São Paulo, 26 de Junho de 2017

/ Opinião

A presidência de cada um
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O problema não está no populismo. O problema está nas lideranças medíocres que enfeixaram o poder nos principais países do mundo na última década, inclusive no Brasil

Lá pensando com seus botões, às vésperas das eleições presidenciais, os americanos devem estar se perguntando como chegaram ao atual estado de coisas.

Afinal, “Hillary Clinton é a segunda mais impopular candidata à presidência já vista, depois de seu oponente Republicano, Donald Trump” (The Economist), o que dá a dimensão histórica do desarranjo na política dos Estados Unidos.

Uma análise desapaixonada revela de antemão que o problema não está nos candidatos em si, mas na política norte-americana, carente, há décadas, de lideranças críveis e competentes.

Por mais que Hillary Clinton tente ser ela mesma – o que também está longe de ser uma unanimidade - , a lembrança dos escândalos da administração de Bill Clinton e do seu polêmico papel nela nutrem profunda desconfiança de parte do eleitorado e dos políticos norte-americanos.

E  a despeito de Trump tentar vocalizar a insatisfação de um número crescente de americanos com os governos de Washington, a sua conduta pessoal e a sua falta de preparo colocam perspectivas sombrias a respeito de uma sua eventual presidência do país que detém as mais pesadas responsabilidades mundiais.    

Este é um problema exclusivo dos Estados Unidos? Dificilmente.

O início do século XXI não foi nada auspicioso em termos de lideranças políticas nos principais países do mundo.

Tivemos Tony Blair (1997-2007), George Bush (2001-2009), Berlusconi (2001-2006 e 2008-2011), Nicolas Sarkozy (2007-2012) e .... Lula (2003 -2010). Noves fora, tivemos uma guerra absurda e muito escândalo, corrupção, crise e recessão, para todos os gostos.  

Não há espaço aqui para uma história política comparada de países tão distintos, mas salta à vista, pelo mero registro histórico dos fatos e feitos, a diferença entre os principais dirigentes mundiais do início dos anos 2000 e os de uma geração anterior.

Ronald Reagan (1981-1989), Margaret Thatcher (1979-1990), Helmut Kohl (1982-1998) e Felipe Gonzalez (1982-1996) conduziram os seus países em meio a crises muito maiores, conseguindo reverter situações difíceis e obtendo êxitos consagradores.

Foram eles que construíram as condições para os grandes sucessos dos anos 90: o fim da Guerra Fria, a criação da União Europeia, a liberalização do comércio internacional, a inserção comercial e produtiva da China, a globalização que tirou milhões de pessoas da pobreza e os avanços na paz e estabilidade mundiais.

Muitos desses avanços estão em xeque hoje. Na Europa crescem as tensões com a Rússia, a Grã-Bretanha está deixando a União Europeia, o protecionismo mundial está em alta e há uma crescente preocupação no Mar do Sul da China por conta das pretensões de Pequim em desrespeito à recente decisão da Corte Permanente de Arbitragem do Tribunal Internacional de Haia.

Da incapacidade dos governos dos Estados Unidos e europeus em lidar com a questão da imigração não se salvou nem a chanceler alemã Angela Merkel, desde 2005 uma notável exceção em meio à mediocridade mundial.

Punida na última eleição pela maneira como administrou a questão dos imigrantes, seu futuro é incerto, o que levanta fundadas preocupações sobre a política alemã.

E Barack Obama vai terminando seu período no Salão Oval com os Estados Unidos ainda mais divididos racialmente, deixando um legado inexpressivo diante das grandes expectativas  geradas com a eleição em 2008 do primeiro presidente negro da história do país.

Mas tão ruim quanto a parvidade dos principais líderes mundiais é o reducionismo que faz do populismo o grande problema político do momento, uma explicação onde cabem Brexit, Marine Le Pen, Trump e Pegida, a agremiação de extrema-direita alemã.

Aliás, exatamente como fez Obama em discurso na ONU em 20 de setembro passado (“a crude populism”) e antes, em 29 de junho, durante a cúpula dos Líderes da América do  Norte em Ottawa,  invertendo o sentido do termo para atacar Trump.

Um pouco de lógica e bom senso diz algo diferente. Populismo, como se viu no tumultuado século XX, é um meio para alcançar e manter o poder, dificilmente a causa das crises. O que gera crise é falta de liderança diante do problema que se agrava. E não foram poucos os incompetentes e mal intencionados que apelaram ao populismo.

Além disso, é preciso distribuir mais carapuças. O populismo pode estar no poder, como experimentaram os brasileiros. E vale  lembrar que, tão populista quanto defender a construção de um muro na fronteira, é pregar a extensão indiscriminada de direitos em descompasso com a realidade econômica e social  do país e sem qualquer compromisso dos beneficiados.

Não, o problema não está no populismo. O problema está nas lideranças medíocres que enfeixaram o poder nos principais países do mundo na última década, inclusive no Brasil.

Graças a elas, problemas pré-existentes se agravaram de maneira exponencial, levando a um quadro de decadência e tensão, de todos matizes.

Cada país com seus problemas, a começar pela presidência, seja lá como se chame em cada qual.

Os americanos agora, nós em 2018.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio

 



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Somos contra o AR porque prejudica consumidores, famílias, empresas, além de ser sete vezes mais caro do que a carta simples.

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