São Paulo, 26 de Junho de 2017

/ Opinião

A pergunta maior
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O maniqueísmo da esquerda condiciona o acatamento da lei à justiça social, como se pudesse haver um sem o outro, aliás, exatamente como o Brasil está descobrindo ser impossível de acontecer

A pesquisa sobre violência realizada pelo Data Folha para o 10o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) indicou como estamos longe de pensar de forma abrangente sobre temas de grande importância para a sociedade, como é a segurança pública.

A partir das estatísticas do levantamento, o editorial da Folha de S. Paulo (País amedrontado, 05/11/2016)  dedicou quase metade de seu espaço às polícias e o próprio FBSP, através de seu diretor-presidente, concluiu que “temos que pensar que polícia nós queremos”.

Mais uma vez, o foco da questão da violência foi totalmente deslocado para a polícia, presumindo-se que o aumento da sua eficiência, bem como “do sistema prisional, da atuação do Judiciário, das ações de cunho social e do controle de fronteiras” resultem em melhorias da dramática situação em que vive o Brasil.

Será? Tomemos uma citação para refletir melhor sobre o assunto.

“A polícia é o público e o público é a polícia; sendo a polícia apenas membros do público que são pagos para se dedicarem totalmente aos deveres que incumbem a cada cidadão no interesse do bem-estar e da existência da comunidade”

Longe de ser uma abstração ou um diletantismo estéril, esse pensamento, cunhado por Robert Peel (1788-1850), Primeiro-Ministro, Chanceler do Tesouro, Secretário para Assuntos Internos e tido por um dos criadores do moderno conceito de força policial do Reino Unido, remete-nos à outra metade da questão da segurança pública que permanece tão atual quanto há um século e meio: o público.

No Brasil de hoje, nosso público, nossa população, tem consciência de seus deveres que lhe incumbem no interesse do bem-estar e da existência da sua comunidade?

Por certo, não de parte de seus representantes políticos, alcançados pela Lei em toda sorte de falcatruas, nem de uma parcela da população que vive nos chamados aglomerados subnormais, as favelas, invasões e comunidades, onde se acumulam mais de 11 milhões de pessoas, metade delas na Região Sudeste, quase todas nas áreas metropolitanas do País, praticamente sem serviços públicos e sujeitas à lei do narcotráfico.

No meio, uma população não só amedrontada, mas exasperada – por sinal de cujos diversos extratos saem os integrantes das forças policiais – que manifesta apoio a soluções extralegais para coibir a violência que ameaça a todos, violência expressa em números que dispensam qualquer interpretação: 59.627 homicídios em 2014, fazendo do Brasil o campeão mundial de mortes violentas.

A esquerda que é tão célere em justapor o temor ao bandido ao medo da polícia, fazendo de tudo por igualá-los, deveria ser mais honesta intelectualmente e reconhecer que a polícia não pode ser isolada da população a que serve. Uma polícia perfeita para uma população infensa à lei é uma abstração que só cabe em campos de concentração.

Toda confiança substantiva é uma relação de dupla via, nesse caso, tanto da população na polícia quanto da polícia na população.

É por ela que se poderá esvaziar o “estranhamento” entre segmentos da população e a polícia, redundando em uma diminuição da violência no País. E a base sobre a qual haverá de prosperar essa relação só pode ser uma: o respeito à Lei.

É principalmente nesse campo que a esquerda se desqualifica para uma participação na coisa (a segurança) pública.

Seu maniqueísmo condiciona o acatamento da lei à justiça social, como se pudesse haver um sem o outro, aliás, exatamente como o Brasil está descobrindo ser impossível de acontecer. 

Ativíssima nas redações, produções culturais, universidades e no campo, a esquerda, no afrontamento à Lei, é simplesmente didática, e de uma eficácia que fez escola no Brasil, ao ponto de agora dela se apropriar, literalmente.

A reunião acontecida no Palácio do Itamaraty no último dia 28 de outubro, entre os chefes dos Poderes da República, ministros, comandantes das Forças Armadas, diretor da Polícia Federal e presidente do Conselho Federal  da OAB, pode ter sido o primeiro passo para enfrentar a crise da segurança pública no País. Mas para prosseguirmos haverá que se responder à pergunta maior.

Que sociedade nós queremos?

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As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio



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