São Paulo, 27 de Março de 2017

/ Opinião

A quem interessa participar das manifestações?
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O que esperam os empresários, através de suas associações, para também integrar em massa o coro dos cidadãos pela saída da presidente recordista de números negativos não só na esfera econômica, mas também na social e na política?

Como todos já sabem, no próximo dia 13 /03, um domingo, os movimentos sociais articulados através da internet realizarão manifestações de rua por todo o país. 

Na pauta, o pedido de impeachment da presidente Dilma e o apoio ao juiz federal Sergio Moro e à operação Lava Jato.

Até o momento, os números apontam para o sucesso, com um grande alvoroço nas redes sociais. Uma das principais organizações dos eventos, o movimento Vem Pra Rua, divulga que 214 cidades confirmaram participação.

Até o dia 13 espera-se que muitas outras consigam se organizar e, quem sabe, até bater o recorde de 388 cidades onde houve manifestações no histórico 17 de junho de 2013.

Ainda assim, acreditamos que algo ainda está faltando para "acordar" completamente a sociedade e talvez seja uma certa falta de sincronia - ou consenso - sobre as razões pelas quais a destituição de um presidente da República deveria ser considerada uma saída urgente e necessária.

Trocando em miúdos, a quem interessa o impeachment?

Pelo lado do segmento conservador, e mesmo liberal, da sociedade (evidentemente, pois a parcela que se autoproclama "progressista" - a quem chamamos de "esquerdistas" - está do lado dos atuais ocupantes do Planalto), a pauta do impeachment se justifica por uma questão de valores morais que se acredita desvirtuados, manipulados ou focados em exagero pelo Estado tutelador, como direitos e deveres da família, as questões de gênero ou minorias, liberdades individuais, propriedade e outras.

À sociedade civil interessa, sim, apoiar o impeachment.

Mas o que propomos aqui é um exercício de reflexão sobre um segmento da sociedade que não vem se pronunciando em nenhuma das manifestações anteriores: o empresariado e suas entidades e organizações representativas. Afinal, por que apoiar essas manifestações?

O mais óbvio seria apontar a atual crise econômica - que pune não apenas os empregados, mas também os empreendedores - criada de forma inconteste pelo grupo há 13 anos no poder.

(Não custa lembrar que a maior parte dos cidadãos desempregados vem do setor do comércio, resultado direto de mais de 100 mil estabelecimentos comerciais fechados só no ano passado, segundo estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo.) 

Mas existe uma pauta extensa, que não vem de pouco mais de uma década e sim de muito mais tempo, e que também vem sendo solenemente ignorada - ou aviltada - pelos ditos esquerdistas no poder, como a excessiva e burra burocracia para abrir e se manter um negócio, por menor que seja (incluindo aí as perversidades das legislações regulatória, trabalhista e tributária), a mentalidade tuteladora do Estado leviatânico que obriga empreendedores a bizarrices como o uso exclusivo de saches de sal ou a obrigatoriedade de água potável gratuita em restaurantes. 

Isso para citar exemplos bem simples. O que deveria ser uma faculdade vira sujeição legal que revela a verdadeira visão do Estado em relação ao empresariado. Para a filosofia esquerdista em voga, o empregador é sempre um vilão medieval, disposto a vilipendiar o pobre empregado de todas as formas possíveis.

Uma representação indubitável da mais pura e anacrônica luta de classes, enquanto todas as cartilhas da administração moderna demonstram a relação simbiótica entre empreendedores e funcionários; um não consegue sucesso sem a dedicação do outro, e vice-versa.

Ao empresariado interessa, sim, apoiar o impeachment.

Pois então, o que esperam os empresários, através de suas associações, para também integrar em massa o coro dos cidadãos pela saída da presidente recordista de números negativos não só na esfera econômica, mas também na social e na política?

Na maioria dos casos, grandes empresas e associações vêm praticando simples marketing de reputação sob a alcunha de "responsabilidade social", quando na verdade deveriam fazer a sua parte em conscientizar e mobilizar os cidadãos para a verdadeira pauta da cidadania corporativa: a responsabilidade política que todo cidadão tem em fiscalizar mandatos, cobrar os governantes, monitorar a execução dos orçamentos públicos e acompanhar o desempenho das instituições públicas , sobretudo as de gestão e controle.

São programas de responsabilidade social de primeiro grau de cidadania, focados em solidariedade e assistência social.

Afinal de contas, construir e operar escolas, distribuir bolsas de estudos nacionais e internacionais, criar entidades voltadas à preservação ambiental ou à defesa de minorias desvalidas etc., são ações importantes, mas, convenhamos, absolutamente acessórias diante dos graves desafios de natureza moral, cívica e política que enfrentamos.

Alguns poucos começam individualmente a se posicionar, como o caso do principal executivo do tradicional Grupo Moura. 

Em sua conta nas redes sociais, ele disparou semana passada, em uma carta aberta endereçada à presidente: "O nosso imenso transatlântico verde e amarelo está à deriva. O seu comandante não consegue mais comandá-lo, a sua tripulação sabota as ordens do enfraquecido comandante, os piratas roubam-lhe os mantimentos e os passageiros por enquanto ficam apenas batendo panelas esperando que apareça no distante horizonte algum sinal de salvação. (...) O seu jogo já está perdido. Procrastiná-lo por mais três anos só aumentará o seu martírio e o sofrimento da nação”.

Palavras lúcidas de Paulo Sales, e acreditamos que as manifestações também tirarão da inércia uma grande parcela do empresariado que parece também estar esperando "algum sinal de salvação".

É preciso a união urgente de centenas de vozes conscientes e atuantes, e que estas alcancem a grande mídia para ecoar por toda a sociedade. 

Vozes capitaneadas não apenas pelo empresariado do bem, mas toda uma elite esclarecida (os melhores de nós, e não necessariamente os mais ricos, bem entendido) que não se deixa enganar por demagogias vazias e fadadas ao fracasso.

Esses Agentes de Cidadania estão por todo lado, até nas manifestações, e a eles deve ser patrocinado um foro virtual para discussão e apresentação via grande mídia de novas propostas para a sociedade. 

Propostas objetivas, lúcidas e factíveis, em qualquer que seja a área. Porque, via de regra, no espaço do nosso imaginário social, os cidadãos comuns não sabem que são cidadãos pagadores de impostos e, portanto, os verdadeiros patrões dos governantes e não apenas seus passivos eleitores de quatro em quatro anos.

E até já temos uma excelente proposta sobre a questão da prevenção e combate à corrupção, que nos foi oferecida pelo empresário Edson Calil em depoimento aqui para o nosso programa Agentes de Cidadania.

Ao falar desse tema, Edson sugere criação de câmaras de informação como forma de maior prevenção e combate a crimes, às quais ele chama de "câmaras de futuro": "É possível a construção de uma base de informações que podem ser convertidas em ferramentas de prevenção, e impedindo que aconteça qualquer tipo de delito. E isso só se consegue com a cooperação social".

Está chegando o momento de consenso entre sociedade, empresariado e políticos estadistas. A todos interessa, sim, o impeachment.

 

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio



Urge a criação de uma vara criminal voltada a julgar casos de danos ao patrimônio ou ao serviço (caso dos ônibus) públicos e uma cadeia que acolha imediatamente os presos em flagrante

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