São Paulo, 06 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A pátria deseducadora
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Dois episódios da semana passada nas dependências do Congresso exprimem um grau de tolerância patológica com a incivilidade

Quero hoje me referir a dois episódios ocorridos na semana passada, antes que sejam suplantados por outros que, certamente, como sempre, na rotina da vida brasileira, serão ainda piores no desvio de nossos valores.

O primeiro se refere a um sujeito –que não merece ser chamado de cidadão - vestido com a camiseta da Força Sindical, na votação de uma das Medidas Provisórias que Dilma jurou que não faria, por prejudicar todos os trabalhadores.

O indigitado militante, insatisfeito, de resto, como todos nós, com o comportamento de nosso Congresso Nacional, virou-se de costas, abaixou as calças e mostrou as nádegas feias e enrugadas, para o plenário e câmeras de televisão ali presentes.

Deixando de lado o grotesco, o mau gosto da atitude, o gesto revela o quanto existe de falta de educação e desrespeito à vida institucional do país.

O segundo se fez presente na pessoa de uma senhora tida como amante do doleiro Alberto Yussef, o delator inicial do “Petrolão”. Sendo inquirida na CPI da Petrobrás, ao ser perguntada qual sua relação com o doleiro preso, a indigitada pôs-se a cantar a música “Amada Amante”, de Roberto Carlos.
 
Cometeu ali um ato de desrespeito, como o do “bunda de fora” da Força Sindical, sob o teto do Poder Legislativo brasileiro, mostrando, além de tudo, ser desafinada, maltratando a bela canção.

Em países sérios, onde a democracia é liberdade, com direitos e obrigações, os dois agentes da esbórnia seriam, no mínimo, indiciados por desacato.
 
No Brasil do vale tudo, aonde o exemplo da mais profunda “pilantropia” vem dos altos escalões dos poderes da República, esse tipo de acinte, de afronta aos símbolos da instituição da República, são levados na leniência, na fraqueza, na desconversa.
 
A tolerância com as infrações de grau tido como menor é que leva aos grandes crimes de lesa-pátria que assistimos todos os dias.

Alguns ainda assistem estarrecidos. Outros, já acham, como querem a governanta, seu partido e asseclas adjacentes, que seja tudo normal, concedido, condescendente.

Enquanto o sentido de pátria afunda.

Até se poderia alegar que de fato se trata de algo menor diante dos descalabros  que se tornaram rotina na gestão da coisa pública em nosso país.

Em meu modo de ver, justamente porque o torpedeamento diário dos valores e crenças sadias da população é tão incessante que as pessoas estão confusas e com a sensação de fim de feira. Até porque estamos assim na economia e na gestão pública.

A própria Força Sindical do deputado Paulinho deveria ter, no mínimo, advertido o ridículo bundudo, enquanto a amante-presa poderia ter sido retirada do recinto.

Mas, quem tem moral no Congresso Nacional para exigir que os impertinentes, os desrespeitosos, sejam de alguma forma punidos? Pode não sobrar ninguém.

E lá nave vá.

Sendo roubada aqui, assaltada ali, objeto de negociatas em todo canto. Com o Executivo desmoralizado, corrupto, despreparado. Com o Legislativo chafurdando na lama que respinga do Planalto e nasce em minas internas. Com o Judiciário aparelhado a serviço de um partido que (ainda) exerce o poder.

Somos um país desmoralizado. Entre nós mesmos.

Que falta de educação. De urbanidade. De civilidade.

Que falta de líderes honestos, competentes, decentes.

Que falta de governantes, políticos e juízes voltados para a causa pública.

Que falta de vergonha na cara.

Mas, tudo isso, já sabemos. A questão é pior.

Como mudar, com uma oposição igualmente incompetente, preguiçosa, desorganizada e, sabe-se lá, até onde, comprometida?

“Só” sobra a população ordeira, quem trabalha como honestidade. Não rouba, não sonega, não avilta.

Ignorante em sua maioria, nem sabe o que se passa à sua volta.

Dá vontade de desistir. Mas é o que “elles”, que clamam contra a burguesia e almoçam com dinheiro público (como o patético ex-ministro Padilha) num dos restaurantes mais caros da cidade, onde foi flagrado e criticado publicamente, querem.

Como o burguês-mor do Brasil, Lula, quer.

Não vou dar esse gostinho.