São Paulo, 30 de Setembro de 2016

/ Opinião

A marolinha virou onda
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A senhora presidente disse em Bruxelas que as famílias devem consumir para contornar a recessão, mas o Banco Central - corretamente - aumenta os juros para conter a inflação e, paralelamente, desestimular o consumo

Não sou eu quem o diz. Atribui-se o dito à senhora presidente durante a Cúpula União Europeia-Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, em Bruxelas.

Além disso, atribui-se à presidente ter afirmado que a atual inflação é “atípica”. Atípica ou não, ela é a maior em 12 meses, desde 2003 e já ronda os 8,5%.

A despeito disso, recomendou que as famílias precisam continuar consumindo para conter a rápida evolução da economia para uma recessão de grandes proporções.

Ora, essa estratégia de promover o consumo foi justamente o que precipitou a atual crise. Não é com exortações que as famílias irão gastar mais, sustentando a atividade econômica.

Para isso, seria necessário novamente recriar os incentivos que levaram à onda de consumo anterior.

Os instrumentos para isso são conhecidos: crédito abundante, juros baratos e prazos longos para os o pagamento dos financiamentos. Com essa combinação, as prestações ficam pequenas e cabem nos orçamentos de todos.

Não é isso, contudo, que está ocorrendo. O Banco Central retomou o caminho de alta para a taxa referencial que utiliza, a Selic. O Comunicado emitido essa semana após a última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom) dá todas as indicações de que o ciclo de alta dos juros ainda não se esgotou.

Além disso, a expansão do crédito nos bancos comerciais nos últimos 12 meses é inferior à inflação, indicando que de fato está em curso uma contração na disponibilidade de crédito em termos reais.

Embora ainda expansionista, também nos bancos públicos o crescimento das disponibilidades de crédito está se contraindo.

Finalmente, a recessão que já bate às portas de muitas fábricas está criando o espectro do desemprego, como sempre ocorre em uma recessão da atividade econômica.

O risco do desemprego não estimula o consumo, mas a poupança. É com ela que se cria um anteparo de recursos para manter o consumo essencial, caso a família seja atingida pelo desemprego.

De onde as famílias obteriam recursos para continuar consumindo, como se afirma ser o desejo da senhora presidente?

Hoje, os consumidores estão assustados com o desemprego que já bate à porta; o crédito está em contração e com juros mais altos, traduzido em prestações mais caras; e se as famílias estão poupando para garantir o pagamento do aluguel, do supermercado e da escola das crianças.

A única opção para continuar consumindo, sacar o dinheiro da poupança, choca-se com o desejo das famílias de fazer o contrário, criar um colchão de recursos para os tempos bicudos que vêm pela frente.

A marolinha não está virando onda e quebrando sobre a atividade econômica. A onda dos gastos na gestão anterior acelerou fortemente a inflação.

A senhora presidente mostra-se preocupada com a sua evolução e afirma que o objetivo de derrubar a inflação é prioritário.

Nesse quesito, a decisão do Copom de continuar elevando a Selic está de acordo com as preocupações da presidente. Pouco importa se na raiz da inflação estejam a seca que atingiu de forma também “atípica” o país ou a alta do dólar.

Inflação é alta continuada dos preços, e as causas dessa alta não tem nada a ver com a necessidade de combatê-la ou com os instrumentos a serem utilizados com essa finalidade.



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