícitas. Eram barra pesada e me revistaram no terceiro dia, para checar se eu era policial.

Acharam apenas uma carteira de identidade e uma Bíblia no meu embornal. Sugeriram que eu pagasse uma cerveja (que paguei), que desse uma tragada num charutão de maconha (que traguei) e me liberaram.

Os barracos, a maioria de madeira, tinham aqui e ali uma televisão colorida. Todos tinham rádios. Ninguém tinha telefone. A comunicação só era possível através de dois orelhões, que funcionavam a fichas, que os moradores compravam nos botecos, sem poder pendurar na caderneta.

Outro empreendimento visível era o Jogo de Bicho. E os coletores das apostas vinham aparentemente desarmados, recolhiam o dinheiro e saiam intocados.

23 ANOS DEPOIS

Hoje, aos 59 anos, ainda carrego várias favelas na alma. Mantenho amizades em várias comunidades, como gostam de ser chamadas, numa linguagem atual e politicamente correta.

Como acredito nos Titãs, apostei que a amostragem de suas vidas atuais, especialmente, no que diz respeito ao empreendedorismo, registrado na reportagem multimídia “Os negócios da quebrada”, do Diário do Comércio, poderia ser captada em qualquer favela. Acredito que “empreendedorismo popular é empreendedorismo popular em qualquer favela”.

Por isso, retomei contato com Lindalci Aparecida Santos, a Linda, e Otaviano Crispiniano da Rocha, o Tarzan, da Comunidade Alzira Franco (ou favela Capuava), em Santo André.

Encontrei outro mundo. Cada favelado, um celular. Cada casa, uma tevê ou duas. Não se vê mais sinais de esgoto a céu aberto. “Quase todo mundo já tem TV tela plana e tem uma vizinha que comprou uma tela plana de 50 polegadas”, diz Linda.

O computador ou laptop é lugar comum. “As crianças aqui já nascem com um chip nos dedinhos”, me diz Linda.

Em cada viela ou esquina há um comércio movimentado, que aceita ao lado da caderneta, cartão de débito e de crédito.

....e o projeto esportivo da academia Rattus, na favela da Brasilândia, em 2015

Os botecos disputam a clientela com perfumarias, pizzarias, mercearias, salão de beleza e lojas de  R$ 1, que é a moda mais recente.

Linda mora há 19 anos na rua Ferrari (nome escolhido pelos moradores) e é praticamente impossível estacionar um carro na sua rua.

Ocupada em toda a sua extensão por carros de todas as potências e de anos recentes. E logo abaixo de sua casa, uma esquina é transformada em ponto de eventos. “Ali tem ‘bagunça’ toda a semana e reúne umas 2 mil pessoas”, diz Linda.

É uma das poucas formas de lazer, fala Tarzan, que preside o time de futebol União do Morro, que é obrigado a jogar fora da comunidade.

“Todos os nossos espaços disponíveis foram tomados e, infelizmente, o poder público não atende nossos apelos para criar áreas permanentes de lazer”, afirma.

As ‘bagunças’ (como o pessoal chama os eventos musicais) são organizados por empreendedores profissionais.

O Bar do Cheiroso, o Bar da Cleia, o Bar do Coelho e outros contratam os conjuntos musicais, “tem que ser artista de primeira linha”, de dentro e de fora da comunidade. Durante a semana divulgam o evento através de carros de som. E atraem até 2 mil pessoas, que não pagam ingressos mas que aceitam consumir (“e como consomem”) uma bebida um pouco mais cara.

“Há muito tempo não temos conflitos”, diz Linda. Todos se divertem até a meia noite, uma da manhã e voltam para suas casas. Onde vão postar no Facebook e nas redes sociais as fotos que recolheram na ‘bagunça’.

A comunidade abriga, segundo Tarzan, 30 mil moradores, e diz que “40% são jovens e suas amizades são dali mesmo, o que os tornam clientes fiéis das festas promovidas pelos donos de bares da comunidade”.

Ao longo dos dias da semana, essa população concentrada num morro de 2 mil metros quadrados, abarcando os dois lados da Avenida dos Estados, nas proximidades do Polo Petroquímico de Capuava, circula com cartão de crédito e de débito em mãos na busca de frutas, verduras e mantimentos. “Encontramos tudo aqui dentro”, diz Linda.

Esses consumidores concentrados e conectados por amizades antigas e por celulares modernos têm ainda à disposição a boa e velha caderneta. “Eu ainda compro com a caderneta”, afirma Linda.

A renda desse pessoal que vem dos empregos com carteira assinada (como é o caso de Linda e dos seus três filhos) ou dos bicos que fazem em Santo André, Mauá e mesmo em São Paulo (na região de São Mateus, que fica próximo) estimula o empreendedorismo local.

“Aqui ninguém tem medo de abrir um negócio”, conta Linda. “Se não der certo, fecha e parte para outra ou para um emprego, se aparecer”, afirma. Afinal, diz, abrem a empresa num puxadinho da própria casa, sem pagar aluguel, impostos ou se preocupar com burocracia.

“O mais importante é a maquininha do cartão de crédito, que é pedida em nome da Pessoa Física”, explica Linda que é uma das principais lideranças da comunidade.

É por isso que na favela Capuava existem comércios do porte da padaria Alzira Franco, da doceria Bom Gosto e do já tradicional Salão do Jatobá. “E o que esse pessoal ganha, investe aqui mesmo, comprando outros barracos ou ampliando seus negócios”.

Mas existem algumas oportunidades de negócio ainda não atendidas pelos empreendedores. “Faltam dentistas, médicos, adegas e agências de viagem”, relata Linda.

Mas atenção. As oportunidades, explicam Linda e Tarzan, só vingam para quem é da comunidade ou profundamente vinculado com o pessoal local.

“Há onze anos, apareceu um casal de fora e comprou um restaurante. Tratava todo mundo com nariz em pé. Não aceitava caderneta. Não se integrou à comunidade. Os dois apareceram mortos dentro do próprio restaurante”, lembra Linda.

Não visitei a favela de Vila Prudente. Mas pelo que vi de fora, no meu caminho rumo a Santo André, pela Avenida dos Estados, a miséria de 1991, foi substituída pelos mesmos avanços e conquistas que a favela Capuava vive hoje, com seus celulares e carros, comércio ativo e pela euforia empreendedora de seus moradores.

Afinal, “empreendedorismo popular é empreendedorismo popular em qualquer favela”.

 



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    Marco Roza
    Jornalista e diretor da Agência Consumidor Popular. Trabalhou na Folha de S. Paulo e no Central Office of Information, do governo inglês, em Londres