São Paulo, 21 de Julho de 2017

/ Opinião

A pré-mentira
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Uma parte ponderável de lideranças, formadores de opinião e imprensa ocidentais olha para o próprio umbigo. Recusam-se a ver que há uma guerra em curso e a tomar as medidas para contê-la

O vento de mudanças que começou a soprar no ano que se encerrou coloca interrogações nessas primeiras semanas de 2017.

Como a nova administração na Casa Branca lidará com os temas críticos da geopolítica e da economia mundiais? Como a Europa enfrentará os desafios da migração e do terrorismo? Como se materializarão as ameaças ao Ocidente?

Por qualquer viés que se analise a presente conjuntura internacional, é evidente a escalada de tensões geopolíticas, econômicas e culturais com potencial de deflagrar guerras regionais que acabem se entrelaçando em um grande conflito mundial.

Apesar de os grandes acontecimentos em 2016 estarem carregados de História, parece que as principais lideranças internacionais se recusam a enxergar os movimentos que ameaçam a paz mundial, objetivo permanente dos eternos insatisfeitos de qualquer História.

Podemos estar vivendo o fim de um ciclo iniciado há cerca de quarenta anos. No final da década de setenta do século XX estavam consumados dois desastres sofridos pelos Estados Unidos que desestabilizaram o sistema interestatal em favor da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS): a tomada de Saigon pelas tropas norte-vietnamitas e a queda do regime do Xá no Irã.

Enquanto a diplomacia americana conseguia estabilizar a situação no Extremo-Oriente, o caos se instalava no Oriente Médio e o avanço comunista na América Central se aproximava do México, surgindo pela primeira vez a hipótese de centenas de milhares de  imigrantes ilegais atravessarem a fronteira que as autoridades norte-americanas não conseguiam e as mexicanas não queriam controlar.

A Europa se dobrava cada vez mais à vontade do Kremlin e com a posse de Ronald Reagan, oriundo de uma direita republicana tradicionalmente pouco paciente com os europeus, havia temores sobre o futuro da Aliança Atlântica.

O autor da análise, Raymond Aron, observador privilegiado dos acontecimentos internacionais, não se furtou a emitir sua opinião  sobre a gravidade da situação: “em nossa época, o que está em jogo na história universal é a sobrevivência das instituições livres” (Raymond Aron, “Os últimos Anos do Século”).

Felizmente, esse temor não se confirmou. A retórica ideológica de Reagan encontrou a sua política, e esse ciclo teve os seus  grandes momentos na globalização que promoveu a expansão do comércio, da democracia e dos direitos humanos ao redor do mundo.

Mas não faltaram altos e baixos. Dez anos depois da posse de Ronald Reagan (20/01/1981), a URSS implodiu e os Estados Unidos voltaram ao Golfo Pérsico na expectativa de estabilizar a região. Mais uma década se passaria para que o radicalismo islâmico reagisse e abalasse o mundo no 11 de setembro.

E foi preciso apenas mais outra década para abrir a Caixa de Pandora com a guerra civil na Síria; a enorme onda de migração para a Europa; e uma série de atentados terroristas sem precedentes contra o Ocidente.

É onde estamos agora, com algumas novidades, algumas nem tão novas assim. A Rússia voltou a ser uma ameaça à paz e a China não esconde seu projeto expansionista à custa dos vizinhos.

O Irã e a Coréia do Norte avançam nos seus projetos nucleares. A migração descontrolada deixou de ser uma hipótese e a temida revolta na Arábia Saudita se transformou no wahabismo, um movimento fundamentalista sunita bem estruturado e financiado que trava contra o Ocidente uma guerra de várias frentes.

Enquanto isso, uma parte ponderável de lideranças, formadores de opinião e imprensa ocidentais olha para o próprio umbigo. Recusam-se a ver que há uma guerra em curso e a tomar as medidas para contê-la.

Oscilam entre o esquerdismo ingênuo e as conveniências do politicamente correto. Não enfrentam os problemas, irritam a sociedade com a sua complacência e com isso oportunizam substitutivos fascistas, achando que sua tolerância com os agressores vai ter alguma contrapartida de boa vontade. É a versão pós-moderna do apaziguamento dos anos 30 que jogou o mundo na Segunda Guerra Mundial.

Mentem quando omitem, falseiam e calam.

Omitem a sua irresponsabilidade por promoverem uma revolução com o sangue dos outros contra regimes assassinos, a famigerada Primavera Árabe, filha dileta de Hillary Clinton. 

Falseiam, apresentando-se perversamente como liberais, como se fosse do credo liberal inibir a livre iniciativa e destruir empregos dos seus concidadãos em favor de uma superclasse transnacional sem qualquer compromisso político.

E calam sobre as verdadeiras intenções que estão por trás das massas de refugiados que são lançadas contra o seu alvo predileto, a Europa, acusada de tudo, desde o pecado de ser rica, plural e democrática até os afogamentos de migrantes no Mediterrâneo.

E o que os autoriza a agir dessa forma?

A pré-mentira de serem humanitários e progressistas. 

Não são, nunca foram e jamais defenderam as instituições livres que, mais uma vez, estão em risco.

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio



Alguns açodados analistas, não compreendendo as altas responsabilidades de presidir um órgão dessa magnitude, passou a cobrar de Paulo Rabello de Castro medidas autoritárias.

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