São Paulo, 03 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A reforma que falta
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"Mais do que uma reforma política, o Brasil precisa de uma reforma moral"

A História não se repete, não tem leis e não se prevê. Querer juntar peças do quebra-cabeças da atualidade segundo uma pintura do passado é um erro comum de quem pretende usar a História como justificativa para seus desejos de poder.

No caleidoscópio de fatos, acontecimentos e personagens de qualquer história tudo que poderemos encontrar de comum é o homem, na sua imprevisibilidade, na sua adaptabilidade e, por que não reconhecer, na sua genialidade.

Distinto de cada um de todos os outros homens, esse sujeito e ator da História se afirma na coletividade em que vive, na qual deixa suas marcas, não só pela memória, mas também pelo rumo que lhe imprime por meio de suas ações.

Ações que ele empreende na busca incessante de reconhecimento pelos seus semelhantes. Todos nós, homens e mulheres, desejamos nos ver reconhecidos nas várias expressões de nossa existência, como mãe, marido, filho, esposa, pai ou filha, e assim por diante, também fora da esfera familiar.

Numa sociedade moderna, podemos buscar reconhecimento em inúmeras coletividades: desportivas, familiares, acadêmicas, profissionais, associativas, artísticas, conforme nossos laços, interesses e talentos, mas existe uma à qual dificilmente podemos nos eximir, aquela que nos impõe maiores direitos e deveres, aquela que nos concede existência legal e exige de nós indiscutível obediência, que é a sociedade politicamente organizada na forma do Estado.

Ao longo da História, a busca de reconhecimento no âmbito dessa coletividade política variou da democracia grega, que não admitia a não participação de seus cidadãos nos negócios públicos, ao estado totalitário do século XX, que desejava um homem amorfo, insensível e acrítico personificando o seu cidadão ideal. 

E foi ao longo de um complicado processo histórico, a que não faltaram tragédias, que chegamos à conformação política da sociedade moderna, na qual se equilibram obrigações gerais inegociáveis com salvaguardas de consciência e liberdade reconhecidas pelo Estado. 

Daí decorrem mecanismos, práticas e instituições que fazem a democracia funcionar pela representação e soberania, sem as quais ela não seria viável, como partidos políticos, eleições, governo, Parlamento e justiça, só para citar os mais visíveis.

Mas à medida que se amplia e consolida o moderno Estado democrático no Ocidente, vai se evidenciando um paradoxo, do qual o Brasil parece ser um caso emblemático, que é a crescente disfunção de uma comunidade política que interfere cada vez mais na vida do cidadão, mas é cada vez menos acreditada por esse cidadão.

A reforma que está sendo encaminhada no Congresso Nacional parece ir ao encontro da necessidade de resgatar a credibilidade da classe política, sem o que a nossa democracia viverá em constante vulnerabilidade, presa fácil da corrupção e do arbítrio, como estamos assistindo.

Mas cabe perguntar: reformar para quê? Qual será a grande motivação da representação política, tanto para representantes quanto para representados?

Para a representação política continuar a ser comprada com o dinheiro público? Para a soberania popular continuar a ser vendida no voto-bolsa? E ao fim e ao cabo, as condições de vida se deteriorarem no País?

Felizmente, a Fenomenologia do Espírito, de Hegel, deixou de ser expressão de uma pretensa hegemonia marxista na interpretação da realidade política.

Pode-se objetar indefinidamente quanto à sua abrangência, tanto na versão de Fukuyama como na de Kojève, mas hoje ela se mostra útil para apontar essa lacuna incômoda na sociedade moderna que é a perda do desejo de reconhecimento pela virtude, um insumo essencial à vida social, e muito particularmente à política, a extensão cívica do social.

Sujeito e ator da História e da Política, o homem é o objeto de todas as melhorias que pretenda uma coletividade. Mas é preciso lembrar que, antes de conformarmos uma comunidade política, vivemos numa sociedade civil, cujo fim, conforme apontado por Aristóteles, é o viver bem, sendo ela menos uma sociedade de vida em comum do que uma sociedade de honra e virtude.

Mais do que uma reforma política, o Brasil precisa de uma reforma moral.

 



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