São Paulo, 09 de Dezembro de 2016

/ Opinião

A mentalidade anticapitalista
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É de bom tom entre as esquerdas ignorar as vantagens exponenciais que, ao longo dos anos, o capitalismo trouxe aos mais pobres

Escrito com Jefferson Viana *

 

Uma das grandes verdades históricas é aquela que mostra como o capitalismo e seus mecanismos de competição beneficiaram e seguem beneficiando os mais pobres.

Desde a Revolução Industrial, a qualidade de vida da humanidade aumentou exponencialmente, com destaque para as camadas mais desfavorecidas.

No entanto, ao invés de vermos louvores ao capitalismo e esse seu notável aspecto humanitário, o que se observa é exatamente o inverso: pessoas comuns, intelectuais e personalidades - como o vocalista da banda Detonautas Tico Santa Cruz, o cineasta Pablo Vilaça, o humorista Gregório Duvivier, o ator Wagner Moura e o cantor Chico Buarque - vivem condenando o capitalismo por todos os males do mundo, em especial - pasmem! - pela pobreza.

Um dos maiores pensadores da Escola Austríaca de economia, Ludwig von Mises, grande economista nascido na atual Ucrânia, mas que viveu e se destacou na Áustria, escreveu, na década de 1950, o livro-chave para compreendermos tal fenômeno: “A Mentalidade Anticapitalista”.

Mises inicia o livro relembrando que as nações mundo afora que vieram a ter mais prosperidade foram justamente aquelas as quais colocaram menos barreiras ao empreendedorismo, à propriedade privada e à livre iniciativa, elementos essenciais ao funcionamento do capitalismo.

Uma das principais características desse sistema econômico é a produção em larga escala de bens que têm como destino o consumo das camadas populares da população.

Segundo Mises, a acumulação de capital e de bens só será obtida se aqueles produtos e serviços ofertados forem adquiridos pelos consumidores.


Caso contrário, os detentores do capital irão à bancarrota pois investirem em coisas que não satisfizeram a demanda do público-alvo.

E graças a esse desejo de acumular capital, indivíduos oferecem produtos e serviços em um sistema de competição de preços, que faz com que cheguem a um valor mais baixo ao consumidor.

O vendedor dos serviços não está vendendo o serviço porque é uma pessoa abnegada e boa. Ele o faz porque quer aumentar seu próprio bem-estar econômico.

Adam Smith, pai do liberalismo econômico, em “Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações”, explicita isso: “não é da bondade do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm pelo seu próprio interesse”.

Assim, esse desejo de lucrar gera a competição de preços, que, combinado ao desenvolvimento tecnológico, acaba por fazer com que produtos de alta qualidade cheguem a um preço baixo à mão do consumidor final. 

Graças ao advento do capitalismo, os pobres podem usufruir de coisas jamais imaginadas até para nobres de tempos passados.

Como o próprio Mises diz em outro livro de sua autoria, “As Seis Lições”, “O pobre dos tempos atuais vive mais e melhor que reis do século XVI”.

Por que, então, muitos em seu posicionamento ideológico tendem a ter a chamada “mentalidade anticapitalista”?

Normalmente, a postura principal que motiva esse pensamento é o sucesso ou o fracasso, no ponto de vista financeiro e profissional. Aqueles que não conseguem ser bem-sucedidos em sua área de atuação sentem-se humilhados e insatisfeitos.

Procurando um bode expiatório para despejar a sua ira, colocam-na no “sistema”, passando a crer que no sistema capitalista somente exploradores, desonestos e egoístas enriquecem.

O anticapitalista explica o seu fracasso utilizando o argumento de que, por ser honesto, não buscou “jogar o jogo cruel do capitalismo”. Justifica-se dizendo ser uma pessoa melhor que todos os “porcos capitalistas”, considerando-se, por isso, “altruísta”. 

Esse tipo de pensamento simplesmente detesta a fina ironia do saudoso Roberto Campos, o qual dizia que “o mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes”.

Na linha de raciocínio anticapitalista, se todos estiverem em pé de igualdade, a sua situação inferior pararia de lhe incomodar. O passo seguinte, portanto, é colocar-se em prol da “igualdade geral”.

Mas não é apenas o fracasso o gerador do sentimento anticapitalista. A inveja também é um elemento poderoso. A observação de que todos ao seu redor prosperaram é torturante para o anticapitalista.

A inveja transforma-se em sua filosofia de vida. O seu fanatismo e acidez nas críticas ao capitalismo é originada do fato que esse tipo de pessoa está travando uma luta contra a sua própria pequenez.

Sonha com uma “Justiça Social”, onde as pessoas serão tratadas pelo seu “Real valor”.

Sua cólera contra o sistema canaliza-se para a meritocracia e o livre-mercado, por exemplo, pois estes possibilitaram que outros indivíduos viessem a ocupar posições onde os próprios anticapitalistas gostariam de ocupar.

É exatamente esse tipo de situação que descreve muitos dos chamados de “intelectuais”. As fantasias as quais esses “paladinos do saber” vivem dizendo aos quatro-ventos são um refúgio para suas próprias falhas e deficiências.

Basta ter uma conta em alguma rede social e uma “Bolsa-Rouanet”, para sair digitando em caps lock que o “pobre é pobre porque o rico é rico”.

Esse tipo é guiado por suas paixões, e não pela razão. Tudo para “ficar bem na foto”, ignorando os mecanismos econômicos e suas óbvias vantagens para a sociedade. 

Obviamente, no Brasil, ser contra o capitalismo e “a favor dos pobres” é bastante lucrativo.

Ser anticapitalista por aqui traz um imerecido prestígio aos que se posicionam dessa maneira desde que, nos anos 1960, nossa cultura foi invadida e dominada pelo pensamento de esquerda, que a asfixiou, transformando-a em instrumento para a ascensão do poder destes que, atualmente, nos desgovernam.

Por outro lado, o “elitismo” também gera sentimentos anti-mercado.

Muitos que possuem um alto poder aquisitivo observam com total desdém as preferências das massas, decidindo lançar toda a sua cólera no capitalismo.

Todavia, o que vem por caracterizar o capitalismo não é bem a preferência do povo, mas sim suas escolhas de consumo.

O consumo de literatura, artes, música e outros serviços era privilégio de uns poucos no passado. É claro que as massas populares podem escolher Augusto Cury, Talita Rebouças ou João Bidu em vez de William Shakespeare, Franz Kafka ou Emily Brontë.

No entanto, num passado não tão remoto escutar Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Verdi e Chopin era um privilégio para uns poucos aristocratas.

Nos dias atuais, qualquer pessoa pode adquirir músicas por uma ninharia e até de graça. O mesmo pode ser dito de clássicos da literatura.

São geradas inúmeras possibilidades, vendendo aquilo que o consumidor opta por adquirir. Se há uma preferência por ouvir sertanejo universitário, arrocha, axé, funk e pagode, ler “Cinquenta Tons de Cinza” ou Paulo Coelho, isto não é culpa do capitalismo.

Além das classes mais abastadas servirem como “cobaia” para as massas - pois o luxo que está sendo testado pelos ricos hoje é o produto trivial para todos amanhã – a massificação dos artigos favorece e eleva o padrão de vida dos mais pobres.

Curiosamente, como se vê, o capitalismo pode ser odiado tanto por aqueles que acham que o sistema provoca pobreza, como aqueles que entendem claramente seu aspecto de massificar o consumo, embora esses últimos críticos tendam a ser menos numerosos entre nós.

Como observou Roberto Campos, “os socialistas, que tanto falam nas massas, não foram os criadores nem do consumo de massa, nem da cultura de massa. Essas massificações equalizantes foram produzidas pela cultura individualista americana (...). O cinema, originado no Ocidente, talvez tenha sido a primeira ‘cultura de massa’ do mundo, agora ampliada pela televisão e pela Internet, também criações capitalistas”.

É inegável que os pobres podem viver melhor pegando “carona” no avanço tecnológico e no amplo desenvolvimento material advindo do sistema capitalista.

Qualquer usuário dos produtos do Google e da Microsoft, por exemplo, deveria agradecer ao “egoísmo dos opressores” em prol do “famigerado lucro” capitalista por inúmeras facilidades que se encontra hoje à disposição.

Todos que consomem remédios e tratamentos medicinais também deveriam louvar o capitalismo pelo avanço exponencial no campo da medicina, por exemplo.

A expectativa de vida quadruplicou, crianças morrem em quantidade ínfima, e a qualidade de vida avançou em velocidade-luz em comparação a épocas passadas.
 
A comparação também é válida no presente ao colocarmos lado a lado o nível de vida dos países não capitalistas - como Coréia do Norte, Cuba, Venezuela e Vietnã - com Austrália, Chile ou Portugal, países cujo capitalismo nem é tão exuberante.

Em nossas cátedras universitárias, no entanto, segue-se a doutrinação anticapitalista, nossos juízes do STF insistem em culpar a iniciativa privada pela corrupção política, e a desigualdade de renda brasileira é apontada como fruto de um fictício “capitalismo selvagem”, e não do alto grau de intervencionismo estatal em nossa economia.

Somente um combinado de ingenuidade, ignorância, inveja, mau-caratismo e fortes injeções de dinheiro estatal pode explicar esse fenômeno mental.

A solução para tratar essa mentalidade? Desmascare os “anticapitalistas” com doses cavalares de Mises!

 

*Jefferson Viana,  graduando em História na Uerj, coordenador local da rede acadêmica “Estudantes Pela Liberdade” (EPL) e membro-fundador do “Movimento Universidade Livre” (MUL)

 



"Há basicamente três tipos de outsiders. Para abreviar, vou chamá-los de “o fracassado”, “o gênio” e “o militante”

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